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Com alta de mortes e perda de leitos, gestores preveem cenário pior que no início da pandemia de Covid-19
Com alta de mortes e perda de leitos, gestores preveem cenário pior que no início da pandemia de Covid-19
Por Folha de S.Paulo
17/12/2020 às 12:20
Atualizado em 17/12/2020 às 12:20
Foto: Josué Damascena/Fiocruz

Com a nova alta de casos e mortes por Covid-19, a queda da oferta de leitos, a demanda represada da assistência de outras doenças e o orçamento mais enxuto, médicos e gestores da saúde preveem em 2021 um cenário ainda mais difícil do que no início da pandemia.
Do total de 16.500 leitos hospitalares habilitados pelo Ministério da Saúde para Covid, apenas 4.580 estavam em operação, segundo a última atualização do Conass (Conselho Nacional de Secretários da Saúde) no dia 11 de dezembro.
Isso ocorre em um momento em que a média de mortes por Covid no país sofre um aumento de 27% em relação a 15 dias atrás, com o número de óbitos diários ultrapassando a casa dos 900.
O Ministério da Saúde diz que tem sido ágil na habilitação dos leitos, que os gestores recebem os recursos antes mesmo da ocupação deles. Para isso, precisam indicar a curva epidemiológica do coronavírus na região, a estrutura para manutenção e funcionamento da unidade intensiva, e corpo clínico para a atuação nas UTI.
O SUS perdeu 3.836 leitos de UTI de julho a outubro, de acordo com dados da Amib (Associação Medicina Intensiva Brasileira). O número passou 26.780 para 22.844.
Na rede privada, também houve perda de 4.961 leitos no mesmo período, passando de 27.967 para 23.004.
Ao mesmo tempo, há consenso no setor de que não é possível mais priorizar apenas os casos de Covid. A desassistência das outras doenças já mostra o seu impacto: aumento nas UTIs da taxa de mortalidade por outras doenças não Covid.
O índice das UTIs privadas estava estável nos anos anteriores e deu um salto em 2020 —de uma média de 0,84 para 1,22. Os dados das públicas ainda estão sendo concluídos.
Essa taxa de mortalidade padronizada é ajustada de acordo com a gravidade e o perfil do paciente. É calculada a partir da taxa de mortalidade esperada, com base nos anos anteriores, e a realmente observada na UTI.
Por exemplo: se é esperada uma taxa de mortes de 20% e ela ocorre de fato nesse patamar, a taxa padronizada é de 1 (dentro do previsto). Acima de 1, está ruim; abaixo de 1, o resultado é melhor que o esperado.
“A taxa de mortalidade vinha caindo nas UTIs privadas e na públicas. Nossa força-tarefa conseguiu evitar um colapso da Covid, mas não assistiu de forma adequada os outros pacientes. Em 2021, a gente não pode deixar isso acontecer”, diz a médica intensivista Suzana Lobo, presidente da Amib.
Segundo ela, os gestores de saúde têm que estar voltados agora para as necessidades reais de leitos de pacientes Covid e não Covid. “Vamos ter meses aí pela frente. Se essa onda da Covid for mais forte do que a outra e se vacina não vier logo, a impressão que eu tenho é que não vai ter leito, não vai ter hospital.”
Painel do Conass (Conselho Nacional dos Secretários de Saúde) mostra que neste ano, até o dia 11 de dezembro, o país já teve um excesso de mortalidade de 185.847 óbitos. Só as mortes por Covid ultrapassaram 182 mil.
Esse indicador é obtido a partir das mortes esperados em 2020, com base no SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, entre 2015 e 2019, e dos óbitos observados em 2020 pelo Portal da Transparência do Registro Civil.
Para Jurandir Frutuoso, secretário-executivo do Conass, além da Covid, o excesso de mortalidade pode estar relacionado à sobrecarga nos serviços de saúde, à interrupção de tratamento de doenças crônicas ou pela resistência de pacientes em buscar assistência à saúde, pelo medo de se infectar.
O médico intensivista Ederlon Rezende, diretor da UTI do Hospital do Servidor Público Estadual, diz que entre março e novembro deste ano houve uma queda de 50% no número de cirurgias que demandam UTI (de 2.000 para 1.000) em relação ao mesmo período de 2019.
Ao mesmo tempo, foi constatado um aumento de 40% na taxa de mortalidade nesse mesmo intervalo. “Se eu derrubo as cirurgias para só atender Covid, depois esses pacientes chegam mais graves e correm mais risco de morte. É uma situação encarada hoje no Brasil afora.”
