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Apoio do Itamaraty em demora de Bolsonaro de parabenizar Biden constrange diplomatas

Apoio do Itamaraty em demora de Bolsonaro de parabenizar Biden constrange diplomatas

Por Estadão

16/12/2020 às 11:41

Atualizado em 16/12/2020 às 13:44

Foto: Angela Weiss/AFP

O democrata Joe Biden vencedor das eleições presidenciais americanas

A revelação feita nesta quinta-feira, 16, pelo Estadão de que o presidente Jair Bolsonaro foi munido de informações pelo embaixador Nestor Forster Junior para protelar o reconhecimento da vitória do democrata americano Joe Biden deixou diplomatas brasileiros no País e no exterior ainda mais constrangidos com o episódio.

O Brasil foi pelo menos o último país do grupo das 20 maiores economias do globo (G20) a parabenizar o próximo presidente americano.

“O quadro já era vergonhoso por demorarmos tanto a reconhecer algo que era óbvio, mas a constatação de que isso se deu baseado no suporte do Itamaraty é ainda pior”, comentou um deles, sob condição de anonimato. O Estadão/Broadcast entrevistou quatro diplomatas durante esta manhã e nenhum deles se sentiu confortável em fazer declarações abertas. Argumentaram que o anonimato era a única forma de se protegerem neste momento, pois temem uma “caça às bruxas”.

Até por dever de ofício, qualquer membro do corpo diplomático costuma ser muito reservado em suas avaliações, mas o quadro de pressão tem ficado cada vez pior, segundo os que conversaram com a reportagem.

A notícia do Estadão vem no dia seguinte à rejeição pelo plenário do Senado da indicação do embaixador Fabio Marzano para assumir a delegação brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. Esta foi a segunda vez que os senadores vetaram um nome indicado pelo Palácio do Planalto – a primeira foi a de Guilherme Patriota, no governo de Dilma Rousseff.

A derrota caiu diretamente na conta de Ernesto Araújo, que já estaria bambeando no cargo. A orquestração da barreira dos parlamentares foi construída pelo líder do PSL, Major Olímpio, que conclamou os senadores a mandarem o chanceler “para o inferno”. Olímpio era um forte aliado do presidente e a rejeição de Marzano foi uma forma de passar o recado de insatisfação para a Presidência.

“O que mais nos deixa atônitos é o fato de muitas das mensagens enviadas de Washington terem como ponto de partida fake news”, comentou uma das fontes. Não fosse apenas uma informação frágil e errada por si, esse diplomata lembrou que, no atual governo, Brasília determinou a todas as embaixadas no exterior que tivessem uma atuação mais proativa em relação ao noticiário internacional envolvendo o Brasil, justamente com o argumento de evitar que circulem notícias falsas sobre o País.

Nos últimos meses, reportagens vêm mostrando a atuação dessa orientação no exterior, com embaixadores entrando em contatos com veículos de imprensa nos países onde atuam para fornecer os dados oficiais – e apontados como os corretos – sobre vários temas. Os assuntos relacionados ao desmatamento na Amazônia e outras questões ambientais são os mais comuns por atraírem maior atenção dos jornais internacionais.

Em telegramas enviados ao Planalto, Forster Junior ignorou a posição de seus colegas em Washington. Ele também levou adiante o discurso de Donald Trump, que perdeu o pleito, de que haveria “diversos relatos” de fraudes em alguns Estados americanos. Bolsonaro apenas reconheceu o triunfo de Biden ontem, 38 dias após a eleição nos Estados Unidos. Os diplomatas estão certos de que essa postura do Planalto terá pouca influência sobre os negócios entre os dois países, mas pode pesar na relação, que já começa desgastada.

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