Fatura de dívidas adiadas na pandemia começa a chegar para empresas
Por Folha de S.Paulo
23/09/2020 às 07:26
Foto: Marcelo Casal Júnior/Agência Brasil

A conta das dívidas e pagamentos adiados para tentar conter os impactos da crise do coronavírus começa a chegar ao caixa das empresas.
Com o faturamento ainda aquém dos níveis pré-pandemia e baixa demanda, empresários focam em controle de custos e novas renegociações de crédito para sobreviver até o ano que vem.
Além dos débitos que os bancos prorrogaram por até 180 dias –prazo que já começa a vencer a partir de outubro–, parcelas dos tributos adiados pelo governo e a volta do pagamento integral de aluguéis e da folha de salários também podem coincidir nos próximos meses e, segundo especialistas, aumentar os níveis de inadimplência.
Para as empresas que conseguiram pegar a primeira leva do Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), entre junho e julho, os primeiros pagamentos devem começar a acontecer entre fevereiro e março do ano que vem, quando acabam os oito meses de carência do programa.
José Ernesto Betteli, responsável pela área financeira do Mumbuca Buffet, em Palmas, no Tocantins, conseguiu tomar recursos do Pronampe e a empresa deve ter fôlego para ir com razoável tranquilidade até o final deste ano.
“A boa notícia é que a maioria dos nossos clientes não cancelou os seus eventos, tendo apenas adiado para 2021. Continuamos a segurar custos e o Pronampe vai servir de capital de giro por um tempo”, disse.
Segundo a consultora de negócios do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) Leidiane Lima, as medidas anunciadas pelo governo de acesso ao crédito para companhias, como o próprio Pronampe ou o crédito para pagar o salário de funcionários, foram positivas e ajudaram uma parcela importante de empresas a ter caixa para superar a crise, mas a maioria não terá recursos para cobrir as despesas dos próximos meses.
“A maior parte dos negócios não está com o caixa preparado. Todo o mundo fez o que pôde, mas muitos terão que partir para uma nova renegociação e, infelizmente, ainda vamos ver algumas empresas fechando as portas”, afirmou.
Mesmo aqueles que conseguiram se preparar ainda enfrentaram dificuldades. Gerson Higuchi, dono do restaurante Apple Wood, no Jardim Anália Franco, zona leste de São Paulo, afirma que se planejou com base em dois cenários: um otimista, que considerava que a pandemia terminaria entre junho e julho, e um pessimista, que projetava que a crise duraria até final do ano.
“Logo no começo eu já comecei a enxugar custos e cheguei a tentar quatro linhas de crédito. Negociamos boletos e aluguéis, aproveitei a deixa para adiar o pagamento de impostos, cancelei contratos com parceiros e prestadores de serviços e desliguei 15 das 20 pessoas da equipe. Também precisei afastar outras duas funcionárias essenciais, uma gestora e outra cozinheira, cujos cargos eu acabei assumindo”, afirmou.
Atualmente, Higuchi abre o salão do restaurante apenas entre sexta e domingo. Seu faturamento está entre 10% e 30% dos níveis pré-pandemia.
“Nós temos um planejamento para a fase de final de ano, mas se eu disser que consegui fazer caixa, é mentira. É tudo baseado em negociação de contas e o movimento não é constante: tem dias que faço R$ 10, outros que faço R$ 200. E eu já começo a ter receio de pegar crédito porque vou criar mais uma dívida. Pelo menos por enquanto, ainda que aos trancos e barrancos, a empresa está caminhando”, disse Higuchi.
Para Vilson Borgmann, presidente do Sipcep (Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria no Paraná), a maior preocupação é com aqueles que pegaram crédito bancário, com prazos menores e juros mais altos do que aqueles oferecidos pelas linhas do governo.
“Muitos tomaram crédito bancário porque ou pegava, ou fechava. Nosso setor conseguiu se antecipar para a redução da jornada, o que ajudou a economizar, mas não existe sobra de dinheiro. Todos estão trabalhando no fio da navalha e o medo é que as prestações comecem a chegar e que não haja faturamento para cobrir esses gastos”, afirmou.
Segundo o 11º boletim de tendências do Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria) com dados do Datafolha, 38% dessas empresas afirmam que não têm capital suficiente para fazer o giro dos seus negócios —e o acesso a crédito ainda ainda afeta 8 em cada 10 micro e pequenas indústrias no estado de São Paulo.
Apesar de os últimos dados da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) apontarem que as instituições financeiras emprestaram cerca de R$ 1,8 trilhão de 1º de março a 21 de agosto, incluindo contratações, renovações e suspensão de parcelas, o acesso a esses recursos foi diferente para os diversos setores da economia, o que deve afetar a obrigação de pagamentos de parte considerável das empresas.
