Trump diz que "estado profundo" está atrasando vacina contra covid-19
Por Folha
22/08/2020 às 16:23
Atualizado em 22/08/2020 às 16:23
Foto: Nicholas Kamm / AFP

Sem apresentar provas, o presidente americano, Donald Trump, acusou integrantes do "estado profundo" da Agência de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês) de tentar atrasar os testes da vacina contra covid-19 para que não ocorram antes da eleição presidencial de novembro.
Em uma postagem no Twitter, Trump afirmou que o "estado profundo" ou "seja lá quem for" na FDA estava dificultando muito o recrutamento de pessoas pelas farmacêuticas para participar dos testes clínicos das vacinas e terapias contra o coronavírus. Ao citar o "estado profundo", Trump subscreve a teoria da conspiração de que parte dos funcionários públicos tentam sabotar o governo do republicano.
A postagem veio na esteira de uma reportagem da agência Reuters na quinta-feira (20), em que uma alta autoridade do FDA disse que iria pedir demissão se o governo Trump desse sinal verde a uma vacina antes de ficar comprovado que ela é eficaz e segura.
"Obviamente, eles querem adiar a resposta até depois de 3 de novembro. Precisam se focar em rapidez e em salvar vidas!', escreveu Trump, marcando o comissário da FDA, Stephen Hahn, no tuíte.
A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, afirmou que a postagem era uma "afirmação perigosa" e que era "inadmissível" o presidente acusar a FDA de estar fazendo politicagem.
A FDA não respondeu aos pedidos de comentário.
Em coordenação com a FDA e com os Institutos Nacionais de Saúde, as farmacêuticas já estão aumentando a produção, enquanto os testes ainda estão em curso, para que possam fabricar uma vacina contra covid-19 o mais rápido possível. A doença já matou quase 800 mil pessoas no mundo, sendo mais de 175 mil nos EUA.
Trump frequentemente usa o Twitter para criticar órgãos federais, às vezes afirmando que são controlados por um "estado profundo", supostamente composto por funcionários que tentam sabotar a agenda do republicano.
Sua postagem aumenta a pressão sobre a FDA. Peter Marks, diretor do Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica da FDA, afirmou na semana passda, em teleconferência com autoridades do governo, farmacêuticas e acadêmicos, que ele iria se demitir se a agência aprovasse uma vacina sem eficácia comprovada.
Cientistas, autoridades de saúde pública e legisladores temem que Trump vá pressionar a FDA a aprovar uma vacina antes da eleição, ainda que os resultados dos testes clínicos não deem respaldo a seu uso em grande escala.
Marks, cuja divisão regulamenta tratamentos biotecnológicos, vacinas e terapias genéticas, disse à Reuters que não sofreu nenhuma pressão política e que a FDA será guiada apenas pela ciência. Se isso mudasse, ele afirmou na quinta-feira (20,) "eu me sentiria obrigado (a pedir demissão), porque, ao fazer isso, indicaria ao público americano que alguma coisa está errada."
