Após vetar ajuda de ONG no combate da Covid-19 entre indígenas, governo recua
Por Folhapress
21/08/2020 às 11:10
Atualizado em 21/08/2020 às 11:10
Foto: Leo Caldas/Folhapress

Apesar dos apelos de caciques e do próprio governo estadual, o Ministério da Saúde desautorizou a presença da organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) em ações de enfrentamento à Covid-19 na zona rural do Polo indígena de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul.
Sob pressão nas redes sociais, teve que voltar atrás e acenar com a hipótese de aceitar ajuda, contanto que a organização detalhe seu projeto.
Os Médicos sem Fronteiras atuam em situações de emergência sanitária, guerras e realizam ações de prevenção em todo o mundo. No Brasil, têm colaborado no combate ao novo coronavírus, por exemplo, entre moradores de rua de São Paulo.
O governo Bolsonaro só tinha permitido a ação dos MSF em um posto de saúde de uma aldeia urbana, onde estão apenas 450 dos 11.600 indígenas da etnia terena que habitam a região.
Segundo dados divulgados pelo governo, até segunda-feira (17), foram confirmados 286 casos de Covid-19, com 18 mortes, no polo de Aquidauana. A reportagem apurou que, em boletins internos do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), os casos somam 678. Na contagem do Conselho Terena, que congrega lideranças indígenas, são 1.239.
Ao longo de todo o dia, o Ministério da Saúde reafirmou, em nota, a disposição de limitar a ação dos MSF. Só à noite sinalizou com a possibilidade de ampliação, desde que o plano seja revisto.
O impasse ganhou corpo na semana passada. Após reuniões com caciques e autoridades municipais e estaduais, os Médicos Sem Fronteiras apresentaram ao governo Bolsonaro um plano de trabalho que previa, no período de 10 a agosto a 9 de setembro, o atendimento a 5.000 indígenas em sete aldeias.
Pelo projeto inicialmente apresentado, a clínica móvel dos MSF seria composta por um médico, dois enfermeiros, um psicólogo e um promotor de saúde, além de um funcionário de saneamento básico. Outros nove profissionais de saúde reforçariam o atendimento do hospital regional de Aquidauana.
O plano propunha a realização de ações coordenadas com o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), incluindo visitas a comunidades para prevenção e detecção de casos suspeitos de Covid-19, encaminhamento dos doentes para tratamento e apoio em saúde mental para comunidades e profissionais de saúde.
Na sexta-feira (14), quando a equipe da ONG já estava na região, a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) encaminhou um ofício ao coordenador do DSEI do Mato Grosso do Sul, Luiz Antônio de Oliveira Júnior, determinando que o plano fosse revisto.
Segundo o ofício, "a ajuda será bem-vinda no posto de saúde, gerenciado em parceria com a prefeitura de Anastácio, localizado na Aldeia Aldeinha".
