Pequeno investidor ajuda a explicar súbito sobe e desce do dólar
Por Folha de S.Paulo
27/07/2020 às 10:12
Atualizado em 27/07/2020 às 10:12
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em 2020, o dólar já esteve cotado a R$ 5,89 e também a R$ 4,02. Em um único dia, 12 de março, chegou a oscilar mais de 30 centavos e foi de R$ 5,0283 a R$ 4,7090 para depois fechar em R$ 4,8207. Na sexta, terminou em R$ 5,21.
Essa montanha-russa no preço da moeda é chamada, no mercado financeiro, de volatilidade —e o real se tornou, na esteira da pandemia, a mais volátil das moedas emergentes.
A mudança brusca de comportamento foi tão grande que o presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto, passou as últimas semanas dizendo que não sabe a origem das movimentações bruscas e que o BC não tem instrumentos para conter solavancos desse tipo.
Na sexta-feira (24), o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra, sinalizou em transmissão ao vivo que vai adotar alguns instrumentos para amenizar a situação, sem obter consenso no mercado sobre a efetividade deles.
Coincide com as movimentações bruscas da moeda a expansão do mercado de minicontratos de dólar futuro negociados na B3. Esses contratos são usados tipicamente para negócios em day trade (em que o investidor compra e vende o papel no mesmo dia).
Economistas —e o próprio Banco Central— evitam dizer que o crescimento desse mercado tenha causado o aumento de volatilidade. No mercado de câmbio brasileiro, porém, há quem diga que o rabo abana o cachorro —ou seja, o valor do dólar é formado no mercado futuro, e não nos negócios efetivamente feitos com a moeda à vista.
Existe no mercado de contratos futuros de dólar o padrão, de US$ 50 mil, e o minicontrato, de US$ 10 mil, que facilitou a entrada do pequeno investidor. O minicontrato exige um volume menor de recursos para dar em garantia dos negócios, o que tornou o mercado mais acessível a pessoa física.
O rabo da expressão acima sempre foi o contrato padrão, usado principalmente por estrangeiros, grandes empresas exportadoras como instrumento de proteção de receitas (hedge) e por tesourarias de bancos.
Com o agravamento da pandemia, o volume de negócios com minicontratos cresceu e ultrapassou o negociado com contratos padrão. Agora, alguns analistas do mercado começam a se perguntar —ainda sem resposta— qual tem sido o mercado formador de preço.
Em junho, o volume em minicontratos foi de US$ 784,3 bilhões, ante US$ 366,1 bilhões no mercado tradicional, de acordo com dados da B3. A virada ocorreu em maio.
Também segundo dados da B3, os principais participantes do mercado de minicontratos são estrangeiros (48%), seguidos por investidores pessoa física (36%). No mercado padrão a participação de estrangeiros é semelhante, mas pessoas físicas respondem por apenas 6% dos negócios.
A Bolsa não forneceu a série histórica da participação de investidores por perfil.
“O volume do mini está muito maior. Um dos culpados é o gringo e, sim, outro culpado é o investidor pessoa física”, afirma o professor de finanças Alexandre Cabral, que dá há anos aulas em cursos da B3, inclusive sobre como operar minicontratos em Bolsa.
Quando um investidor decide operar no day trade, ele depende justamente da volatilidade para fazer negócios.
Uma outra característica de negócios de curtíssimo prazo é a alta presença de robôs nos negócios. A corretora com maior participação em minicontratos de dólar é a Ideal Investimentos, que justamente oferece serviços de tecnologia para operações.
Os executivos da empresa não quiseram conceder entrevista para essa reportagem.
Há um outro ator curioso no mercado de minicontratos futuros de dólar: o ex-doleiro da Lava Jato, Alberto Youssef, criou no final do ano passado três robôs para operar.
Wilson Neto, analista da Clear Corretora, afirma que o mercado de minicontratos cresceu com a maior volatilidade e também com a liquidez, pré-requisitos para negócios em day trade. Se não houver liquidez no mercado, um investidor pode não conseguir, por exemplo, revender o contrato que comprou pela manhã. Se o preço não muda, há pouco espaço para ganhar na oscilação.
“Para day trade, não importa se o mercado está subindo ou caindo. O que importa é a volatilidade. e o dólar tem isso todo dia”, diz Neto.
A Clear é uma corretora especializada em day trade e faz parte do Grupo XP. Para fomentar o mercado, diz Neto, a empresa reduziu o dinheiro que o investidor deve dar em garantia para operar a R$ 22, disponibilizou um simulador e vende cursos.
Apesar dessa avalanche de pequenos investidores e crescimento do day trade, economistas evitam relacionar os dois fenômenos.
Júlia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco, diz que é difícil determinar uma relação de causa e efeito, citando uma fala do diretor de Política Monetária do (BC), Bruno Serra, nesse sentido.
Um dos motivos para cautela entre economistas é a natureza do mercado de day trade. Como teoricamente o investidor começa e termina a operação no dia (zera a posição), esse negócio não teria efeito sobre a taxa de câmbio no longo prazo.
“Se pega [a volatilidade] tanto a intraday ou a de um mês, as duas aumentaram. Concordo que o day trade deveria afetar mais o intraday do que a volatilidade histórica”, diz Gottlieb.
Mas ela aponta que o pessoa física pode montar posição no dia e desmontar no outro, e que isso vai aos poucos aumentando essa interferência no mercado.
