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Aras avalia pedir depoimento de Bolsonaro no inquérito que apura suspeita de interferência na PF
Aras avalia pedir depoimento de Bolsonaro no inquérito que apura suspeita de interferência na PF
Por Folha de S.Paulo
27/05/2020 às 06:45
Atualizado em 27/05/2020 às 06:45
Foto: Isac Nóbrega/PR

O procurador-geral da República, Augusto Aras, avalia com sua equipe pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deponha no inquérito que apura se ele tentou interferir politicamente na Polícia Federal.
A expectativa é que a solicitação seja feita até a semana que vem ao ministro Celso de Mello, relator do caso, na próxima leva de diligências que os investigadores devem encaminhar à corte.
A oitiva de Bolsonaro é considerada fundamental para elucidar os fatos em apuração, tendo em vista que algumas das principais suspeitas sobre o mandatário decorrem de falas dele próprio em aparições públicas e no vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, divulgado na última sexta-feira.
O presidente ainda não apresentou, no inquérito, a sua versão sobre os fatos até agora levantados, embora venha se defendendo publicamente de algumas das suspeitas.
Ele terá de ser inquirido a respeito das evidências colhidas em depoimentos de testemunhas, do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, também investigado, e de elementos de prova de outra natureza, como as mensagens trocadas com Moro.
Conforme o Código do Processo Penal, o presidente tem a prerrogativa de depor em local, dia e hora previamente ajustados com o magistrado.
Também pode optar por dar as explicações por escrito. Nesse caso, diz a lei, as “perguntas, deferidas pelo juiz, Ihes serão transmitidas por ofício”.
Bolsonaro passou a ser investigado após Moro romper com o governo em 24 de abril. O ex-juiz da Lava Jato o acusou de tentar nomear pessoas de sua confiança em postos-chave da PF, entre eles a chefia da superintendência da corporação no Rio, por ter interesse em investigações em curso.
Por ora, ele tem dado declarações públicas nas quais sustenta, por exemplo, que não buscava trocar o comando da PF no Rio, mas o pessoal do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) que cuidava de sua proteção pessoal e da de sua família.
O conjunto de indícios colhidos no inquérito, no entanto, contradiz o presidente.
Embora atribua ao GSI sua insatisfação, manifestada na reunião de 22 de abril, o chefe do grupo designado para a segurança da família presidencial foi promovido semanas antes da agenda com os ministros, gravada em vídeo.
Dois dias depois do encontro, foi o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, quem ele demitiu. O primeiro ato da nova cúpula da corporação foi mudar o superintendente no Rio, estado em que correm investigações com potencial de atingir parentes e aliados do presidente.
Outra evidência a ser explicada por Bolsonaro é a mensagem enviada a Moro no mês passado, na qual ele diz ser motivo para a troca de Valeixo notícia de que a PF estava investigando, no chamado inquérito das fake news, um grupo de deputados bolsonaristas.
A equipe que auxilia Aras vê indícios de que o presidente cometeu algum dos seguintes delitos: prevaricação, advocacia administrativa ou afronta a um dispositivo da lei de abuso de autoridade.
A avaliação é preliminar.
A delimitação de eventual crime a ser atribuído ao mandatário depende do avanço do inquérito e de ouvir oficialmente a versão de Bolsonaro.
A decisão sobre se cabe acusar o presidente e sobre qual tipo penal será eventualmente aplicado é exclusiva do procurador-geral.
Essa análise só ocorre mais adiante, depois de a PF concluir seu trabalho de investigação e apresentar relatório-final à PGR.?
À Folha, o advogado de Moro, Rodrigo Sánchez Rios, afirmou que o depoimento de Bolsonaro é necessário e pediu para formular questionamentos.
?"É imprescindível autorizar a defesa do ex-ministro a formulação de quesitos a serem dirigidos ao inquirido, mantendo-se, assim, a paridade de armas e o mesmo procedimento adotado quando o ex-ministro prestou depoimento à autoridade policial e respondeu aos questionamentos da AGU", afirmou Rios. ?
