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Contra 'climão' no Natal, projeto indica como falar de política sem brigar

Contra 'climão' no Natal, projeto indica como falar de política sem brigar

Por Folhapress

20/12/2019 às 14:00

Atualizado em 20/12/2019 às 14:00

Uma plataforma que quer ajudar os brasileiros a conseguir falar de política sem brigar considerou ser oportuno pegar carona nas festas de fim de ano para lançar a primeira etapa da iniciativa. A tensão estará à mesa em muitos lares, com o clima de divisão exposto desde a eleição de 2018 e potencializado pelos debates em torno de medidas de Jair Bolsonaro e da soltura do ex-presidente Lula. O Despolarize, projeto que começará nas redes sociais e se desdobrará em encontros e produtos a partir do ano que vem, quer se colocar como mais um movimento que tenta furar o ambiente de polarização.

Criado pelo advogado e ativista político Rafael Poço, 32, o programa dá dicas de como se comportar para dialogar com parentes e amigos em um clima respeitoso, mesmo que haja discordâncias. "Não se trata de um projeto para levar as pessoas a convergir para algum tipo de posicionamento. É focado em estabelecer bases para que a conversa se desenrole de forma mais produtiva", diz ele. A sugestão é experimentar a novidade já no Natal ou no Réveillon. Poço, que tem experiência em iniciativas do gênero e comandou em 2017 na GloboNews a série "Política: Modo de Usar", passou os últimos seis meses elaborando os materiais. A produção envolveu estudos de áreas como negociação, comunicação não violenta, psicologia, sociologia, antropologia e até neurociência.

O resultado será espalhado primeiramente na internet, na forma de pílulas e de um manual que poderá ser baixado. Depois será produzido um baralho que funciona como guia e pode ser "jogado" pelos participantes. Também está nos planos lançar os chamados "embaixadores do diálogo", ou seja, pessoas e instituições dispostas a replicar a metodologia presencialmente e organizar rodas de discussão civilizadas. O primeiro mandamento do Guia Prático para Conversas Difíceis é entrar no papo desarmado. "Comece por você: antes de puxar uma conversa, reflita sobre suas próprias intenções e expectativas. Tente não transferi-las para a outra pessoa", ensina um dos posts. Outra dica é buscar expor sua opinião e tentar entender como os diferentes temas atingem o interlocutor. Para isso, é preciso evitar generalizações e rótulos, no estilo do que se ouve em expressões como "pessoas como você", "vocês de esquerda", "vocês de direita". Também funciona no debate saudável se policiar para não parecer cínico. E vale frisar: respeitar o fato de que a pessoa possa ter uma opinião diferente.

São erros fatais, ainda conforme o guia: supor as intenções da outra pessoa, menosprezar esperanças ou medos dela e fazer julgamentos disfarçados de perguntas. Os exemplos de sarcasmo vetados pelo projeto são indagações como: "Você quer mesmo que eu acredite nisso?" e "Como você pode concordar com algo assim?". Algo precioso para se ter em mente, especialmente nos encontros familiares, é pensar nas barreiras com o ouvinte, que vão de formação cultural e diferença de geração a questões de gênero. Tudo isso parece muito distante da realidade e difícil? Sim, é duro mesmo mudar o comportamento, admite Poço, o autor da plataforma. “Não é um projeto ingênuo, que pressupõe que todos vão ser compreensivos e se dar as mãos. A meta é mostrar que as pessoas podem tentar se expressar e se entender melhor."

O pacote preparado com foco nas festas de fim de ano inclui também um resumo de assuntos que dominaram o noticiário recentemente e podem ressurgir agora, entre um brinde e outro. Reforma da Previdência, prisão após segunda instância, criminalização da homofobia, devastação da Amazônia e universidades públicas são temas tratados à parte, com um resumo dos vários pontos de vista. Com esse material, a intenção do projeto é subsidiar conversas que passem longe de fake news e sejam ancoradas em informações verdadeiras e atualizadas. O Despolarize está abrigado no Politize!, uma organização da sociedade civil focada em contribuir para a formação cidadã e que sobrevive de doações. Um dos principais financiadores da iniciativa até agora é o Fundo Nacional para a Democracia, dos Estados Unidos.

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