10 de novembro de 2016, 16:50

COLUNISTASTrump: Toy Story ou o Império Contra-ataca?

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade, economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. É também colaborador do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Ufba, foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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A eleição e reeleição de Barack Obama como presidente dos EUA, sua significativa aprovação após oito anos de governo e o fascínio nacional e internacional exercido pela primeira black first lady americana, parecia indicar que o país da ku klux klan, dos assassinatos de Abraham Lincoln, Jonh F. Kennedy, Martin Luther King Jr e Malcom X, havia finalmente chegado a um patamar menos violento de convivência multiétnica e multicultural. Ledo engano, Donald Trump ganhou as eleições!

Independentemente do que venha a ocorrer daqui para frente na terra do Tio Sam e as suas respectivas consequências para os demais países do planeta, o dia 9 de novembro de 2016 será marcado para sempre como aquele que amanheceu pautado por um nível de perplexidade internacional com o 11 de setembro de 2001, quando do ataque as torres gêmeas. Guardadas as devidas proporções e o conteúdo objetivo de uma eleição democrática vis-à-vis a um ataque terrorista, a vitória do “rejeitado” republicano Donald Trump frente a democrata do establishment Hilary Clinton caiu como uma bomba sobre a cabeça de todas as pessoas que por dever de oficio ou apenas por serem seguidores da crença no american way of life, acompanharam a disputa.

O fato é que tudo que possa vir a ser dito sobre esse resultado nos próximos dias não passará de chutes ou a reprodução de informações de experts que, diga-se de passagem, tomaram centenas de bolas nas costas posto que para 99,9% dos analistas políticos, econômicos e fofoqueiros de plantão, Trump sequer seria o candidato republicano a enfrentar a ex-primeira dama e ex secretária de estado. Pois bem, ele não apenas foi candidato, inclusive com oposição de figurões de seu partido, como ganhou mais votos no colégio eleitoral do que os candidatos republicanos que foram derrotados por Obama nas duas eleições anteriores. Portanto, qual é o real significado da vitória desse anti-herói branco e milionário; assumidamente racista, machista, xenófobo e neófito na eleição presidencial da dita maior democracia do mundo?

A despeito de não haver possibilidade de respostas consequentes no curto prazo, há muitas pistas interessantes que podem e devem ser seguidas por aqueles que se interessam pelo tema, mas também, pela necessidade de aprendizado em política e em todo o debate que a cerca, particularmente, as análises e os prognósticos pautados por pretensas e aparentemente sofisticadas pesquisas de opinião cada vez mais presentes nesses momentos. A primeira delas é a existência de uma onda nacionalista de centro direita e antiglobalização que tem se tornado uma verdadeira panaceia explicativa para eventos políticos das mais diversas naturezas, como o inconcluso Brexit e o impeachment jabuticaba de Dilma Roussef.

Outra relevante indicação é de que, como temiam muitos analistas, Hillary não seria a melhor candidata para a disputa. Os dados preliminares dos votos de mulheres e latinos parecem indicar que a questão de gênero e perfil ideológico aparentemente menos conservador da candidata não foram suficientes para contrabalançar a sua falta de carisma e de identificação pessoal com os temas de interesse desses seguimentos como acontecera com os negros e jovens nas vitoriosas eleições de Obama.

O modelo da eleição americana parece também ter contribuído, mesmo de forma marginal, para o processo. O carater “estadualizado” das eleições gerais sugerem que as estratégias eleitorais não podem mais prescindir de mediações informacionais locais mais ajustadas aos interesses de curto prazo dos eleitores, alguns deles inclusive, definidos em eleições paralelas no nível subnacional juntamente com o pleito nacional. Ou seja, os vieses locais, turbinados pelas redes sociais, por exemplo, parecem ser muito mais relevantes hoje do que outrora e as pesquisa não tem cosneguido detectar isso de forma mais competente.

Sendo assim, as opiniões diretas pesquisadas tradicionalmente podem e devem ser compatibilizadas com tendências indiretas no ainda muito obscuro mundo virtual cada vez mais segmentado. A mediação e o uso de ferramentas eletronicas de monitoramento de informações através de big, meso e local datas passam a ser fundamentais nesse contexto. Por isso, não nos parece ser razoável que os diretores de campanha da candidata democrata não tenham tido formas de identificar, de maneira proativa e corretiva, os efeitos da ausência dela durante em Winsconsin durante todo o pleito, ou mesmo, a forte tendência que vinha sendo desenhada pelos votos dos latinos, em especial as mulheres latinas, na Florida, por exemplo.

Em relação ao candidato republicano, resta a máxima romana: Veni, vidi, vici. Mas, e o agora presidente eleito Donald Trump?

Tal como os vilões do cinema, sabemos muito pouco deles para além do potencial de maldades. No entanto, é muito embaraçoso saber que a Casa Branca deixará de ser ocupada por uma família que, por oito anos ininterruptos, nutriram o verdadeiro ideal de sonho americano e levaram a esperança para todos os não americanos do planeta que lutam e acreditam que um mundo melhor, mais igual e de respeito a diversidade seja possível.

Contraditoriamente a tudo isso, o cidadão médio dos EUA optou por escolher como novos inquilinos da residência presidencial, uma família que mais se assemelha aos personagens vividos pela famosa boneca Barbie e seu namorado Ken, trágica e comicamente representados no filme Toy Story 3. Pior, entregaram a chave do maior arsenal bélico do mundo a alguém muito assemelhado ao róseo e maléfico urso Lotso que, durante a campanha, mostrou-se desejoso e capaz de criar uma espécie de estrela da morte, o sonho de consumo de Darth Vader, icônico vilão do filme Guerra nas Estrelas, para defenestrar tudo e todos que não sejam exatamente iguais ao que ele vê no próprio espelho.

A nossa sorte é que os personagens e os atores não reproduzem suas performances na vida real, até mesmo porque pela filosofia dos blockbusters de hollywood, os vilões sempre morrem no final e, alguns deles, um pouquinho antes até. The end!

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