15 de setembro de 2016, 18:07

COLUNISTASMr. Trust e as hienas

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade, economista do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas, Gestão do Conhecimento e Desenvolvimento Regional (PGDR) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. É também colaborador do Núcleo de Pós-Graduação em Administração da Ufba, foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Brasília não é lugar para principiantes e todos sabemos disso, mas, os acontecimentos que tem vindo à tona nos últimos três anos exige, urgentemente, uma nova classificação para aquele lugar que parece não ter limites para toda a sorte de mal feitos, traições, hipocrisias e a mais pura e simples sem-vergonhice política.

Os 450 votos dados pelos deputados federais a favor da cassação de Eduardo Cunha foi algo impensado até para mais otimistas de seus opositores. Registre-se, de antemão que o ex-presidente da câmara e agora ex-deputado federal Eduardo Cunha não apenas deveria ser cassado, mas também, banidos para sempre da vida pública. Ele em particular, passando o seu devido tempo na a cadeia, acompanhado pela esposa e filha porque pelo que se noticia, ambas participaram ativa e conscientemente de todo processo de assalto aos cofres públicos e a nossas consciências ao fazerem uso de dinheiro roupado para financiar suas fantasias de classe.

No entanto, o que nos parece mais importante a ser refletido é o real significado da quantidade de votos dados contra o ex-deputado. Exceto pelos deputados PT, Pc do B, Rede, Psol e alguns representantes de outros partidos que possuem um mínimo de respeito político, ao menos 150 votos contrário a Cunha foram dados por pessoas que até segundos antes da votação eram amigos-irmãos do dele. Obviamente que não existem santos, inocentes e muito menos ingênuos nos aparelhos políticos do planalto central e, até as areias do abaeté, sabem que aquelas pessoas se movem pelos seus interesses e as suas conveniências, políticas e pessoais, mas, tudo tem que ter um limite!

O fato é que a cegueira oportunista de parcela do judiciário e do legislativo, associada na sanha de destruir o PT, a esquerda brasileira e seu principal líder Luís Inácio Lula da Silva por parte dos aparelhos privados de hegemonia, está impedindo a reflexão para a questão que nos parece mais fundamental para a atual situação crítica por passa a sociedade brasileira, qual seja, a falência total do sistema político-eleitora e de gestão do nosso aparelho de estado.

Não é razoável que se deixe passar, sem a devida reflexão, a gravidade de alguns fatos que cumulativamente vem conformando a atual conjuntura do país. O mais significativo deles é que uma presidente eleita democraticamente foi deposta, com menos de dois anos de mandato, sem que se tenha a devida clareza dela ter cometido ou não crime de responsabilidade. Para piorar, o agora ex-deputado Cunha foi um dos principais artificies desse golpe, não obstante ter sido execrado pelos seus pares de uma forma vergonhosa.

Ora, ele foi eleito para presidente da câmara há menos de dois anos, em primeiro turno, derrotando, inclusive, o candidato da presidente Dilma. Erros estratégicos dela à parte, a realidade é que a conformação política que o elegeu à época, foi a mesma que o sustentou e a mesma que, majoritariamente, fez toda a sorte de trabalho sujo contra a presidente da república. Não por acaso, as imagens que foram registradas quando da sessão que votou pela admissibilidade do processo de impeachment, se assemelhavam a um circo de horrores, cujos protagonistas eram os principais apoiadores de Cunha.

Além de tudo isso, nos chamou muita atenção naquela oportunidade o voto do experiente deputado federal por Pernambuco Jarbas Vasconcelos. Como ex Governador, ex Senador e ex prefeito de Recife, foi muito simbólico e desconcertante ver que Jarbas, mesmo atacando Cunha durante o seu discurso, não o olhava nos olhos. Não encarava e sequer direcionava o seu olhar para a mesa diretora. Porque?

Talvez, sob o olhar daquele importante político pernambucano estivesse a senha do que estava por vir e o que de fato vem ocorrendo na nossa república nos últimos meses. Dilma não caiu por ter cometido nenhum crime de responsabilidade e muito menos pelo conjunto da obra como todos afirmam.

Cunha também não caiu porque mentiu a CPI sobre ter ou ter contas no exterior e muito menos pelo conjunto de crimes e malfeitos que já vem sendo investigados pelos órgãos de justiça nacional. A queda de ambos se deu devido porque os dois se transformaram, mesmo por razões diametralmente opostas, em figuras tóxicas para os interesses escusos de muitas daquelas pessoas e pela integral falência do nosso sistema político.

Foi a fome insaciável e estrutural de diversos atores da nossa república, os políticos profissionais em especial, que tal como as hienas fazem parte do topo da cadeia alimentar dos animais necrófagos cuja alimentar nada mais é do que outros animais mortos ou quase mortos, politicamente. Essa é a explicação tanto para a altíssima taxa de traição que sofrera Dilma de seus ex-ministros e “aliados”, como o emblemático senador Telmário Miranda do PDT, quanto para os 450 votos contrários a Eduardo Cunha.

As hienas da câmara, mais ferozes do que as do senado e seguindo o seu extinto de sobrevivência e o imperativo de sua característica “evolutiva” apenas se refastelaram de mais uma enorme e suculenta carniça.

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