29 de outubro de 2018, 08:41

EXCLUSIVAÉ forçoso ativar o senso crítico desmobilizado pelo PT, por Raul Monteiro*

Foto: Igo Estrela/Estadão/Arquivo

Jair Bolsonaro se torna presidente do Brasil

Sem querer excluir a responsabilidade da sociedade por suas escolhas políticas, o encerramento da eleição presidencial pode ser também interpretado como resultado da face diminuta do sistema político nacional, que, representado como nunca por aqueles que foram até agora seus principais partidos, em especial o PT e o PSDB, foi incapaz de lhe disponibilizar opções que conseguissem dialogar com a grandiosidade do país do qual sugou até aqui sua sobrevivência. O fracasso da estratégia eleitoral petista é apenas o lado mais evidente dos desafios que só esta mesma sociedade, por meio da razão e da vigília, será obrigada a enfrentar a partir de agora.

Nâo há dúvida de que o PT produziu o fenômeno Jair Bolsonaro. Tanto por suas posturas ao longo dos anos em que governou o país, e mesmo depois de ter deixado o poder, como por, no primeiro turno, ter evitado confrontá-lo e desconstruí-lo, como faria depois, na expectativa, que se mostrou equivocada, de que ele fosse o melhor candidato para derrotar na segunda fase. Subestimou o lamentável episódio da facada desferida contra o candidato que fez com que o capitão reformado crescesse na campanha sem se mexer ou se submeter a um escrutínio mais direto do eleitor, por meio, por exemplo, da exposição a debates.

Quando acordou para o risco, a vaca já tinha ido ao brejo. Sem capacidade de articular uma resposta à altura, e rápida, que respondesse à exigência da sociedade de reconhecimento dos erros éticos, morais, administrativos e econômicos, o petismo preferiu sucumbir a apostar numa alternativa como a de Ciro Gomes (PDT). Hoje, deve o fato de sua derrota não ter sido ainda mais acachapante, apesar de significativa, ao justificado medo do que pode representar o governo do ex-militar, basicamente por causa das suas falas, muitas inclassificáveis, além das demais amplamente conhecidas, racistas, homofóbicas e desabridamente anti-democráticas, todas incivilizadas.

Empurrada para tal dimensão do imprevisível, resta à sociedade atentar para a fragilidade do seu modelo representativo, e desenvolver novo nível de atuação, o que não deixa de comportar seus riscos. É evidente que o país não sai pacificado das urnas, tanto por causa das dificuldades inerentes ao novo comando, em que entram tanto questões como o tipo de cosmovisão, a imaturidade, a inexperiência e o mais evidente despreparo, de sua figura e daqueles que o cercam, quanto da oposição que se levantará contra ele, articulada pela máquina de mobilização social que o petismo ainda manterá, desenvolvida por anos de exercício muito próprio do poder.

A saída precisa ser, de fato, a mais atenta vigilância, preço que se paga pela liberdade, como disse Thomas Jefferson, a mesma que foi relegada lamentavelmente nos primeiros anos petistas, principalmente devido ao convencimento da maioria de que se tratava de um partido honesto, que podia até cometer seus equívocos, mas nunca transigir no plano ético. O primeiro passo é, sem desconsiderar a torcida pelo sucesso do novo presidente, redobrar o senso crítico em relação ao novo governo, evitando a reprodução da característica de seita que embalou o petismo até agora, responsável pela cegueira e o radicalismo que apequenaram tanto este grande país.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna da Bahia.

Raul Monteiro*

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