2 de janeiro de 2017, 07:50

EXCLUSIVAA “estranha” indiferença de Neto, por Raul Monteiro

Foto: Walter Pontes

Neto posa para foto com novo secretariado em frente ao Palácio Thomé de Souza

Chamou a atenção, no discurso de posse que o prefeito ACM Neto fez ontem na Câmara Municipal, o fato de ter poupado de críticas ou de qualquer referência, mesmo que indireta, o governador Rui Costa (PT), seu virtual adversário ao governo em 2018. Ao invés de dirigir suas baterias contra Rui, Neto preferiu, na parte política de seu pronunciamento, concentrar-se nos erros administrativos e econômicos do petismo, ao defender abertamente como um dos legados de sua gestão o controle fiscal da cidade, que a tem diferenciado de inúmeras outras e de Estados que, como observou, quebraram.

A bem da verdade, Rui conseguiu a proeza de distanciar-se de seu partido no campo da administração, ao dar à Bahia condições de enfrentar a crise em situação infinitamente melhor do que a de outros Estados e do próprio país, cuja administração petista é responsável por uma recessão que já produziu de mais de 12 milhões de desempregados. “Recentemente, em nível nacional, vimos as consequências lamentáveis de assumir compromissos que não podem ser cumpridos, de tentar maquiar as contas públicas, de tentar esconder a real situação de nosso país, de mentir para as pessoas”, afirmou o prefeito ontem.

O fato de ter poupado Rui não significa que o democrata tenha, por outro lado, evitado qualquer movimento ou insinuação de que 2018 permanece, sim, em seus planos. Isso ficou claro, por exemplo, no momento em que falou de seu vice, o peemedebista Bruno Reis, que deve assumir o controle da cidade na hipótese muito provável de Neto renunciar para disputar a corrida sucessória estadual. O democrata não só se referiu a Bruno como a um talento descoberto por ele, no que, conforme disse, estaria reproduzindo uma tradição do avô ACM de revelar novos quadros para a vida pública, como reforçou que o vice está preparado para trabalhar por Salvador.

“Ele (Bruno) está preparado para fazer um trabalho por Salvador, me ajudará, estará ao meu lado e será um vice-prefeito com relevância e à altura de uma capital como Salvador”, completou Neto, que dedicou parte significativa do texto aos equívocos cometidos pelo petismo no comando do país. “(…) Governar em momento de crescimento é fácil, difícil é governar em momento de crise”, diria o prefeito, reproduzindo a convicção cada vez maior, sobretudo entre economistas, de que, no poder, o PT jogou no lixo a oportunidade que a onda de prosperidade mundial poderia ter proporcionado ao país.

Como se tivesse deixado para trás o período de troca de farpas que protagonizaram até recentemente, o prefeito prosseguiu sem avançar um milímetro na direção de Rui Costa, como se ele já não fizesse mais parte do cenário. Pelo contrário, até sinalizou que aposta num entendimento. “Não faço política com ódio e rancor. Nesta crise, precisamos buscar consenso. Estou disposto a sentar com a oposição, políticos de quaisquer partidos, para discutir projetos para a nossa cidade. Acima de qualquer divergência ideológica ou diferença partidária, estão os interesses da cidade”, acrescentou. Com efeito, o porquê da indiferença de Neto em relação a Rui ainda vai ser revelado.

* Artigo publicado originalmente no jornal Tribuna da Bahia

Raul Monteiro*

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