Home
/
Noticias
/
Brasil
/
'Dark Horse' tem contradições para justificar dinheiro de Vorcaro e falta de prestação de contas
'Dark Horse' tem contradições para justificar dinheiro de Vorcaro e falta de prestação de contas
Flávio Bolsonaro volta a silenciar sobre transparência com recursos, e assessoria joga responsabilidade para produtora
Por Ana Gabriela Oliveira Lima/Folhapress
29/08/2026 às 11:40
Atualizado em 29/08/2026 às 17:57
Foto: Divulgação/Arquivo
O ator Jim Caviezel interpreta Jair Bolsonaro no filme "Dark Horse"
Três meses depois de ter sido revelado que o filme "Dark Horse" foi financiado por Daniel Vorcaro, do Master, não foram apresentados nem a prestação de contas do longa nem o contrato com o banqueiro.
Ainda na pré-campanha presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) confirmou, após negativa inicial, o recebimento de dinheiro de Vorcaro para o filme, que contará a história de seu pai, mas não mostrou os dados. Sua assessoria disse ao jornal Folha de São Paulo na sexta-feira (28) que cabe à produtora do longa dar as explicações.
Em entrevista à Globo também na sexta, Flávio oscilou entre dizer que "nunca é demais" explicar a relação com o ex-banqueiro e afirmar que o tema está "mais que esclarecido" e é "livro que está fechado, ressignificado e na prateleira".
Ele voltou a dizer já ter mostrado a prestação de contas, se referindo a um laudo pericial feito a pedido da Go Up, produtora da obra, que não detalha pontos relevantes sobre o caminho do dinheiro.
O laudo pericial elaborado a pedido de Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up, foi anexado em processo envolvendo a empresária e um contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo. O documento foi produzido com base em materiais disponibilizados por ela.
O documento aponta os gastos no período de 1º de junho de 2025 a 4 de junho de 2026, no valor de US$ 3.728.084.66 para o filme no Brasil. A maior parte dos custos foi coberta, segundo a perícia, a partir de repasses da Go Up Entertainment LLC, registrada nos Estados Unidos.
Outra parte das despesas com a produção foi paga diretamente pelo braço da empresa naquele país, num total de US$ 9.664.996,63.
Somadas as despesas no Brasil e nos Estados Unidos, a perícia aponta custo total de produção de US$ 13.393.081,29. Na taxa de conversão adotada por ela, o valor equivale a R$ 75.182.282,80.
A perícia diz ter tido acesso ao contrato de investimento do Havengate Development Fund LP, que teria recebido o dinheiro enviado por Vorcaro para a produção do filme.
O fundo fechou o contrato em 24 de fevereiro de 2025 para investir na obra. Até a data de elaboração do laudo, assinado em 10 de junho de 2026, o aporte somou US$ 13.393.081,29, o valor exato que a perícia identificou como o custo total da produção.
A perícia disse ter constatado a ausência de recursos públicos, incentivos ou patrocínio, com todo o dinheiro sendo de origem privada.
Não explica, porém, quais foram os fornecedores que receberam da Go Up, nem mostra documento fiscal que comprove o destino dos valores.
O documento apresenta categorias gerais de despesa, como "elenco, atores e figurantes" ou "equipe técnica e produção executiva". Também não explica se o valor é compatível com o mercado cinematográfico.
A produção levantou suspeita pela ausência de experiência da produtora e pela despesa superior ao orçamento usual da indústria cinematográfica.
Ao jornal Folha de São Paulo a produtora afirmou, em maio, que consultaria uma "firma de auditoria internacional independente de primeira linha para auditar toda a movimentação financeira", o que não ocorreu.
O laudo foi feito por Anísio Costa Castelo Branco, perito que tem reconhecido em entrevistas à imprensa, como ao jornal O Globo, as lacunas do material para dizer, por exemplo, se os preços ali descritos são compatíveis com o mercado, o destino do dinheiro ou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate.
O documento também aponta que o dinheiro gasto é igual ao valor vindo do Havengate. No entanto, Karina havia afirmado à reportagem, em maio, que a produção contava com mais de dez investidores internacionais, dentre eles "uma empresa de mídia americana".
Os nomes nunca foram revelados sob o argumento de um acordo de confidencialidade.
Procurada pela reportagem, Karina Gama não respondeu para onde teria ido o dinheiro de outros investidores, uma vez que o gasto total identificado pela perícia é o mesmo do aporte do Havengate.
Karina também não elucidou as lacunas na perícia ou o motivo de ela não ter sido feita por uma firma de auditoria internacional, como dito antes.
