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Esquema milionário de gestão de crise do Master recrutou até jornalistas, de acordo com a PF
Esquema milionário de gestão de crise do Master recrutou até jornalistas, de acordo com a PF
Banco e Daniel Vorcaro não se manifestaram
Por Folhapress
10/07/2026 às 17:15
Foto: Reprodução
Apresentação do 'Projeto DV', da agência Mithi, contratada para fazer a gestão de crise de Daniel Vorcaro
A investigação da Polícia Federal sobre o caso Banco Master identificou um suposto esquema estruturado para influenciar o debate público nas redes sociais em favor do banco e de seu controlador, Daniel Vorcaro. Segundo os investigadores, o grupo montou uma estratégia profissional de gestão de crise que previa a contratação de influenciadores, jornalistas e veículos de comunicação, com pagamento por conteúdos favoráveis ao Master e críticas ao Banco Central.
As conclusões constam de decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou buscas contra o publicitário Thiago Miranda, apontado como um dos articuladores do chamado "Projeto DV".
A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou sobre as acusações.
O que era o "Projeto DV"?
Segundo a PF, o "Projeto DV" foi criado para proteger a imagem de Daniel Vorcaro durante as investigações envolvendo o Banco Master e a tentativa frustrada de venda da instituição ao BRB.
De acordo com a decisão, o publicitário Thiago Miranda admitiu aos investigadores que apresentou a Vorcaro um plano de gerenciamento de crise e que estruturou o projeto dentro de sua agência. Ele afirmou que as ações incluíam reportagens e conteúdos sobre a prisão do banqueiro e sobre as investigações envolvendo o Master.
A Polícia Federal afirma, porém, que a iniciativa extrapolava uma campanha convencional de comunicação e fazia parte de uma estratégia para manipular a opinião pública e pressionar órgãos públicos.
Miranda foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta quinta-feira (9), autorizado pelo ministro André Mendonça. A decisão registra que a medida foi considerada necessária para apreender documentos, contratos, mensagens e equipamentos eletrônicos que possam esclarecer a dimensão da atuação do chamado "Projeto DV".
A defesa de Thiago Miranda afirmou, em nota, que o publicitário "refuta de forma categórica" a prática de qualquer ilegalidade e sustenta que sua atuação profissional sempre foi pautada pela legalidade, transparência, respeito às instituições e à liberdade de expressão.
O que foi o bombardeio digital contra o Banco Central?
Pelo menos 46 perfis em redes sociais iniciaram um bombardeio digital coordenado contra o Banco Central e seus dirigentes após a liquidação do Master, segundo a PF.
O que chamou atenção dos investigadores é que boa parte desses perfis são de fofoca e humor, sem ligação com temas econômicos. Eles passaram a publicar conteúdos criticando a atuação do BC, com informações enviesadas sobre o caso.
A campanha cresceu principalmente em dezembro, em meio à guerra jurídica travada no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União) entre investigadores e advogados do Master.
O projeto também incluiu contrato com uma empresa do jornalista Luiz Bacci, que tem 24,3 milhões de seguidores no Instagram. O pagamento previsto à BN Publicidade e Marketing, de Bacci, foi de R$ 500 mil mensais por seis meses, para 30 postagens mensais.
Em 10 de maio de 2026, Bacci confirmou ao jornal Folha de São Paulo a relação comercial com a Mithi, mas não comentou detalhes. "Em conformidade com nossas diretrizes de compliance e sigilo, não divulgamos informações sobre contratos firmados com nossos clientes", disse. Segundo Bacci, eles têm negócios desde 2021.
GPS Brasília que, além de site próprio, tem 182 mil seguidores no Instagram; e Not Journal, com 289 mil seguidores, também aparecem como representantes de veículos que celebraram contratos com a agência MiThi. Ambos reconheceram a existência dos acordos, mas negaram irregularidades ou direcionamento editorial e defenderam a independência de seus respectivos veículos.
Por que o Banco Central virou alvo?
Segundo a investigação, a campanha ganhou força após o Banco Central barrar a operação envolvendo o Master e o BRB e, depois, durante o processo que levou à liquidação da instituição de Vorcaro.
Renato Gomes, então diretor responsável pela área de resolução bancária, tornou-se um dos principais alvos das postagens.
Como funcionava a contratação?
Segundo a investigação, influenciadores e jornalistas eram procurados por representantes de agências de comunicação ligadas ao projeto, principalmente a agência MiThi, de Thiago Miranda, com propostas para publicar conteúdos defendendo o Banco Master e criticando a atuação do Banco Central.
As ofertas chegariam a até R$ 2 milhões, segundo a PF. Os contratos continham cláusulas de confidencialidade e estabeleciam o planejamento coordenado das publicações nas redes sociais.
Em um dos depoimentos, um influenciador afirmou que só descobriu o verdadeiro objetivo da campanha após assinar um acordo de confidencialidade que previa multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Segundo seu relato, ele deveria gravar vídeos afirmando que o Banco Master era vítima do Banco Central e a liquidação da instituição teria sido indevida.
O que os influenciadores eram orientados a fazer, segundo a PF?
Segundo a Polícia Federal, a atuação não se limitaria à produção de conteúdos favoráveis ao banco. Os investigadores afirmam que o material apreendido descreve ações como:
- derrubar reportagens e perfis em redes sociais;
- publicar comentários positivos de forma coordenada;
- elevar artificialmente avaliações de aplicativos;
- negociar financeiramente com jornalistas e veículos para divulgar conteúdos favoráveis ou reduzir o impacto de reportagens negativas;
- utilizar ataques cibernéticos e outras técnicas para retirar do ar conteúdos considerados prejudiciais ao grupo.
A PF afirma que os fatos investigados podem, em tese, configurar crimes contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa, embaraço à investigação de organização criminosa, além de outros delitos correlatos, incluindo possíveis violações de dados e de dispositivos informáticos.
Quem coordenaria a operação?
Segundo a PF, Thiago Miranda desempenharia papel central no recrutamento de influenciadores e jornalistas.
Em depoimento, o publicitário admitiu que realizava pagamentos diretamente aos influenciadores, utilizando parcela dos recursos recebidos pela compra de parte do portal de notícias Léo Dias. Os valores eram repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa de Vorcaro que já foi alvo da Operação em fases anteriores.
Reportagem do jornal Folha de São Paulo mostrou que contratos firmados por meio da agência MiThi somavam cerca de R$ 8 milhões e envolveram perfis e veículos de diferentes perfis editoriais, com orientações específicas sobre o tom e as mensagens a serem publicadas.
Procurado em 8 de janeiro de 2026, o jornalista Léo Dias afirma que Miranda deixou o Grupo Léo Dias, do qual foi CEO, em junho, embora permaneça na sociedade.
Houve intimidação de quem recusasse?
É uma das suspeitas da Polícia Federal.
Segundo a decisão do STF, investigadores afirmam que, quando propostas eram recusadas, integrantes do grupo utilizariam informações privadas para intimidar ou pressionar os abordados.
A PF também afirma que Thiago Miranda teria recorrido a dados pessoais e financeiros obtidos de forma irregular para constranger jornalistas e outras pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Vorcaro.
