Trump anuncia 10% de tarifas globais e critica decisão da Suprema Corte
Tribunal considera ilegal o uso de lei de 1977 para justificar cobrança de taxas
Por Isabella Menon/Fernando Narazaki/Folhapress
20/02/2026 às 17:15
Foto: Reprodução/Instagram
O presidente dos EUA, Donald Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que é "uma desgraça" a decisão da Suprema Corte do país de derrubar as tarifas de importação impostas pelo republicano.
Segundo apuração do jornal The New York Times feita com duas pessoas próximas ao governo, a declaração de Trump foi dada em um encontro com governadores nesta sexta-feira (20).
Mais tarde, em entrevista a jornalistas, ele afirmou que a Suprema Corte não vai detê-lo e anunciou que vai taxar em 10% para todos os países do globo usando a Seção 122, que dá poder temporário para impor importações, mas expiram em 150 dias.
As tarifas, segundo Trump, serão implementadas além das daquelas que já estão sendo cobradas. "Temos alternativas", afirmou. "Ótimas alternativas".
Além disso, afirmou que vai usar a Seção 301 para seguir investigando e protegendo os Estados Unidos de outros países. O mecanismo permite impor tarifas por supostas práticas comerciais ilegais, porém exige uma investigação e, em geral, audiência pública.
No Brasil, há uma investigação em curso para avaliar práticas do país em áreas como comércio eletrônico e tecnologia, taxas de importação e desmatamento
Além do anúncio das tarifas, o presidente criticou repetidamente a medida, disse que estava envergonhado e desapontado pela postura de membros da Suprema Corte.
"Democratas na Corte estão contra tudo que faça a América mais forte e grande novamente", disse Trump. "Eles gostam de ir na posição contrária. O tribunal foi influenciado por um movimento político. Eu ganhei por milhões de votos, mesmo com roubos, mas eles são barulhentos e arrogantes. Vamos continuar".
Questionado se ficou surpreso com a decisão da Suprema Corte, o presidente alegou que leu tudo o que existia para ler sobre o caso e, por isso, se sentia confiante de que estava em terreno sólido. "Eu leio muito bem, ótima compreensão", afirmou. "Li tudo o que havia para ler".
A Suprema Corte definiu por 6 votos a 3 que o uso de uma lei de 1977 para justificar a cobrança de taxas de produtos importados de outros países é irregular, pois o presidente não pode impor tarifas amplas sem autorização explícita do Congresso.
Presidente da Suprema Corte, John Roberts, afirmou que o presidente deve "'apontar uma autorização clara do Congresso para justificar sua extraordinária afirmação desse poder."
Trump se apoiou na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para a condução das tarifas.
Para Roberts, o órgão "autoriza o presidente a investigar, bloquear durante a pendência de uma investigação, regular, dirigir e obrigar, anular, invalidar, prevenir ou proibir importação ou exportação" e aponta que, nesta lista, não há menção a tarifas ou impostos.
"Se o Congresso tivesse a intenção de conceder o poder distinto e extraordinário de impor tarifas, teria feito isso expressamente, como tem feito de forma consistente em outras leis tarifárias", disse Roberts.
A medida impacta a maioria, mas não todas as tarifas impostas pelo presidente. Entre as exceções estão as tarifas que foram implementadas sob a Seção 232, que se refere a uma disposição da Lei de Expansão Comercial dos EUA que permite a imposição de tarifas quando a segurança nacional é considerada em risco. Entre os produtos, estão aço, alumínio, madeira e o setor automotivo.
A derrota representa um duro golpe econômico e político a uma das iniciativas mais emblemáticas do segundo mandato de Trump. Além de perder capital político, os EUA podem ser obrigados a devolver mais de US$ 175 bilhões (R$ 912 bilhões) de arrecadações tarifárias, segundo um cálculo realizado por economistas do Penn-Wharton Budget Model a pedido da Reuters.
O Brasil, que chegou a ser taxado em 50% antes de ter parte das tarifas reduzidas no fim do ano passado, aguarda com expectativa o fim das sobretaxas. A previsão era que o assunto estaria na pauta do encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump —reunião prevista para março, mas ainda sem data definida.
Em fevereiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin expressou otimismo com a relação bilateral. "A expectativa é positiva e mais focada na relação Brasil-Estados Unidos. Já melhorou. Nós tínhamos 37% da exportação brasileira para os Estados Unidos agravada com 10%, mais 40% —tarifaço de 50%. Hoje está em 22%. Já caiu bem. Mas a ideia é zerar. Não há razão para ter um tarifaço", disse.
Parte da produção brasileira ainda é impactada pela cobrança adicional de sobretaxa de 40%, que foi determinada por Trump em junho do ano passado. Na ocasião, o mandatário dos EUA isentou 700 itens como peças de aviação. Cinco meses depois, Trump retirou a tarifa de 40% sobre mais de 200 produtos, mas a maioria era agrícola ou da pecuária. A cobrança dos 40% segue para 22% das exportações brasileiras, de acordo com Alckmin.
Os reembolsos de US$ 175 bilhões excederiam os gastos combinados do Departamento de Transportes, de US$ 127,6 bilhões, e do Departamento de Justiça, de US$ 44,9 bilhões, no ano fiscal de 2025.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, já afirmou que o governo deve recorrer da decisão da Corte, mas também adiantou que a gestão pode cobrir quaisquer reembolsos de tarifas.
Apesar das taxas, a economia norte-americana não conseguiu o impulso tão propagado por Trump. O déficit comercial em 2025 reduziu apenas 0,2%, para US$ 901,5 bilhões (R$ 4,72 trilhões), mesmo com as cobranças a produtos importados. Se for levado em consideração apenas a negociação de bens de consumo, o déficit bateu recorde, atingindo US$ 1,24 trilhão (R$ 6,49 trilhões), segundo dados divulgados pelo governo nesta quinta-feira (19).
O emprego nas fábricas diminuiu em 83 mil postos de trabalho de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, o custo de vida do norte-americano aumentou, levando inclusive os restaurantes a reduzirem as porções para atrair o público, e a inflação fechou 2025 em 2,9%.
Em novembro, Trump anunciou que pagaria US$ 2.000 a cada americano em virtude da cobrança de tarifas, mas até o momento a medida não foi aprovada.
