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Déficit comercial do Brasil com Estados Unidos se multiplica por 26 após tarifaço de Trump
Déficit comercial do Brasil com Estados Unidos se multiplica por 26 após tarifaço de Trump
Pelo 17º ano seguido, fluxo de bens entre os dois países foi favorável aos americanos
Por Fábio Pupo/Folhapress
06/01/2026 às 21:30
Foto: Reprodução/Instagram
O presidente dos EUA, Donald Trump
O déficit comercial do Brasil na relação com os Estados Unidos se multiplicou por 26 após o presidente Donald Trump anunciar uma série de medidas para tarifar importações; o fluxo de bens entre os dois países saiu de US$ 283 milhões em 2024 para US$ 7,5 bilhões em 2025. Esse foi o 17º ano seguido em que o resultado favoreceu os americanos.
As exportações brasileiras aos EUA caíram 6,6% na comparação com 2024, para US$ 37 bilhões. Enquanto isso, as importações de produtos americanos cresceram 11% (para US$ 45 bilhões).
Herlon Brandão, diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), afirma que o tarifaço afetou o resultado. "Influenciou sim. Observávamos um aumento da exportação aos Estados Unidos até o meio do ano, depois houve quedas mensais", disse.
Segundo ele, no entanto, outros fatores pesaram. Um deles é a própria dinâmica da economia brasileira, que tradicionalmente importa mais produtos em momentos de expansão. Com indústrias e outros tipos de empresas demandando mais máquinas e equipamentos para ampliar suas capacidades, os bens americanos acabam sendo mais demandados pelo Brasil.
Outro fator é a menor compra de petróleo estrangeiro, já que a produção americana se expandiu nos últimos anos a ponto de reduzir a necessidade de comprar barris de fora do país. Como o petróleo é principal produto exportado pelo Brasil aos Estados Unidos, a menor demanda pelo produto diminui o saldo brasileiro.
"A queda não é totalmente afetada pelas tarifas porque vimos redução [das vendas] em diversos produtos que não foram afetados pelo tarifaço; por exemplo, o petróleo. Mas teve outros que caíram; por exemplo, madeira e máquinas, que foram afetados pelo tarifaço", disse. "Então é a economia [brasileira] crescendo, e do lado da exportação tanto a tarifa como uma demanda menor por parte do país [Estados Unidos]".
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o governo brasileiro continua com a missão de negociar para reduzir o alcance do tarifaço americano. "O trabalho continua e vai ser acelerado", disse.
Segundo ele, o trabalho já trouxe avanços. Inicialmente, disse, 37% dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos eram taxados em 50% e hoje o percentual está em 22%. Outros 27% estão taxados praticamente com a mesma tarifa do restante do mundo; 51% estão tarifados em até 10%.
"O presidente Lula tem com o presidente Trump um bom relacionamento. As conversas avançaram e é nossa tarefa avançar ainda mais. Acho que podemos ter um ganha-ganha e uma pauta muito positiva não só do ponto de vista tarifário", afirmou.
"Você tem uma agenda importante passando por terras-raras, big techs, data centers", disse. "O limitante da inteligência artificial no mundo vai ser energia, e o Brasil tem energia abundante e renovável", afirmou sobre a possibilidade de parceria com os americanos.
Ele também comentou brevemente a situação na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelo governo Trump, embora não tenha citado os potenciais efeitos do cenário para a balança comercial brasileira. "Torcemos pela Venezuela, para que ela possa se recuperar, crescer, aumentar sua importação e sua exportação. Todo o mundo torce", disse.
O comportamento da corrente de comércio com os Estados Unidos é observado de perto após Trump anunciar uma série de iniciativas para tarifar importações de produtos de diversos países ao longo de 2025. Em fevereiro, ele impôs taxas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio.
Em julho, Trump publicou uma carta endereçada a Lula na qual anunciou formalmente uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras para os EUA a partir de 1° de agosto, sob a alegação de que processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro seriam uma "caça às bruxas". Na ocasião, disse ainda que a relação com o Brasil gera "déficits insustentáveis".
Depois disso, Trump recuou em parte das iniciativas. Em julho, o americano assinou o decreto que estabeleceu a tarifa de 50%, mas com quase 700 exceções, que livraram 43% do valor de itens brasileiros exportados para os Estados Unidos, segundo levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo.
Ficaram isentos do tarifaço, por exemplo, derivados de petróleo, ferro-gusa, produtos de aviação civil e suco de laranja. Por outro lado, carnes, café e pescado não escaparam na ocasião.
Em setembro, Trump retirou a tarifa de 10% sobre a celulose importada pelos Estados Unidos. Mais recentemente, em novembro, assinou decreto que retira as tarifas de 40% sobre alguns produtos agrícolas vendidos pelo Brasil como carne e café. Ao todo, foram contemplados mais de 200 itens agrícolas e da pecuária, incluindo alguns fertilizantes à base de amônia.
