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'Sou visto como o cara polêmico, mas estamos modernizando o IBGE', afirma Marcio Pochmann
'Sou visto como o cara polêmico, mas estamos modernizando o IBGE', afirma Marcio Pochmann
Plano propõe novas atribuições para o órgão até 2030, em meio a crise institucional
Por Marina Pinhoni/Folhapress
15/12/2025 às 14:15
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo
O presidente do IBGE, Marcio Pochmann
Desde que assumiu o cargo de presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em agosto de 2023, o economista Marcio Pochmann acumula uma relação conturbada com servidores devido às suas tentativas de mudanças. A mais nova delas é um plano quinquenal de modernização tecnológica, que prevê alterações estruturais e de atribuições.
Episódios como exonerações, mudanças de prédios, proposta de novo estatuto e projeto de criação de uma fundação com financiamento privado, a IBGE+, já geraram tensão principalmente com representantes do sindicato da categoria, o Assibge, que o acusa de autoritarismo.
"Estamos mudando a estrutura do IBGE. É um diálogo na casa, mas não dá pra fazer uma assembleia com 11 mil pessoas", diz Pochmann.
A principal bandeira de sua gestão, a criação do Singed (Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados) prevê integrar sistemas de outros órgãos de governo para o compartilhamento de dados.
A preocupação de técnicos é sobre como essa mudança será feita, já que as restrições orçamentárias das últimas décadas e a queda no quadro fixo de funcionários —que estão sendo substituídos por temporários– já dificultam a realização das atividades regulares. Também temem que a integração comprometa o rigor estatístico pelo qual a instituição é reconhecida.
O ponto chave para a criação do Singed é o acordo firmado com a Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), que defende uma "soberania nacional de dados" por meio da migração das informações para uma nuvem que, segundo eles, foi desenvolvida com software livre e não depende de big techs estrangeiras.
Pochmann falou ao jornal Folha de S.Paulo durante o lançamento em Salvador, na Bahia, do Plano Geral de Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas, que lista as atribuições do IBGE e propõe, ainda sem muita clareza, mudanças tecnológicas até 2030. A ideia é que o plano receba contribuições até ser encaminhado a Lula (PT) para virar decreto presidencial.
A área técnica apontou dificuldade em manter o que o IBGE faz hoje com o orçamento atual. A ideia do plano é garantir verba até 2030?
Em 1962, o orçamento do IBGE equivalia a 0,2% do orçamento geral da União. O IBGE estava debaixo da Presidência. Até 1967, era uma autarquia, mas transformou-se uma fundação pública abaixo do ministério [do Planejamento]. Foi importante porque passou a fazer pesquisas que não fazia. Todavia, perdeu a capacidade de coordenação do Sistema Estatístico Nacional de Dados. Cada ministério foi criando o seu banco de dados. Então o Brasil hoje tem um conjunto de dados muito importante, mas que não tem integração. Hoje o orçamento do IBGE está próximo de 0,06% do orçamento geral.
E como ampliar o orçamento?
Vivemos um período de austeridade. Qual é a solução? A integração dos bancos de dados. Registros administrativos ajudariam, por exemplo, a fazer uma contagem populacional a partir dos CPFs. O IBGE faz as chamadas pesquisas econômicas. Dados que, na maior parte das vezes, as próprias empresas têm que passar para a Receita. A integração nos ajudaria a fazer mais com menos. É um salto para o país.
E por que retomar um plano quinquenal?
A ideia do planejamento é pensar como construir e implementar integração e definir quais pesquisas o IBGE tem que fazer. Nós viemos de uma situação de gestão de emergência. Vai ter dinheiro, se faz. E se não tem? Não dá. O sistema estatístico precisa ter planejamento, alguma coisa estruturada. Tem que ter um horizonte.
Mas o objetivo é ter a retomada do IBGE como instituição de Estado?
Sim, claro. Em 1936, Getúlio Vargas define a primeira diretoria do INE (Instituto Nacional de Estatística), que em 1938 junta a geografia e estatística para formar o IBGE. Só que isso é Estado Novo, não tem diálogo. Aí nos anos 1960 temos a inovação de fazer pesquisas amostrais. Mas era ditadura. Hoje estamos vivendo, depois de muito tempo de democracia, uma tentativa de fazer esse protagonismo no IBGE.
E a relação com os servidores?
São visões diferentes. O pessoal do sindicato tem uma visão. Isso mostra que a instituição está viva. Criticar o presidente não tem problema, faz parte. A gente sempre fala da era digital, porque a digitalização coloca desafios enormes.
Estamos mudando a estrutura do IBGE, por isso estamos discutindo também o estatuto. A gente criou um grupo, pensou o que seria, olhando a experiência de outros países, fizemos uma proposta e lançamos para os colegas. Aí eles dizem: ‘não, mas é absurdo isso’. É uma tentativa de construção de consenso progressivo. É um diálogo na casa, mas não dá pra fazer assembleia com 11 mil pessoas distribuídas em 560 agências.
Sou visto como o cara polêmico, mas, na verdade, estamos repensando a casa. Se o IBGE não responder às demandas que vêm, por que então não utilizar outra instituição que possa fazer?
E a Fundação IBGE+, que o senhor recebeu críticas por poder levar à privatização?
Está suspensa, porque tem uma discussão sobre a base legal. Mas a ideia por trás do IBGE+ seria ter uma fonte diferente de financiamento. Eu sou professor da Unicamp. A Unicamp tem uma fundação. A Unicamp é privada? É uma maneira que, infelizmente, precisa para poder gerir recursos que você não tem acesso no orçamento.
O que já está previsto no novo calendário de pesquisas proposto?
Agora, em 2026 e 2027, nós vamos ter três pesquisas muito importantes. Uma é a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar), que é o retrato da sociedade brasileira. Outra é a Pintec, que é uma pesquisa sobre a tecnologia, que conseguimos recursos para isso. Outro é o Censo Agropecuário, que não era realizado desde 2017.
Representante do Ministério do Planejamento pontuou a maior dependência do Congresso para liberação de verba. Como o senhor vê essa negociação?
Precisa de uma presença mais forte do IBGE em Brasília. Precisaria ter uma representação mais importante no Executivo, no Legislativo e também no Judiciário. Abrimos uma discussão com o STF, uma discussão com o Tribunal Superior do Trabalho, de integração também dos dados que eles têm com as nossas informações.
O banco atual do IBGE é integrado com nuvem de qual empresa?
Oracle e Microsoft. Você usa o Microsoft? Ali, com a inteligência artificial, você dá informação para treinar a máquina do outro. Tem uma situação de vulnerabilidade, porque os nossos dados estão depositados em empresas privadas. Não tivemos nenhum problema de vazamento, mas são empresas [big techs] que estão submetidas à lei patriota [dos EUA].
Já estamos nos primeiros testes de uso de inteligência artificial própria do IBGE. Não é nacionalismo, é para garantir o sigilo. Esse acordo com o Serpro visa, de um lado, buscar segurança de dados estratégicos. Tem uma nuvem que eles criaram, que é do governo.
Mas a tecnologia dessa nuvem é da chinesa Huawei.
É um software livre. E a administração é fechada, é nossa. Só nós mexemos lá.
Isso tudo está previsto no contrato que foi firmado com o Serpro?
Sim. São três coisas: o deslocamento e a gestão da governança dos dados do IBGE, o uso de inteligência artificial. O terceiro passo é garantir os processamentos em termos de escalabilidade. O Censo coleta dados de 90 milhões de domicílios. Se você quiser parear isso com o CADÚnico, precisa de uma capacidade de processamento enorme. E o Serpro já é depositário de informações de vários ministérios.
Os técnicos falaram sobre qualidade dos registros administrativos, que não seguem a metodologia rigorosa do IBGE. O senhor acha que é viável ampliar esse escopo?
Esse é o nosso intuito: preparar o IBGE para, além de produzir dados, gerir dados, governar dados. O país mudou, e como é que você pode governar esses novos dados? Faz por registro administrativo. É uma pressão enorme por redução de custos e aumento da qualidade. Os registros administrativos têm falhas, mas isso não pode ser um argumento. Então, já que tem falha, eu não vou usar?
Foi feito um grande concurso, só que não é suficiente para repor quem vai se aposentar. Como o senhor enxerga essa defasagem?
Esse é o argumento pelo qual se imagina que é preciso repor vagas que anteriormente existiam. Eu não sei se são necessárias, porque a instituição está passando por um outro processo de reestruturação. O uso da inteligência artificial, por exemplo, reduz a necessidade de fazer coisas que anteriormente se precisava de mais gente. É um planejamento sobre fluxo. Estamos implementando isso, mas não é do dia para noite.
O Censo 2022 teve problemas desde a coleta. Vamos entrar em 2026 ainda sem os microdados de 2022. Como o senhor garante que não aconteça nos próximos?
A casa faz sempre uma reflexão do que se aprende. Em 2022, é a de que a pior opção que se pode fazer é cortar o questionário. O questionário é produto de reflexão, de análise. Quando você corta, desorganiza.
Temos um trabalho de conversa com os municípios. A gente tem feito divulgação descentralizada [fora do Rio de Janeiro]. Essa interlocução é muito importante agora no Censo Agropecuário.
O Censo da População em Situação de Rua está sendo preparado, fizemos uma experiência com Niterói. Foi muito boa essa junção com a assistência social. Para fazer um censo com essa finalidade, vai ter que existir articulação com as prefeituras. Isso é novidade.
A gente sabe a pressão, eu sou pesquisador também, de ter os microdados. Mas antes disso tem a questão da segurança.
Como garantir essa segurança para o próximo Censo Demográfico, o de 2030?
Nós sabemos que a questão econômica nos exige a modernização. Modernizar significa fazer mais com menos, mas não é precarizando mão de obra, não é restringindo o questionário. É, na verdade, possibilidade de utilização de múltiplas fontes.
