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Governo Lula foi alertado por diferentes órgãos sobre explosão de fraudes no INSS desde 2023

Governo Lula foi alertado por diferentes órgãos sobre explosão de fraudes no INSS desde 2023

Por Daniel Weterman/Estadão

28/04/2025 às 16:36

Atualizado em 28/04/2025 às 16:36

Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo

O presidente Lula (PT) e o ministro da Previdência Social, Carlos Lupi

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi alertado por diferentes órgãos sobre a disparada de fraudes nas mensalidades ilegais descontadas de aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) desde 2023. Documentos mostram que os alertas vieram do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria-Geral da União (CGU), do Ministério Público, do Conselho Nacional de Previdência Social, da imprensa e de auditores do próprio INSS.

O esquema levou à queda do presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, e ao afastamento de outros dirigentes por omissão e falta de controle nas operações. O INSS alega ter tomado providências para aperfeiçoar o processo a partir de 2024, principalmente com adoção de biometria e o cancelamento das mensalidades não autorizadas pelos beneficiários, mas não explicou por que as fraudes aumentaram.

As fraudes ocorreram com valores cobrados por associações e sindicados de aposentados e pensionistas. Essas entidades oferecem serviços como consultas médicas, auxílio funeral e “marido de aluguel” (reparos residenciais) e cobram uma mensalidade que é descontada diretamente da folha de pagamento dos beneficiários.

Na maioria dos casos, os aposentados não autorizaram esses descontos e muitos sequer sabiam que estavam associados a esses sindicatos. As investigações mostram que houve negligência no tratamento do problema e as fraudes só dispararam, em vez de diminuírem ou acabarem.

Explosão de fraudes motivou investigações e alertas em 2023

Em 2023, a CGU iniciou uma investigação sobre os descontos indevidos devido às denúncias e ao aumento expressivo no número de mensalidades descontadas. O órgão justificou o trabalho “devido ao súbito aumento no montante dos descontos (de R$ 536,3 milhões em 2021 a R$ 1,3 bilhão em 2023)”, além de “fragilidade dos controles mantidos pelo INSS para a realização desses descontos, histórico de irregularidades reportadas e elevado número de requerimentos de cancelamento.”

A CGU fez alertas e constatou que o INSS não implementou controles suficientes para diminuir os riscos de descontos indevidos, conforme relatório da Controladoria. O INSS seguiu assinando acordos com os sindicados mesmo após uma suspensão ocorrida em 2019, com o crescimento significativo dos descontos a partir de julho de 2023, de acordo com os investigadores.

Os resultados das entrevistas com beneficiários que foram vítimas das fraudes foram encaminhados pela CGU ao INSS no dia 3 de julho de 2024, nove meses antes da operação da Polícia Federal que mirou os envolvidos do esquema, em abril de 2025.

No dia 23 de julho do ano passado, a diretoria do INSS recebeu uma versão preliminar dos resultados, devido à gravidade da situação. No mês seguinte, em agosto, CGU e INSS se reuniram para buscar soluções. Em setembro, a CGU concluiu o relatório, constatando que o INSS não agiu para acabar com as irregularidades.

“Mesmo conhecendo essa situação, a existência de denúncias recorrentes acerca da realização de descontos associativos não autorizados pelos beneficiários, e a falta de capacidade operacional necessária para acompanhamento dos ACT (acordos de cooperação técnica, assinados com os sindicatos), o INSS não implementou controles suficientes para mitigar os riscos de descontos indevidos, e seguiu assinando ACT após a suspensão ocorrida em 2019, com o crescimento significativo dos descontos a partir de julho de 2023?, diz o documento.

A disparada dos casos ocorreu em 2023, mas as fraudes já haviam começado antes, ou seja, quando o governo Lula assumiu o INSS já sabia do problema. Em julho de 2019, o Ministério Público do Paraná avisou o INSS sobre diversas denúncias de descontos indevidos, o que levou o órgão a suspender os acordos com quatro entidades. Mesmo assim, os pedidos de cancelamento em virtude das fraudes continuaram crescendo.

O ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, foi informado, em junho de 2023, de que havia um aumento de denúncias de descontos sem autorização em aposentadorias e pensões do INSS durante uma reunião do Conselho Nacional de Previdência Social. A informação foi revelada pelo pela TV Globo e confirmada pelo Estadão. Ao Estadão/Broadcast, o ministro afirmou que determinou uma apuração sobre o tema, concluída em 6 de setembro de 2024. “Não me omiti, procurei agir”, declarou Lupi à reportagem.

TCU identificou fraudes e alertou INSS sobre falhas no controle

O TCU também fiscalizou os descontos e realizou diferentes reuniões com o INSS alertando sobre as fraudes, incluindo conversas com os integrantes do órgão nos dias 20 de setembro e 27 de novembro de 2023. A Corte de Contas fez uma inspeção de novembro de 2023 a março de 2024, a pedido do Congresso Nacional, e verificou que os controles mantidos pelo órgão para combater os descontos indevidos eram insuficientes.

Em junho do ano passado, 10 meses antes de a PF deflagrar a operação e o afastamento da cúpula do INSS, o TCU determinou que o governo só autorizasse novos descontos com assinatura eletrônica avançada e biometria. “Os processos atuais para consignação de empréstimos e contribuições para associações e sindicatos nas folhas de pagamento de beneficiários do INSS apresentam falhas de controles que ensejaram a averbação de consignações e descontos indevidos”, concluiu a Corte de Contas.

Além disso, o tribunal determinou que o INSS tomasse medidas para identificar e responsabilizar os sindicatos e associações suspeitas de fraudes e ressarcir os valores descontados indevidamente. No entendimento do TCU, o INSS poderia responder pelos descontos ilegais.

Em março de 2024, o portal Metrópoles revelou detalhes do esquema, apontando que os sindicados faturaram R$ 2 bilhões com descontos indevidos em um ano. O Ministério Público Federal (MPF) moveu uma ação judicial logo em seguida e pediu a suspensão dos acordos feitos pelo INSS com os sindicatos.

O próprio INSS reconheceu o problema ao editar uma instrução normativa no mesmo mês para atender as recomendações da CGU e do TCU. A portaria exigiu biometria para autorizar os descontos e instituiu o cancelamento automático a pedido dos beneficiários. O então presidente do órgão usou a mesma norma para eximir o instituto de responsabilidade sobre as fraudes.

Auditoria interna do INSS identificou falta de fiscalização do próprio órgão

Uma auditoria interna do INSS, concluída em setembro 2024, identificou falhas no controle e falta de fiscalização do próprio órgão. Os técnicos apontaram R$ 45,5 milhões em descontos indevidos entre janeiro de 2023 e maio de 2024, erros na avaliação de risco de novas parcerias com sindicatos, falta de verificação da documentação dessas entidades e prejuízo aos cofres públicos.

Os custos operacionais do INSS com os acordos, que deveriam ser bancados pelas entidades, não estavam sendo ressarcidos. Somente nesse período, foram R$ 5,9 milhões em despesas não ressarcidas.

As conclusões foram encaminhadas para o comando do instituto, recomendando a revalidação dos descontos e a imediata exclusão de mensalidades não autorizadas, além de assegurar o ressarcimento dos custos do governo com o sistema e a fiscalização.

“A inserção de descontos indevidos representa impacto direto aos beneficiários, por vezes inseridos em um contexto socioeconômico em que o valor do desconto compromete a renda familiar”, diz a auditoria.

Governo diz que tomou providências, mas não explica por que fraudes aumentaram

O governo Lula alega que tomou providências para excluir as mensalidades descontadas indevidamente, mas não explicou por que as fraudes aumentaram. Procurado nesta segunda-feira, 28, o Ministério da Previdência Social reforçou a nota divulgada em conjunto com o INSS na semana passada listando as medidas adotadas. O INSS não teceu mais comentários.

“Das 11 entidades investigadas pela CGU, somente uma teve acordo assinado em 2023. As demais são de 1994, 2014, 2017 (2), 2021 e 2022 (5). Como é possível observar, esses descontos vinham ocorrendo em governos anteriores. Na atual gestão, ações imediatas foram tomadas”, diz a nota.

Entre as medidas adotadas, a primeira listada pelo governo é de janeiro de 2024, quando o INSS divulgou no site oficial e redes sociais como aposentados e pensionistas podem pedir bloqueio de descontos não reconhecidos no contracheque.

Além disso, o governo alega ter suspendido novos acordos com sindicatos e alterado as regras em março de 2024, com a edição da instrução normativa. A norma determinou que o desconto teria de ser formalizado por termo de adesão, com assinatura eletrônica avançada e biometria (para novos contratos).

O governo aponta o número de mensalidades excluídas para argumentar que agiu. “A diferença de exclusões do governo anterior com o atual é discrepante: em 2022 foram excluídos 115.541 descontos associativos. Em 2023 saltou para 465.061 exclusões. Em 2024 foram canceladas 1.516.500 mensalidades. E em 2025 (até 23 de abril) 374.609 mensalidades foram excluídas (tabela abaixo)“, dizem o ministério e o INSS. O aumento das exclusões, no entanto, se deu justamente com a disparada nas fraudes.

Até o momento, o governo não explicou por que as fraudes aumentaram em 2023 e 2024 apesar das medidas adotadas e dos alertas feitos pelos órgãos de controle. Conforme o Estadão mostrou, os motivos para a explosão dos descontos nesse período — quase todos sem autorização — passam pelo afrouxamento das regras, motivado por lobbies no Congresso Nacional, falhas do INSS no controle e indicações políticas para o órgão.

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