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OAB pede exclusão de advogado que afirmou em sua petição que juíza tem 'resquícios de senzala'

OAB pede exclusão de advogado que afirmou em sua petição que juíza tem 'resquícios de senzala'

Por Yuri Eiras/Folhapress

21/03/2025 às 17:45

Atualizado em 21/03/2025 às 17:45

Foto: Reprodução/Facebook

A juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro

A corregedoria da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio de Janeiro decidiu pedir nesta sexta-feira (21) a exclusão do advogado José Francisco Barbosa Abud dos quadros da Ordem. A medida representa a cassação do registro profissional.

Abud é suspeito de ter feito ataques racistas contra a juíza Helenice Rangel Gonzaga Martins, da 3ª Vara Cível de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, em uma petição incluída nos autos de um processo.

A reportagem não conseguiu localizar José Francisco Barbosa Abud. A ficha do advogado que consta no CNA (Cadastro Nacional de Advogados) não informa telefone profissional. A juíza Helenice Rangel não retornou aos contatos.

A reportagem teve acesso à petição, que tem assinatura eletrônica do advogado e foi juntada aos autos em novembro de 2024. O documento não traz detalhes sobre quais são os clientes defendidos por Abud, nem descreve o processo, mas o teor indica que trata-se de uma ação por herança.

O documento contém ataques racistas contra a juíza Helenice Rangel. Ainda no início, o autor do texto diz que a magistrada "afrodescendente" teria "resquícios de senzala e recalque ou memória celular dos açoites" e "uma infância devassada por parentes próximos que perpetuam abusos mais do que comuns a primatas ou primitivos".

Segundo o parecer da corregedoria da OAB, Abud "praticou conduta incompatível com a advocacia, tornou-se moralmente inidôneo para o exercício da advocacia e praticou crime infamante, que gerou comoção na sociedade".

A sindicância, aberta na OAB pela presidente da seccional, Ana Tereza Basilio, inclui a suspensão preventiva das atividades do advogado. O caso vai ser julgado pelo Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-RJ.

Além disso, o caso foi encaminhado pelo Tribunal de Justiça do Rio ao Ministério Público, que pode oferecer denúncia.

O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) divulgou nota em que "repudia de forma veemente as manifestações racistas" feitas pelo advogado. "Além de atingir diretamente a honra e a dignidade da magistrada, as ofensas afrontam o Poder Judiciário, que busca, de forma permanente, combater o racismo estrutural", diz o conselho.

O TJRJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) também fez nota de repúdio e afirmou que as declarações "além de atingir diretamente a honra pessoal e profissional da magistrada, representam uma grave afronta à dignidade humana e ao exercício democrático da função jurisdicional".

A Amaerj (Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro) disse em nota que o caso "é inaceitável". "Racismo é crime e deve ser combatido por toda a sociedade".

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