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Lava Jato foi fenômeno pop, com filme, série da Netflix e marchinha de Carnaval
Lava Jato foi fenômeno pop, com filme, série da Netflix e marchinha de Carnaval
Por Felipe Bächtold/Folhapress
10/03/2024 às 09:20
Foto: Ique Esteves/Divulgação

Não bastasse a onipresença da Lava Jato no noticiário durante o auge da operação, houve fôlego ainda para o tema se espalhar também pelo universo cultural, com série na Netflix, filmes, livros e até na publicidade.
O apelo pop das investigações, com suas delações que vinham à tona a cada semana, empresários em desgraça e inesperadas prisões de políticos conhecidos, fez com que o assunto inspirasse ainda de personagem em novela da Globo a uma variedade de esquetes do grupo Porta dos Fundos e também uma marchinha de Carnaval em homenagem ao policial conhecido como Japonês da Federal.
Em Curitiba, a capital da operação que completa dez anos neste mês, o interesse era tanto que uma agência de turismo se arriscou em criar um "tour da Lava Jato", em que os participantes eram levados em uma van a pontos de interesse, como a sede da Polícia Federal ou o presídio em que estavam detidos os acusados.
A revista Playboy, pouco antes de encerrar sua versão brasileira, estampou em sua capa ensaio com uma amante do doleiro Alberto Youssef, pivô da investigação.
Eram tempos em que a operação ostentava amplo apoio popular. Em pesquisa do Datafolha em 2018, 84% da população dizia que a Lava Jato deveria continuar.
Na TV, a Chevrolet tentou embarcar na onda pró-Lava Jato e lançou propaganda de um automóvel em 2017 no qual mostrava prisões de políticos e dizia que o país "cansou da malandragem". "Você no caminho da mudança", era o slogan do comercial.
Um dos símbolos daquele período foi a série da Netflix "O Mecanismo", do diretor José Padilha, o mesmo de "Tropa de Elite", que foi lançada em março de 2018, às vésperas da prisão do hoje presidente Lula.
Contava a história dos primeiros passos da operação, misturando passagens ficcionais sobre um policial obcecado, vivido pelo ator Selton Mello, que contracenava com um cover do procurador Deltan Dallagnol.
Em 2017, a Lava Jato chegou também às telas do cinema, com o filme "Polícia Federal: A Lei é para Todos", reconstituindo os primeiros capítulos da investigação, também em um clima de mocinhos contra bandidos. Os atores Marcelo Serrado e Ary Fontoura interpretavam, respectivamente, Moro e Lula.
Na campanha de divulgação, a produtora instalou no centro de Curitiba uma montanha de cédulas falsas de real, simbolizando o dinheiro apreendido durante a Lava Jato. Mais de 1,3 milhão de pessoas foram ao cinema para ver o longa pelo país.
Também o Ministério Público tentou aproveitar a onda à época, procurando personalidades para emplacar a campanha "Dez Medidas contra a Corrupção", encampada por procuradores da operação que coletaram assinaturas para um projeto de mudanças legislativas.
Um site foi criado pela Procuradoria listando celebridades que apoiavam a causa, incluindo o cantor Paulo Ricardo e os integrantes da banda Paralamas do Sucesso.
Em 2017, até Caetano Veloso compareceu a um ato em desagravo ao juiz lava-jatista Marcelo Bretas, responsável pelo braço do Rio de Janeiro. Naquela época, o magistrado fluminense estava em constante atrito com o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal).
A febre da Lava Jato durou até a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2018, quando houve a adesão de Sergio Moro ao governo eleito, e o clima parece ter esfriado. Parte da elite política alvo da operação foi "aposentada" com derrotas naquela eleição, e a agenda política do país mudou abruptamente para os embates e bravatas do bolsonarismo, com suas ameaças a instituições e declaratório incendiário.
O vazamento, em 2019, de conversas entre procuradores da operação no aplicativo Telegram, que mostrou práticas abusivas na investigação, só acelerou o processo.
Na direção oposta, um documentário crítico à operação, "Democracia em Vertigem", sobre o impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão de Bolsonaro, concorreu ao Oscar no início de 2020, mas não levou a estatueta.
O assunto passou a cansar. O tour da Lava Jato da agência de turismo em Curitiba acabou por falta de interessados, e a segunda temporada de "O Mecanismo" teve pouca repercussão.
O diretor José Padilha deu declarações se arrependendo do tom adotado na série. Ao jornal Folha de S.Paulo, em 2022, disse que deveria ter visto antes do vazamento de conversas que havia "um acordo entre procuradores e juízes para tirar Lula da eleição" de 2018.
Um dos últimos espasmos da onda da Lava Jato foi o filme "Três Verões", de Sandra Kongut, lançado durante a pandemia, em 2020, em que Regina Casé interpreta a empregada doméstica de uma família investigada na operação.
A prometida continuação de "A Lei é Para Todos" acabou nunca saindo do papel.
As autoridades da operação nunca esconderam que buscavam na opinião pública respaldo para a continuidade dos trabalhos, sempre ameaçados de paralisação por alguma decisão judicial em Brasília.
A professora de ciência política Nara Pavão, da Universidade Federal de Pernambuco, diz que contribuiu para o fenômeno o contraste entre a boa avaliação da população em relação às instituições de controle, como o Ministério Público e a polícia, e a má imagem das instituições políticas, como o Legislativo.
Para ela, a Lava Jato assumiu na época um certo "caráter de campanha" anticorrupção.
"Essa campanha, ela tem características muito novelescas e muito maniqueístas, que é o que as pessoas gostam, é o que entretém. Então, de alguma forma, o conteúdo é muito atraente do ponto de vista da opinião pública. As pessoas gostam de falar mal de política, gostam de confirmar as suas visões preexistentes e negativas. É um tema que mobiliza muito e que cola muito", diz a professora.
Ela é coautora do livro "Prosecutors, Voters and the Criminalization of Corruption in Latin America" (Procuradores, Eleitores e a Criminalização da Corrupção na América Latina"), que analisa os efeitos da Lava Jato em diversos países.
"A luta contra a corrupção, da maneira como ela foi feita, pega atores que estão ali, juízes, procuradores, a força-tarefa e tal, e que vão limpar a política, que vão salvar a gente desses grupos corruptos, autointeressados, que não tem disciplina partidária, que não tem ideologia".
