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Junho de 2013 selou união de Haddad e Alckmin e afastou petista de Dilma

Junho de 2013 selou união de Haddad e Alckmin e afastou petista de Dilma

Por Julia Chaib e Victoria Azevedo / Folha de São Paulo

30/05/2023 às 07:08

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Políticos tiveram queda e ascensão e se unem a Lula dez anos após manifestações

Em 11 de junho de 2013, o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), estava em Paris com o governador Geraldo Alckmin (então PSDB, hoje PSB) quando a capital paulista foi palco do terceiro de uma série de protestos contra a tarifa de ônibus que tomaria conta do país.

Na Europa, os dois defendiam a candidatura de São Paulo para sediar a Expo 2020 e, no dia anterior, cantaram ao lado de Daniela Mercury a música "Trem das Onze", de Adoniran Barbosa.

O ato daquele dia 11 era o mais violento até ali, em um prenúncio do que caracterizaria as manifestações que viriam a seguir, marcadas também pela violência policial .

Daquele protesto saiu a imagem de um policial ensanguentado após ser agredido, segurando um manifestante e apontando uma arma a outro grupo, o que se tornaria uma das fotos emblemáticas daquele período.

Alckmin e Haddad foram surpreendidos pela evolução das marchas, que começaram em 6 de junho. Decidiram então montar um gabinete de crise em uma sala da embaixada do Brasil na França para receber informes e tentar gerenciar a situação à distância.

Ali, na capital francesa, foi selada uma aproximação entre Haddad e Alckmin, então adversários políticos, que pavimentaria o caminho para que o ex-prefeito articulasse a candidatura do ex-tucano à Vice-Presidência da República, ao lado de Lula (PT).

Assim como serviu para unir os rivais políticos, os protestos de junho de 2013 foram marcados por atritos entre Haddad e a então presidente da República, Dilma Rousseff (PT), que se acusavam mutuamente de responsabilidade pela escalada dos protestos.

Os três passaram por turbulências em suas carreiras políticas após as manifestações. Haddad não conseguiu ser reeleito em 2016. Alckmin, ganhou em 2014, mas viu sua projeção diminuir após o fim do governo, enquanto também foi alvo desgaste pela Lava Jato. Dilma sofreu impeachment —alimentado, entre outras coisas, por vários protestos após as Jornadas de Junho.

Em 2013, o clima entre a petista e o então prefeito era gelado, de acordo com auxiliares próximos dos dois. Dez anos depois, os três atores estão unidos novamente no mesmo governo —além da atuação para eleger Lula presidente, voltaram a conviver politicamente, desta vez na mesma gestão.

Os acontecimentos daquela época, no entanto, balizaram o relacionamento entre eles, de acordo com relatos de dez pessoas próximas aos políticos e ouvidas pela reportagem.

A relação entre Alckmin e Haddad firmada naquele período, por exemplo, deixou de ser apenas cordial e passou a ser descrita por aliados como de confiança mútua.

Aliados de Haddad dizem que, logo no início da onda de protestos, o então governador disse ao então prefeito que o apoiaria nas decisões para tentar mitigar os atos, fosse para manter o valor das tarifas em R$ 3,20 ou recuar —voltando para R$ 3.

Isso não significa, no entanto, que não tenha havido discordâncias no período.

Um episódio que gerou ruído foi quando Haddad pediu para que Alckmin trocasse o comandante-geral da PM de São Paulo após manifestantes terem tentado invadir a sede da prefeitura e a polícia não ter agido firmemente para conter a multidão. O pedido não foi atendido.

Segundo um interlocutor do petista, isso foi lido como um recado dos fardados que haviam se incomodado com declarações de Haddad, que tinha criticado dias antes a violência da PM na repressão de protestos.

Depois de 13 dias desde a primeira manifestação, em 19 de junho, os dois políticos anunciaram juntos, no Palácio dos Bandeirantes, que iriam recuar no aumento das passagens. Naquele dia, mais cedo, Haddad falou ao telefone com o então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.

"‘Não vou segurar [o preço da tarifa], você vai ficar sozinho’, me disse o prefeito do Rio. A pressão interna sobre nós já atingia patamares insuportáveis e o telefonema era a gota d’água", narrou Haddad em artigo na revista Piauí, em junho de 2017.

Para um aliado de Haddad, o anúncio conjunto revela mais sobre a relação que ele tinha com Dilma do que propriamente com Alckmin. Na avaliação desse aliado, o recado era o de que eles estavam juntos ali porque foi o ex-tucano que esteve ao longo do processo próximo a Haddad —diferentemente de Dilma.

Um interlocutor da ex-presidente destaca que, até mesmo entre pessoas do círculo próximo de Dilma causou espécie o distanciamento imposto por ela ao correligionário.

Na época, a presidente atuou para que Haddad recuasse do reajuste da tarifa por considerar o problema inicialmente restrito a São Paulo. O prefeito, por sua vez, acreditava que as reivindicações extrapolavam o preço das passagens e por isso resistia a baixar a tarifa.

Aliados do petista afirmam ainda que o ex-secretário de Educação, Gabriel Chalita, ajudou na aproximação com Alckmin, que rendeu uma série de críticas a Haddad dentro do PT, que tem a fama de ser "o mais tucano dos petistas".

Já Haddad e Dilma, que conviveram quando ele era ministro da Educação de Lula e ela ministra da Casa Civil, e em seguida quando a petista já presidia o país, haviam se desentendido dias antes de o petista tomar posse como prefeito de São Paulo, em dezembro de 2012.

Como o próprio Haddad relata em artigo da Piauí, naquele mês, ele teve uma reunião com Dilma no Palácio do Planalto. Na ocasião, a presidente pediu que ele segurasse o reajuste das tarifas de ônibus, que ocorreria em janeiro, até junho de 2013, para evitar impactos sobre a inflação. Assim foi feito.

Um aliado do petista afirmou à Folha que Haddad deixou a reunião fisicamente abalado e disse, em tom alarmista, que estava com medo de o seu mandato não dar certo.

Segundo pessoas próximas a ambos, a relação entre os dois, depois de Dilma deixar o governo, manteve-se respeitosa e melhorou, mas não é de proximidade. Haddad entoou o coro dos pares contra o impeachment da petista e ela, por sua vez, fez campanha para que ele fosse eleito presidente da República em 2018.

Já em 2023, depois que Lula decidiu indicar Dilma para presidir o banco dos Brics, Haddad apoiou e articulou para concretizar a nomeação.

Entre os três personagens, Alckmin é tratado como o que menos se envolveu em polêmicas em 2013. A relação dele com Dilma é descrita como protocolar, institucional e sem sobressaltos.

Diferentemente de Haddad, Alckmin endossou a defesa do impeachment da petista. Ao longo da campanha presidencial em 2022, no entanto, os dois trocaram afagos mútuos.

Numa sabatina, Alckmin afirmou que discorda da narrativa de que o que ocorreu foi um "golpe", mas disse que o processo foi "injusto" e que sempre manteve boas relações com a petista.

Num evento da campanha, Dilma exaltou a parceria que teve com Alckmin durante o seu governo, afirmando que teve a honra de compartilhar com o ex-tucano "o exercício de uma função que no Brasil foi esquecida completamente".

Os três políticos foram procurados pela reportagem, por meio de suas assessorias de imprensa.

Alckmin disse à Folha que manteve diálogo com ambos nas manifestações no sentido de "acolher as demandas sem deixar que o estado fosse paralisado". "Aqueles episódios fortaleceram os vínculos que mantenho com ambos", afirmou.

Pessoalmente, o vice-presidente afirmou que junho de 2013 reforçou a premissa de que se deve "sempre prezar pelo diálogo". Questionado sobre o impacto das manifestações na vida política do país, o vice-presidente respondeu que o Brasil "a cada dia, a cada sobressalto, vem fortalecendo a democracia".

Alckmin avalia ainda que as manifestações não trouxeram prejuízos para a sua vida política. "Elas trouxeram aprendizado, fortaleceram o regime. No meu caso, fui reeleito em 2014 ainda em primeiro turno."

Em nota, Haddad disse que "considera já ter dito tudo o pensa a respeito na época dos acontecimentos".

Dilma não respondeu.

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