Alberto Fernández anuncia que não concorrerá à reeleição na Argentina
Por Júlia Barbon/Folhapress
21/04/2023 às 14:21
Atualizado em 21/04/2023 às 18:07
Foto: Reprodução/Twitter

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, anunciou de surpresa na manhã desta sexta-feira (21), em um vídeo em sua conta no Twitter, que não concorrerá à reeleição. O país escolherá o próximo mandatário em outubro.
"O contexto econômico me obriga a dedicar todos os meus esforços a atender os difíceis momentos que atravessa a Argentina. Como disse recentemente, depois da pátria vem o movimento", justificou na gravação.
Sua recondução ao posto era considerada improvável devido à grave crise econômica e ao crescimento da pobreza que mercam seu governo. Ele é desaprovado por 71% dos argentinos, a maior rejeição na série histórica de 17 anos da consultora Poliarquía, que divulgou o número nesta quinta (20).
A desistência, incomum para um presidente, ocorre quase um mês após Mauricio Macri (2015-2018) fazer o mesmo movimento pela aliança de oposição Juntos pela Mudança. Macri havia tentado a reeleição em 2019, mas perdeu para Fernández. A poucos meses do pleito, a disputa ainda é considerada muito incerta.
No vídeo de quase 8 minutos em que fez o anúncio, editado com imagens históricas e música emotiva, Fernández evocou a figura do ex-presidente Nestor Kirchner, eleito há 20 anos, e afirmou que chegou à presidência em 2019 dando fim a um ciclo de "inquietação para o povo argentino", em uma alfinetada a Macri.
Ele sustenta que já recebeu um país endividado, em recessão, com alta pobreza e inflação, além de ter passado pela pandemia e pela guerra da Ucrânia. Mesmo assim, argumenta, construiu casas e fez obras públicas "como nunca", ampliou os direitos das mulheres e "construiu pontes" na América Latina.
O mandatário justifica a crise pela forte seca que prejudica uma das principais fontes de renda para o país, as commodities, e também culpa os "especuladores de sempre que geram inquietudes, jogando com o dólar ilegal". Por isso, diz, agora tem que se concentrar nos problemas dos argentinos.
Ele termina conclamando a militância peronista a concorrer nas primárias, em agosto, dizendo que "é preciso gerar um novo ciclo", e fala de unidade para enfrentar nas eleições gerais. Fez questão de ressaltar que, "para além de críticas internas, não tem nenhum adversário" dentro da coalizão peronista Frente de Todos.
Com a desistência, Fernández abre espaço para seus concorrentes dentro da aliança de esquerda nas prévias. Entre os nomes considerados presidenciáveis está o da atual vice, Cristina Kirchner, com quem ele frequentemente tem desconfortos.
Cristina tem feito um mistério sobre sua candidatura, usando a narrativa de que estaria inelegível após ter sido condenada por corrupção em dezembro. Isso só ocorrerá, porém, caso a decisão da Justiça argentina em primeira instância seja confirmada pelas instâncias superiores.
A ex-presidente afirma que é vítima de "lawfare", quando o Judiciário persegue um investigado por razões políticas, e sustenta que a condenação estava escrita desde o início do processo.
Outro possível candidato pela aliança é o ministro da Economia, Sergio Massa, porém ambos também estão em queda na aprovação popular. Um terceiro nome cotado pelo peronismo é o de Daniel Scioli, hoje embaixador da Argentina em Brasília.
A insatisfação com o governo é puxada principalmente pela piora dos índices econômicos e sociais. Segundo o Indec (IBGE argentino), cerca de 39% dos argentinos estão pobres e 8,1%, indigentes, o que torna mais difícil retirar os enormes subsídios concedidos às famílias, incluindo em contas de luz e gás.
O país vizinho vive acostumado à instabilidade econômica. Em seus 40 anos de democracia, completados neste ano, atravessou nove grandes crises e e cresceu, em média, só 1% ao ano no período. Conserva hoje o mesmo PIB per capita dessas quatro décadas atrás.
Ainda que haja esse contexto histórico, Fernández é enxergado como incompetente para resolver o problema. O atual ministro da Economia, Massa, é visto pelo mercado como alguém que foi colocado ali para "segurar as pontas" até as eleições e entregar o abacaxi ao próximo governo.
A desistência de sua reeleição ocorre em meio a um período particularmente tenso para o governo. Na semana passada, os argentinos receberam a notícia de um novo recorde da inflação em março: 104,3%, o maior valor acumulado em mais de 31 anos.
Depois, se assustaram com uma nova disparada na curva do câmbio, após alguns meses de alta relativamente estável. O dólar paralelo "blue" deu um salto de 10% em apenas dez dias. É essa cotação que dita o dia a dia do país, e não a oficial, mantida pela Casa Rosada.
Isso quer dizer que se um argentino fosse a uma "cueva", casa de câmbio ilegal, no último dia 10, compraria um dólar por cerca de 400 pesos. Nesta quinta (20), já teria que desembolsar 432 pesos, o dobro do que pagava um ano atrás.
