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Após bloqueio no MEC, ministro diz que queixas de universidades têm motivação política
Após bloqueio no MEC, ministro diz que queixas de universidades têm motivação política
Por Paulo Saldaña, Folhapress
06/10/2022 às 14:30
Foto: Divulgação/Arquivo

Após o governo Jair Bolsonaro (PL) bloquear R$ 2,4 bilhões no orçamento do MEC (Ministério da Educação), que atinge instituições federais de ensino, o ministro da Educação, Victor Godoy Veiga, convocou uma entrevista nesta quinta-feira (6) para minimizar a decisão, negar que tenha havido cortes, além de dizer que as queixas de universidades e institutos têm motivação política.
O bloqueio foi anunciado nesta quarta (5) em ofício enviado para as federais, que criticaram a medida por temer pela continuidade dos serviços ao longo deste ano. Já no dia anterior o MEC fez estorno de valores dos caixas das instituições.
"Lamento ver algumas instituições que têm utilizado isso de maneira política", disse o ministro, argumentando que o bloqueio não significa retirada definitiva do recurso previsto. "Não há corte, não há bloqueio, não há [risco de] paralisação [das atividades]."
Os R$ 2,4 bilhões representam 11,4% da dotação atual de despesas discricionárias do ministério. São as despesas de livre movimentação, sem levar em conta salários e transferências obrigatórias, por exemplo, mas imprescindíveis para pagamentos de contas como água, luz, segurança e assistência estudantil.
Trata-se de uma limitação imposta pela área econômica do governo Bolsonaro nos limites de movimentação e empenho das pastas —a mais afetada, mais uma vez, foi a Educação. Na prática, o uso do dinheiro previsto no Orçamento fica temporariamente congelado.
O ministro não respondeu, durante a entrevista, por que a Educação tem sido a mais prejudicada durante o governo Bolsonaro quando há decisões de cortes e congelamentos.
O governo insiste que haverá a liberação em dezembro dos recursos agora bloqueados. Reitores temem, no entanto, que isso não ocorra e argumentam que a limitação atual pode inviabilizar a continuidade das atividades.
Para as instituições federais de ensino, a redução foi 5,8%. Segundo divulgado por reitores, isso pode paralisar o funcionamento de unidades.
Os institutos federais de educação técnica acumulam perda de R$ 300 milhões no ano. Nas universidades, os congelamentos perfazem uma retirada de R$ 763 milhões com relação ao que havia sido aprovado no Orçamento deste ano.
O corte desta semana, que se soma a enxugamentos sistemáticos de dinheiro da educação desde 2019, tem causado desgaste ao governo às vésperas do segundo turno da eleição entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A Andifes, que representa os reitores das universidades federais, divulgou nota afirmando que a limitação "esgota as possibilidades de pagamentos a partir de agora" e é insustentável. "Lamentamos também que seja a área da educação, mais uma vez, a mais afetada pelos cortes ocorridos", diz a Andifes.
O Conif, conselho que agrega os institutos técnicos, divulgou posicionamento em que aponta o estudante como o maior prejudicado, "pois os recursos da assistência estudantil são fundamentais para a sua permanência na instituição".
Na entrevista, Godoy disse que, "quando vem uma manifestação política de uma associação que quer dizer que vai paralisar o ensino superior", a pasta teria a informação qualificada de cada instituição e sabe qual pode precisar de mais recursos. Se for necessário, disse ele, o MEC promete analisar casos específicos para garantir liberações extras de movimentação.
Além de acusar instituições de agir politicamente, o ministro fez menção à eleição. "É um uso político dessa informação, inclusive distorcida", diz ele, "em um momento muito importante para o país. Precisamos deixar que as pessoas façam suas escolhas baseadas em informações fidedignas".
Maior federal do país, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) divulgou nota em que afirma que o impacto desse bloqueio, de R$ 18 milhões na instituição, somado aos anteriores, deixa a instituição com o menor orçamento discricionário dos últimos dez anos.
"Se o bloqueio não for revertido, provavelmente não teremos como continuar funcionando neste ano", declarou, por nota, o pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, Eduardo Raupp.
Um decreto publicado pelo governo no dia 30 de setembro definiu os limites de movimentação de empenho do MEC e de outros ministérios. O ofício que chegou na quarta às federais sacramenta o conteúdo do decreto.
Tanto o MEC quanto o Ministério da Economia têm insistido que o bloqueio atual não significa corte por se tratar de uma limitação na movimentação, com chance de ser liberado em dezembro. Os valores bloqueados seriam para o cumprimento do Teto de Gastos.
O valor cortado do MEC, sem previsão de ser reposto, chega a R$ 1,04 bilhão.
"Cabe ao MEC avaliar suas dotações orçamentárias e, caso necessário, propor remanejamento de bloqueios entre elas visando a redução do impacto desses bloqueios nas políticas públicas a cargo do Ministério", diz nota da Economia.
O MEC argumentou que, na média, as instituições federais de ensino têm recursos disponíveis porque nem todo orçamento foi empenhado e pago. Nas universidades, 84,9% das despesas discricionárias foram empenhadas e 50,1% dessas despesas, pagas, diz a pasta. Já os institutos federais empenharam 82,6% e pagaram 44,9% do orçamento do corrente ano.
A área da educação sofre cortes generalizados sob o governo Bolsonaro. A Folha mostrou em setembro que os gastos com construção de creches caem fortemente, ano a ano, desde 2019.
O MEC terminou 2021 com R$ 101 milhões pagos para obras de creches em prefeituras. Trata-se de uma redução de 80% com relação a 2018, quando a cifra foi de R$ 495 milhões, em valores atualizados a preços de 2021.
No Orçamento de 2023, a previsão é da retirada de R$ 1 bilhão da educação básica. O cenário negativo para a educação infantil se intensifica: os recursos previstos para a etapa caem 96% com relação ao projeto deste ano. Passa de R$ 151 milhões para apenas R$ 5 milhões, como ressalta análise do Movimento Todos Pela Educação.
