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Neto não é o único que busca ser de todo mundo e ao mesmo tempo de ninguém, por Raul Monteiro*

Neto não é o único que busca ser de todo mundo e ao mesmo tempo de ninguém, por Raul Monteiro*

Por Política Livre

26/05/2022 às 08:43

Foto: Divulgação/Arquivo

Candidato a governador ACM Neto (UB)

Apontada por adversários como aquele que seria seu ponto mais fraco, a decisão de ACM Neto de rejeitar a nacionalização da campanha ao governo da Bahia, evitando alinhar-se a qualquer dos candidatos à Presidência da República, está longe de ser uma exclusividade sua. Em vários Estados, governadores e candidatos aos governos, alguns igualmente do União Brasil e tão favoritos como o baiano, segundo as pesquisas, têm adotado a mesma estratégia de afastar-se ao máximo das disputas presidenciais como forma de maximizar a captação de votos para a sua própria eleição.

A tentativa dos postulantes de descasar as campanhas estadual e nacional obedece a uma nova lógica dos votantes num cenário de acirramento da polarização que altera a tradição de as disputas presidenciais puxarem as regionais, possibilitando a combinação de votos distintos para as duas eleições. Na tarefa de se desvencilhar da rejeição do presidente Jair Bolsonaro (PL) e atrair os votos de eleitores lulistas ou daqueles de outros candidatos presidenciais, se encontram até governadores de centro-direita que disputarão a reeleição em outubro.

É a situação, por exemplo, de Mauro Mendes, do Mato Grosso do Sul, e de Ronaldo Caiado, de Goiás, ambos, aliás, do mesmo partido de Neto. Mas os casos mais gritantes em que a desvinculação de Bolsonaro é perseguida deslavadamente ocorrem em redutos de dois dos principais pilares do governo, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, do PP, e o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Nas Alagoas de Lira, o senador Rodrigo Cunha está decidido a concorrer à sucessão estadual pedindo votos para uma terceira via que ainda não se apresentou.

No Piauí, Sílvio Mendes, candidato a governador do ministro mais poderoso do governo federal, já adotou a mesma postura, estimulada, aliás, pelo próprio padrinho político. No ato de lançamento de seu nome ao governo, Ciro preferiu citar o ex-presidente democrata norte-americano Barack Obama a fazer qualquer referência ao 'leproso' Bolsonaro. Um detalhe: tanto Cunha quanto Mendes foram filiados ao União Brasil pelos seus respectivos apoiadores poderosos como forma, preventivamente, de ficarem livres de vinculação a qualquer dos candidatos presidenciais postos.

Fazem assim por desamor ao projeto bolsonarista? Exclusivamente por cálculo eleitoral, ao identificarem o alto índice de rejeição que Bolsonaro enfrenta entre os eleitores de suas respectivas regiões. Justificativas elaboradas para a estratégia não faltam. Numa descolada entrevista que deu ontem ao UOL, Neto, por exemplo, se referiu ao fato de ter partidos em sua base que apóiam nacionalmente Bolsonaro, Lula (PT) e o candidato do PDT, Ciro Gomes, como um impeditivo para que se vincule a qualquer um deles, coroando a tese com uma frase lapidar: - meu padrinho político é o povo!

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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