Operação contra Márcio França atravessa campanha em SP e aliança Lula-Alckmin
Por Joelmir Tavares/Folhapress
05/01/2022 às 19:15
Atualizado em 05/01/2022 às 21:21
Foto: Folhapress

A operação contra o ex-governador de São Paulo Márcio França (PSB) nesta quarta-feira (5) atinge os planos dele de voltar ao Governo de São Paulo e pode ter reflexos na composição da chapa presidencial Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (sem partido), embora o alcance ainda seja incerto.
Aliados e adversários políticos de França concordam sobre o potencial de estrago que uma investigação em ano eleitoral pode ter para o pré-candidato, mas dizem ser necessário esperar os desdobramentos das apurações para saber se o caso se tornará ou não um escândalo relevante.
O pré-candidato do PSB ao Palácio dos Bandeirantes politizou a operação, responsabilizando indiretamente a gestão de seu arquirrival João Doria (PSDB) ao falar em "operação política e não policial" em sua primeira manifestação após os mandados de judiciais de busca e apreensão.
Sem mencionar Doria ou o PSDB, França afirmou se tratar de uma iniciativa "de cunho político-eleitoral". Ele negou envolvimento com as denúncias, em uma rede social, e disse que "é lamentável que se comece uma eleição para o Governo de SP com estas cenas de abuso de poder político".
Além de ser peça importante no xadrez do pleito estadual —ele chega ao segundo lugar no Datafolha (com 19%) em cenário sem Alckmin, com Fernando Haddad (PT) em primeiro (28%)—, França é o maior avalista da dobradinha de Lula com o ex-tucano, quadro que ele tenta atrair para o PSB.
Líderes partidários, parlamentares e assessores que falaram com a reportagem sob condição de anonimato dizem que a situação cria um constrangimento inevitável e passível de ser explorado na guerra eleitoral, mas acreditam que França só será inviabilizado ou ficará isolado se algo grave se comprovar.
Colegas de PSB e de outras legendas da esquerda se solidarizaram com o ex-governador. A posição de Lula, divulgada em uma rede social no fim da manhã, foi entendida como uma sinalização de que a interlocução do PT com França segue inabalada, a despeito de discordâncias pontuais.
Segundo um interlocutor de Alckmin, a operação contra o aliado não influirá por ora nas negociações sobre eventual união com Lula. O diálogo com o PSB para eventual filiação prosseguirá. A posição é de cautela quanto a pré-julgamentos e de desconfiança sobre supostos interesses ocultos.
Recém-saído do PSDB, Alckmin foi a público nesta quarta reiterar sua confiança na reputação e na postura de seu ex-vice, a quem se referiu como amigo e colega. "Seu espírito público e sua dedicação nesses anos todos são notórios e louváveis", afirmou, ao prestar solidariedade.
Os dois estiveram juntos à frente do estado entre 2015 e o início de 2018, quando o então tucano renunciou ao Bandeirantes para concorrer ao Planalto, deixando a cadeira para o companheiro, que governou por nove meses.
Ao defender França, Lula evocou o princípio constitucional da presunção de inocência. "Que se investigue tudo, mas com direito de defesa e sem espetáculos midiáticos desnecessários contra adversários políticos em anos eleitorais", escreveu, endossando o discurso de viés político.
França protagoniza uma queda de braço velada com os petistas no plano estadual, já que espera que a sigla abra mão da pré-candidatura de Haddad em troca do apoio do PSB nacional a Lula —no cenário desejado, com Alckmin filiado ao PSB e ocupando a posição de vice.
Alas do PT, no entanto, descartam a retirada do nome do ex-prefeito, sob as justificativas de que ele está pontuando bem nas pesquisas, com chance de ao menos estar no segundo turno, e que o partido não pode prescindir de palanque próprio para Lula no principal estado do país.
Da mesma forma, articuladores petistas insistem para que o PSB demova França da ideia de tentar novamente o governo, aceitando outras posições na costura entre as siglas, como uma candidatura ao Senado. Um entendimento, hoje, parece difícil, conforme relatos de parte a parte.
A persistir o impasse, é provável que ambos os partidos mantenham seus projetos, tendo ainda a concorrência na esquerda com o ex-presidenciável Guilherme Boulos (PSOL), que também reluta em desistir da competição, embora a aliança da sigla com Lula seja o caminho mais provável.
Haddad também emitiu uma mensagem de solidariedade a França. "Nada contra investigar políticos, muito pelo contrário. O problema é o espetáculo extemporâneo. Não devemos abdicar do princípio da presunção da inocência", afirmou, em uma conta de rede social.
O ex-prefeito disse ainda que "reputação é obra de uma vida" e que espera "que tudo se esclareça o quanto antes". Outros líderes de esquerda associaram a operação ao fenômeno do lava-jatismo. A interpretação é que a operação provocou dano de imagem irreparável sem apresentar provas robustas.
O ex-deputado federal do PT Wadih Damous (RJ) disse em uma rede que "o padrão lava-jatista criou uma cultura de procedimentos arbitrários por parte do sistema de Justiça em geral". O deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou estranhar que a operação seja detonada em pleno ano eleitoral.
O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, afirmou ver "caráter político e abusivo" e disse que a legenda tem "plena confiança na conduta do ex-governador".
"O partido condena fortemente o uso político de operações policiais e acusações infundadas contra uma liderança política de mais de 40 anos de ilibada vida pública e importantes serviços prestados à população de São Paulo como o companheiro Márcio França", disse o dirigente.
O risco de enfraquecimento político é admitido também pelo entorno de França, que, no entanto, considerou os danos relativamente limitados. A série de declarações de apoio recebidas ao longo do dia foi bem recebida, embora a exposição negativa na mídia tenha sido também considerável.
Apesar das manifestações solidárias, o PT seria virtualmente beneficiado com a exclusão do ex-governador da corrida, no caso hipotético de as investigações desidratarem a pré-candidatura do PSB. Não há sinais, contudo, de uma torcida para que o adversário se retire por tais vias.
De modo semelhante, a atuação de França para sacramentar a conjunção Lula-Alckmin tira do páreo no estado o atual líder das pesquisas para o Bandeirantes, o que, em tese, facilitaria seu retorno ao posto.
O campo governista, que terá como postulante o atual vice-governador, Rodrigo Garcia (PSDB), adotou o silêncio nesta quarta. Doria evitou abordar o caso envolvendo França, e tanto o governo quanto o diretório paulista do PSDB, questionados pela reportagem sobre o episódio, preferiram não comentar.
Caso efetivamente vá para a disputa local em outubro, França deverá repetir a estratégia de vincular Garcia a Doria, assim como fez com Bruno Covas (PSDB) no pleito de 2020 em São Paulo. Com isso, ele miraria o apadrinhado de Doria para reforçar sua posição de antípoda do atual governador.
Antonio Neto (PDT), que foi vice de França na eleição municipal, saiu em sua defesa e endossou a narrativa de ação direcionada. "No Brasil de BolsoDoria, o uso político das instituições e da polícia virou instrumento de perseguição e intimidação visando à destruição de reputações de pessoas honradas".
Também próximo do ex-governador, o presidenciável Ciro Gomes (PDT), que no mês passado classificou como política uma operação da Polícia Federal contra ele no Ceará, afirmou: "Vivemos tempos estranhos neste país, quando o jogo dos interesses políticos atropela normas e códigos".
Uma das análises que correram o meio político é a de que a eventual instrumentalização do governo contra França teria por objetivo atingir indiretamente Alckmin, que se tornou desafeto de Doria. Faltam, entretanto, evidências que sustentem essa teoria.
A Secretaria da Segurança Pública, à qual a Polícia Civil está vinculada, não respondeu sobre as afirmações do ex-governador de que a operação teria sido política e esconderia interesses eleitorais.
Na nota em que se defendeu das suspeitas, França reafirmou a intenção de disputar o Bandeirantes em outubro. "Só deixarei de ser governador de SP se o povo paulista não quiser", afirmou, acrescentando não ter "medo de ameaças ou de chantagem".
Nos cenários testados pelo Datafolha em dezembro, além do principal, que mostra o pré-candidato do PSB em segundo lugar, atrás somente de Haddad, há um outro em que França ocupa a terceira colocação (com 13%), precedido por Alckmin (28%) e Haddad (19%).
A presença de Alckmin no embate, porém, parece cada vez menos provável, em razão das sinalizações positivas a respeito da conformação de sua aliança com Lula para o Planalto. O ex-presidente lidera as intenções de voto, com 48%, ante 22% do presidente Jair Bolsonaro (PL).
