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'Faremos uma oposição a favor da cidade', diz novo líder oposicionista na Câmara de Salvador
'Faremos uma oposição a favor da cidade', diz novo líder oposicionista na Câmara de Salvador
Por Davi Lemos
03/01/2022 às 10:04
Atualizado em 03/01/2022 às 11:16
Foto: Reginaldo Ipê / CMS / Arquivo

O vereador Augusto Vasconcelos (PCdoB) assume a partir do dia 7 de janeiro a liderança oposicionista na Câmara Municipal de Salvador e prevê que o seu bloco continuará fazendo uma oposição à gestão do prefeito Bruno Reis (DEM) a favor da cidade. "Faremos uma oposição a favor da cidade, votando os projetos que consideremos relevantes para a população, independente de quem seja a autoria, mas também nos posicionando criticamente sobre os assuntos que prejudiquem a sociedade", diz Vasconcelos nesta entrevista ao Política Livre.
O comunista, que tem mais de 20 anos nos movimentos sociais e sindicais, está em seu primeiro mandato eletivo e é pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB, legenda que discute com PT, PSB, PSOL e Rede a formação de uma federação partidária para a disputa das eleições de 2022. "A aprovação da federação é um ganho democrático, pois considero importante que os partidos se agrupem em torno de pautas e por programas mais permanentes", considera o vereador soteropolitano.
Augusto Vasconcelos defende ainda a renovação dos nomes na esquerda baiana, embora considere que o senador Jaques Wagner (PT), em dobradinha com o ex-presidente Lula, seja o favorito para vencer as eleições de outubro ao governo baiano. "A esquerda tem as ideias mais avançadas para a sociedade em termos de justiça social, defesa do emprego e da democracia, mas considero que é importante também construir um processo de renovação no nosso campo", declarou.
Confira abaixo a entrevista:
Política Livre - O senhor vai assumir a partir de janeiro a liderança da oposição na Câmara. Como o senhor espera cumprir essa essa missão, tendo em vista que também será ano eleitoral?
Augusto Vasconcelos - Assumir a liderança da oposição na Câmara Municipal é uma honra e um desafio muito grande, sobretudo porque nós temos uma bancada muito qualificada apesar de numericamente pequena. São oito vereadores e vereadoras que têm grandes contribuições na cidade e fiquei muito honrado com essa possibilidade de liderar a bancada a partir de janeiro, substituindo a nossa grande líder Marta Rodrigues, que cumpriu um excelente papel à frente da oposição nesse último ano. Nós faremos uma oposição a favor da cidade, votando os projetos que consideremos relevantes para a população, independente de quem seja a autoria, mas também nos posicionando criticamente sobre os assuntos que prejudiquem a sociedade. Foi assim que fizemos ao longo desse ano: nossa bancada apresentou diversas proposições legislativas, vários projetos, temos um conjunto de iniciativas apresentadas por todos os parlamentares da oposição e vamos seguir batalhando pela aprovação desses projetos e também discutindo e tratando as propostas que são oriundas do executivo e dos demais vereadores. Sempre com o clima de respeito e manutenção do diálogo, que é importante preservar.
A oposição tem sido realmente respeitada pelos vereadores da maioria e também pelo presidente da Casa, o Geraldo Júnior. Mas foi observado em 2021 uma repetição do que vem ocorrendo em legislaturas anteriores, quando a oposição não consegue alterar os projetos que são vistos como fundamentais para o executivo. O senhor acha isso pode ser modificado de alguma forma?
Nós vamos fazer o maior esforço possível pra que os projetos que tragam prejuízos para a população sejam alterados. Lutamos intensamente por mudanças em diversos projetos, mas, em razão de uma maioria considerável que detém a Prefeitura na Câmara Municipal, acaba se tornando bem difícil. Mesmo assim, nós conseguimos emplacar medidas importantes ao longo desse ano. Posso citar as emendas que nós apresentamos na Lei de Diretrizes Orçamentárias que ampliaram os investimentos em esporte e cultura. Também tivemos o papel protagonista no Plano Municipal de Cultura, ajudamos na aprovação de diversos projetos, inclusive oriundos do executivo e relacionados a pandemia; aceleramos o processo de inclusão de Salvador no consórcio nacional de vacinas: fomos a primeira capital do país, a Câmara Municipal aprovou em tempo recorde. Então a oposição contribuiu muito ao longo desse ano pra aprovar projetos importantes como o SOS Cultura, entre outros.
Em anos eleitorais, as casas legislativas têm os "recessos brancos". Embora seja um pleito nacional e estadual, o senhor acha que isso pode interferir nos trabalhos da Câmara?
A Câmara de Salvador tem um alto grau de produtividade, inclusive em comparação com outras casas legislativas do país e estamos entre as que mais apresentam projetos e debatem proposições, uma das que mais realizaram sessões legislativas ao longo desse ano. A gente tem a esperança de que, no próximo ano, esse ritmo possa continuar. Que a gente possa ter uma Câmara atuante de maneira permanente. Claro que as eleições são importantes para toda a população, pois é um momento em que a sociedade vai ter a oportunidade de escolher seus representantes nas esferas estadual e federal. Mas, no âmbito municipal, não tem eleição. Então a gente acredita que a Câmara Municipal vai ter, sim, um esforço grande e concentrado em alguns momentos, sobretudo num período mais próximo ali das eleições. É natural, isso acontece em todas as casas legislativas do mundo, é natural que haja uma certa flexibilização em termos de sessões deliberativas, mas nada que possa atrapalhar o andamento dos trabalhos. Nós acreditamos que a Câmara de Salvador vai continuar sendo uma das mais produtivas do Brasil.
O senhor está no seu primeiro mandato como vereador, mas tem já uma atuação de pelo menos 20 anos em movimentos sociais e sindicais é também professor universitário. Como está sendo essa transição dos movimentos sindicais e sociais para a atuação legislativa?
No parlamento, nós temos levado a voz da classe trabalhadora, defendendo as pautas e as causas que nos trouxeram até aqui. Eu fui eleito com apoio significativo do movimento sindical e de outros movimentos populares como o movimento estudantil, o ambientalista, dentre outras causas como por exemplo a pauta do esporte; e nós temos nitidez de que estes movimentos precisam apresentar as suas ideias também no espaço do parlamento. Eu vou continuar na luta popular independente do parlamento. Faço isso desde os meus 16 anos: são 24 de atuação ininterrupta nos movimentos populares aqui da cidade. Tive a oportunidade de ter sido da União Nacional dos Estudantes e depois atuei no movimento sindical a partir do Sindicato dos Bancários e também da nossa central sindical que é a CDB. Eu acredito que essa experiência que adquiri ao longo do tempo ajuda a nossa atuação no parlamento, mas é evidente que a gente vai tirando lições e aprendendo com os parlamentares mais experientes. Nosso mandato foi um mandato de muita transpiração, trabalhamos muito de domingo a domingo, acompanhando o dia a dia das comunidades, mas também tendo uma forte atuação no ambiente legislativo, cobrando compromissos do Executivo e mantendo essa ligação com os movimentos populares.
O partido do senhor, o PCdoB, está em uma discussão sobre a formação de uma federação partidária com o PT, PSB, o PV. Fala-se ainda do PSOL. Como o senhor enxerga esse processo? O senhor acha que é mais vantajoso para o PCdoB sair em uma federação que lançar sua chapa própria? Como que o senhor vê essa caminho que os partidos estão tomando?
A aprovação da federação é um ganho democrático, pois considero importante que os partidos se agrupem em torno de pautas e por programas mais permanentes. A federação substitui a antiga coligação, que tinha caráter transitório e temporário voltado apenas para uma eleição. Já a federação exige que você compartilhe também uma atuação parlamentar ou, de no mínimo quatro anos, em todas as esferas municipal, estadual e federal. Isso vai exigir compromisso em torno de programas e de ideias, não apenas um compromisso meramente eleitoral: a federação é boa para o Brasil. Eu acredito que países que adotam esse sistema de federação tiveram grandes ganhos democráticos porque permite agrupar partidos que possuem ideias próximas. Não necessariamente nós vamos concordar com tudo que for definido pelos partidos que compõem a federação, mas estarmos em uma federação sobretudo no campo de esquerda tem por objetivo reforçar o sistema democrático no país e fazer a defesa de direitos sociais. Acreditamos muito que é necessário uma frente ampla pra derrotar o governo Bolsonaro, numa frente que reúna não só a esquerda, mas amplos setores da população pra que nós possamos substituir esse governo, que é um governo de total desequilíbrio, de falta de condições de governabilidade, que nos levou à fome, ao desemprego e à inflação. Eu avalio de maneira muito positiva essa ideia da federação. A gente ainda não definiu com quais partidos vamos federar, mas consideramos que esses partidos citados são os que temos maior afinidade ideológica com alguma divergência ali, outra aqui, mas é importante pontuar que tem muitos pontos de convergência entre o PT, o PCdoB, o PSB, o PSOL, a Rede. Isso deve desenrolar até março.
Hoje a oposição ao governo estadual fala de uma "fadiga de material" da esquerda na Bahia. Que isso seria uma vantagem para o grupo do ACM Neto ou qualquer quaisquer outros que estejam na oposição ao candidato Jaques Wagner ou ao grupo de Rui Costa. O senhor enxerga essa fadiga?
A esquerda tem as ideias mais avançadas para a sociedade em termos de justiça social, defesa do emprego e da democracia, mas considero que é importante também construir um processo de renovação no nosso campo. Avalio que a direita fez isso seja colocando os filhos e netos ou uma outra geração assumindo pautas mais conservadoras, mas vejo que são pautas que não representam esse esforço de renovação da política. Então eu considero que Jaques Wagner é o mais preparado pra assumir o governo do estado, mas considero também que nós precisamos plantar uma semente de renovação da esquerda no estado. O PCdoB inclusive identifica isso e está apontando a necessidade de se constituir novas lideranças e por isso, inclusive, me deu o desafio de construir uma pré-candidatura a deputado federal no próximo ano, com esse objetivo de plantar uma semente de renovação pela esquerda, mas eu avalio que, independente disso, Jaques Wagner é favorito, vai ganhar as eleições. Estou muito confiante de que, com essa dobradinha sobretudo com o presidente Lula, a gente possa ajudar a transformar a Bahia e melhorar os indicadores sociais, econômicos do Estado. Não vai ser nada fácil evidentemente, mas considero que este grupo político que ajudou a transformar o Estado tem muita força na capital e do interior e vai sair vitorioso nas eleições.
O senhor já começou a trabalhar sua candidatura a deputado federal?
É uma pré-candidatura. As candidaturas mesmo só vão ser confirmadas nas convenções dos partidos e federações. A nossa pré-candidatura tem de maneira natural circulado bastante pelo interior, reforçado pelo apoio de lideranças e já nasce com uma certa base sólida, oriunda do movimento sindical e popular. Com vários segmentos dos movimentos sociais. Eu não estou na política por profissão, eu tenho minha vida e encaro a política como uma tarefa e eu aceitei esse desafio colocado pelo coletivo de plantar uma semente de renovação dentro do Congresso Nacional. A gente está acostumado aqui na Bahia a ver a renovação a partir dos filhos e netos. Está na hora de colocar os filhos do povo, os filhos da classe trabalhadora. Eu não tenho o sobrenome importante, nem nenhum parente na política. Acredito que, sobretudo após essas reformas que detonaram a classe trabalhadora, muita gente percebeu a importância de eleger deputados federais comprometidos com as nossas pautas. Tenho recebido apoios espontâneos de muitas pessoas e a gente acredita que temos chance aí de surpreender.
Falando agora do assunto que tomou a última semana, como o senhor está vendo a atuação das esferas governamentais na atenção aos municípios e às vítimas da chuvas que atingiram o sul baiano? Tem sido muito criticada a atuação do Governo Federal, principalmente do presidente Jair Bolsonaro.
Em momentos de tragédia, a gente precisa de união. Acredito que todos os esforços em âmbito federal, estadual e municipais devem convergir para ajudar as famílias, vítimas dessa tragédia. É lamentável a postura adotada pelo presidente da República, nos causa inclusive repugnância pela forma insensata e de falta de sensibilidade humana - eu diria que não é nem questão política, mas humanitária - a falta de empatia demonstrada por ele em relação a este episódio. Eu acredito que a gente não deve politizar a tragédia e não quero nem ficar aqui fazendo disso palanque eleitoral, mas é importante que a gente faça essa reflexão de que o presidente da República, como chefe da nação, passa mensagens para toda a sociedade quando desdenha de uma tragédia como essa ou não dá a devida importância e não vai lá acompanhar de perto, não faz um esforço necessário pra que haja reconstrução como por exemplo agora com esse envio de recursos pra reconstrução das estradas. O próprio governador Rui Costa disse que são recursos insuficientes. Eu acredito que é necessário uma união geral, independente de questão política, é uma questão humanitária e é importante que todo mundo possa ajudar.
