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'Faltam, hoje, ao presidente, condições para um autogolpe, o que faz o ambiente político ter ficado, ao final de 2021, menos tenso', diz cientista político

'Faltam, hoje, ao presidente, condições para um autogolpe, o que faz o ambiente político ter ficado, ao final de 2021, menos tenso', diz cientista político

Por Guilherme Reis

02/01/2022 às 17:30

Foto: Divulgação

Paulo Fábio Dantas Neto

Para o cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas, o ano de 2021 gozou de mais tranquilidade no cenário político, devido, principalmente, à falta de condições de o presidente Jair Bolsonaro (PL) dar um "autogolpe". Por outro lado, ele alerta para uma atual dispersão de forças que pode ser perigosa para a estabilidade política.

"O fato do ano de 2021 ter terminado com o presidente Bolsonaro na defensiva após a derrota que sua estratégia golpista sofreu em setembro não pode iludir quanto a duas coisas. Primeiro que se viveu durante parte do ano uma situação de alto risco para as instituições democráticas. Segundo que a reversão desse perigo a partir de setembro não garante que não haverá nova tentativa golpista. Por um lado, faltam, hoje, ao presidente, condições para um autogolpe, o que faz o ambiente político ter ficado, ao final de 2021, menos tenso do que esteve durante boa parte de 2020. Por outro lado, a descoordenação política é tal que são mais escassas as opções de articulação de saída político-eleitoral unitária, que aponte à efetiva e sustentável solução da crise em que o país está há pelo menos sete anos. O prolongamento dessa crise, com agravamento da situação dos mais pobres, manipulado pela extrema-direita, é agora o maior risco corrido pela democracia brasileira", avalia.

Dantas Neto compara 2021 a 2017, quando houve uma dispersão que favoreceu a eleição de Bolsonaro: "Os movimentos da política têm sido insuficientes para conjurar esse risco de ruptura do tecido social e às vezes ocorrem na contramão dessa necessidade. O ambiente político está mais gasoso. O ano de 2021 pareceu-se com o de 2017, quando se verificou a dispersão que permitiu a eleição de um ator político aleatório, como Jair Bolsonaro, assim como de grande número de parlamentares montado no discurso e nos métodos da antipolítica. Em certo sentido há reversão do clima de entendimento político que avançara, entre a maioria das forças antibolsonaristas, durante a campanha municipal de 2020 influindo sobre seus resultados. A atual reversão tem a ver com a mudança negativa na conduta do Legislativo, principalmente a Câmara, em relação ao Executivo, oscilando entre conivência e demagogia. O Senado, apesar de, no geral, ter atitude governativamente mais responsável, também não se vacinou contra a demagogia, como mostrou a perda de foco em que várias vezes a CPI da pandemia incorreu".

E acrescenta: "A dispersão de forças é uma perigosa tendência, potencializada também pela busca de adaptação de partidos políticos a novas regras de competição (cláusulas de barreira mais rígidas e impedimento de coligações em eleições proporcionais) fixadas na reforma eleitoral de 2017. Esta apontou em sentido positivo, mas até por isso suscita, no meio político, tentativas de conservação do status quo que sacrificam uma articulação política positiva, em prol de um salve-se-quem-puder".

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