/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Sob a vigília de Bolsonaro, desfile militar em dia do voto impresso dura 10 minutos e tem gritos por intervenção

Sob a vigília de Bolsonaro, desfile militar em dia do voto impresso dura 10 minutos e tem gritos por intervenção

Por Ricardo Della Coletta/Folhapress

10/08/2021 às 12:44

Foto: Wallace Martins/Futura Press/Folhapress

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estão na frente do Palácio do Planalto, em Brasília (DF), nesta terça-feira (10)

O desfile desta terça-feira (10) em frente ao Palácio do Planalto reuniu pela manhã cerca de 40 veículos militares, todos da Marinha, entre blindados, tanques, caminhões e jipes.

A parada militar, realizada no dia da votação da PEC do voto impresso na Câmara dos Deputados e criticada como mais uma tentativa de politização das Forças Armadas, começou por volta de 8h30.

Nesse horário, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já estava na rampa do Palácio do Planalto, acompanhado dos comandantes das três Forças: Paulo Sérgio (Exército), Almir Garnier (Marinha) e Carlos de Almeida Baptista (Aeronáutica).

Também estavam diversos ministros, entre eles Walter Braga Netto (Defesa), Ciro Nogueira (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral) e Anderson Torres (Justiça).

Entre os parlamentares, estavam o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, e o deputado Evair de Melo (PP-ES). O ministro do TST (Tribunal Superior do Trabalho), Ives Gandra da Silva Martins Filho, também compareceu.

Depois do Planalto, o comboio militar seguiu em direção à Esplanada dos Ministérios, um trajeto em que passaram ao lado do edifício do Congresso Nacional.

No início do desfile, que durou aproximadamente 10 minutos, um militar em traje de combate desceu de um dos jipes, subiu a rampa e entregou a Bolsonaro um convite para comparecer a exercício militar da Marinha programado para agosto. A abertura está prevista para a próxima segunda-feira (16).

Pré-candidatos à Presidência criticaram o uso dos militares por Bolsonaro. "Isso que aconteceu hoje [desfile] foi uma coisa patética. Se o Bolsonaro queria uma foto com militar era só ter visitado um quartel", afirmou o ex-presidente Lula (PT).

Para o governador João Doria (PSDB), o "inédito e desnecessário desfile de tanques de guerra na Praça dos Três Poderes é uma clara ameaça à democracia". "E tem o repúdio dos brasileiros de bem. A iniciativa é mais um flerte com o autoritarismo. O Brasil quer democracia, respeito à constituição e liberdade."

Já o ex-governador Ciro Gomes (PDT) afirmou em entrevista a Pedro Bial, da TV Globo, que Bolsonaro subornou a cúpula militar, que estaria "perigosamente sendo transformada em um partido político miliciano". "Esse problema é o que temos que enfrentar agora", disse.

A chamada Operação Formosa ocorre anualmente desde 1988, mas, de acordo com o Ministério da Defesa, é a primeira vez que o convite ao presidente da República ocorre durante uma parada militar.

Durante a passagem dos veículos, um grupo de dezenas apoiadores de Bolsonaro se reuniu na Praça dos Três Poderes e entoou gritos em defesa da intervenção militar. Eles gritaram "Eu Autorizo" e "142", em referência a dispositivo constitucional que bolsonaristas dizem justificar uma eventual intervenção fardada.

Um dia antes, em meio à polêmica causada pelo desfile de blindados, Bolsonaro postou em suas redes sociais um convite para que autoridades de Brasília, como os presidentes das Casas Legislativas e do Judiciário, recebessem também os veículos militares. Os chefes dos demais Poderes, no entanto, não compareceram.

O desfile dos veículos provocou reação por ocorrer em um momento de tensão institucional, além de ser a data prevista para que a Câmara dos Deputados vote a PEC (proposta de emenda à Constituição) do voto impresso. O presidente já assume a possibilidade de derrota.

Mesmo aliados do presidente reagiram ao evento militar. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que se trata de uma "coincidência trágica" que o desfile dos blindados aconteça no mesmo dia previsto para a votação da PEC.

Após a passagem por Brasília, os veículos militares seguem para Formosa, onde será realizado um grande exercício militar, com a presença de membros não apenas da Marinha como também do Exército e da Aeronáutica.

Embora seja um exercício de adestramento tradicional da Marinha, essa seria a primeira vez que os blindados entrariam em Brasília. Além disso, eles passaram pela Praça dos Três Poderes, em um momento de grande tensão entre os poderes, em particular entre o Executivo e o Judiciário.

LÍDER DO GOVERNO MANIFESTA PREOCUPAÇÃO E EXALTA DEMOCRACIA

No dia em que blindados militares desfilaram na Esplanada dos Ministérios, o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), afirmou que "aposta na democracia" e quer "compartilhar as preocupações que todos aqui [senadores] reverberaram".

A fala de Bezerra, na sessão da CPI da Covid, aconteceu após vários senadores condenarem o desfile de blindados da Marinha, associando como uma ameaça à democracia.

Bezerra abriu sua fala abordando avanços do governo Bolsonaro na vacinação contra a Covid-19. Em seguida, disse que essas informações "positivas" colocam parlamentares em lados opostos. Mas reforçou que ele é um membro do Congresso e que compartilha as preocupações, embora ressalte que há excessos nas análises dos senadores que condenam o evento militar.

"Essas são as opções [ações do governo] que aqui a gente diverge, estamos em trincheiras distintas. Mas nós somos do parlamento brasileiro. Eu tenho uma história nesse Congresso Nacional, eu sou subscritor da Constituinte Cidadã", disse.

"Eu aposto na democracia, eu aposto no estado de direito democrático. Por isso é evidente que eu quero compartilhar as preocupações que todos aqui reverberaram, apenas, digamos assim, querendo retirar os excessos das falas que foram feitas".

O presidente da CPI, Omar Aziz, abriu a sessão criticando Bolsonaro e o desfile de blindados. Segundo ele, a democracia precisa ser respeitada e é inegociável.

Segundo Aziz, Bolsonaro não tem o direito de usar a máquina pública para ameaçar a própria democracia que o elegeu. Ele avalia que em dois anos e meio, o presidente colocou o país numa situação vexatória, degradou as instituições e rebaixou as Forças Armadas.

"O papel das Forças Armadas é defender a democracia, não ameaçá-la. Desfiles como esse serviram para mostrar força para conter inimigos externos que ameaçassem nossa soberania, o que não é o caso."

"As Forças Armadas jamais podem ser usadas para intimidar sua população, sem adversários, atacar a oposição legitimamente constituída. Não há nenhuma previsão constitucional para isso."

Aziz também disse que o desfile é uma cena "patética" e que não representa uma demonstração de força e sim uma "ameaça de um fraco que sabe que perdeu", afirmou, em referência à perspectiva de derrota da PEC do voto impresso na Câmara dos Deputados.

Outros membros da comissão, como Humberto Costa (PT-PE), Eduardo Braga (MDB-AM) e Otto Alencar (PSD-BA), também se manifestaram contra o desfile dos blindados.

Colaboraram Raquel Lopes e Renato Machado

ENTENDA A PEC DO VOTO IMPRESSO

O que é

Estabelece a impressão do voto dado pelo eleitor na urna eletrônica. O projeto obriga a expedição de cédulas físicas conferíveis pelo eleitor, que seriam depositadas em uma urna, de forma automática e sem contato manual

Tramitação

Na Câmara, depende da aprovação de ao menos 308 dos 513 deputados, em votação em dois turnos. Depois, segue para o Senado, onde precisa do aval de pelo menos 49 dos 81 parlamentares, também em dois turnos. Se aprovada nas duas Casas, a PEC é promulgada, sem necessidade de sanção presidencial

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.