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Senadores bancam Aziz após prisão na CPI, enquanto Planalto espera que grupo majoritário perca força
Senadores bancam Aziz após prisão na CPI, enquanto Planalto espera que grupo majoritário perca força
Por Folhapress
09/07/2021 às 07:02
Atualizado em 09/07/2021 às 10:46
Foto: Dida Sampaio/Arquivo/Estadão

Auxiliares do presidente Jair Bolsonaro dizem ter considerado uma arbitrariedade a prisão do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias durante depoimento na CPI da Covid e esperam haver um enfraquecimento do grupo de oposicionistas e independentes que hoje controla a comissão.
Os membros do colegiado, por sua vez, reconhecem que houve um certo mal-estar, mas buscaram mostrar nesta quinta-feira (8) unidade, apoiando publicamente o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).
Logo após a prisão de Dias, exonerado do cargo na semana passada após denúncia de pedido de propina revelada pela Folha, integrantes do Planalto afirmaram que o ato foi desmedido e acusaram Aziz de abusar de suas prerrogativas.
Na audiência, Aziz afirmou que o depoente mentiu em diversos pontos de sua fala e por isso determinou que a Polícia Legislativa recolhesse o ex-diretor.
"Ele está mentindo desde a manhã, dei chance para ele o tempo todo. Pedi por favor, pedi várias vezes. E tem coisas que não dá para… Os áudios que nós temos do [Luiz Paulo] Dominghetti [vendedor de vacinas] são claros", afirmou Aziz. "Ele vai estar detido agora pelo Brasil, pelas vítimas que morreram."
Ao justificar a ordem de prisão, Aziz citou áudios revelados pela CNN Brasil que contradizem a versão do ex-diretor sobre o encontro com Dominghetti, representante da empresa Davati Medical Supply.
Dominghetti disse à Folha que o então diretor de Logística da Saúde cobrou propina de US$ 1 por dose em um jantar em um restaurante de Brasília, em 25 de fevereiro deste ano. A negociação envolveria 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca contra a Covid.
Apresentados na CPI, os áudios são de 23 de fevereiro, dois dias antes do jantar. Neles, Dominghetti afirma a um interlocutor que "a compra vai acontecer", o processo está "na fase burocrática" e Dias irá assinar. Ele ainda afirma que faria reunião no dia 25 —data do jantar—, para "finalizar com o ministério".
Após a prisão, ministros de Bolsonaro reconheceram reservadamente que outros depoentes também entraram em contradição na CPI, mas não foram presos. Por isso, o espanto com a decisão de Aziz.
No entanto, eles comemoraram o fato de a prisão não ter recebido o respaldo de todos os senadores do chamado G6 —grupo de seis senadores independentes e da oposição. A comissão é formada por 11 titulares.
A torcida no Planalto é para que a divisão marque um racha no grupo. A expectativa deles é que a ala majoritária da CPI perca força e enfrente novas dificuldades de coordenação, beneficiando o governo.
Do lado da CPI, porém, o dia seguinte à prisão foi marcado pelo apoio a Aziz, ao menos publicamente. Senadores reconhecem que houve um mal-estar a respeito da prisão, pois o presidente teria tomado a decisão unilateralmente, sem articular com seus aliados na CPI.
Também consideram que não era o momento, principalmente após a recusa de Aziz em determinar a prisão de depoentes anteriores, como o ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten e o policial militar Dominghetti.
Um integrante do grupo majoritário reconhece que houve mal-estar, mas afirma que não houve discórdia profunda ao ponto de rachar o grupo. Lembra que a negativa de prender Wajngarten também havia provocado divisão momentânea, mas que isso foi rapidamente contornado.
Esse mesmo senador afirma que o grupo também vem obtendo sucesso ao contornar uma outra questão delicada, a respeito da política do estado do Amazonas. Aziz foi cobrado por perseguir adversários estaduais, com requerimentos de quebra de sigilo.
A iniciativa vem causando incômodo principalmente por afetar aliados de Eduardo Braga (MDB-AM), também membro da CPI e que se afastou recentemente do grupo majoritário. Até o momento, afirma esse senador, nada disso rompeu a unidade
Alessandro Vieira (Cidadania-SE), peça importante do grupo, chegou a criticar a prisão de Dias quando ela foi determinada. "A gente não colocou um general [Eduardo Pazuello] que estava mentindo na cadeia, a gente não colocou um [Fabio] Wajngarten", disse.
O senador afirma que a divergência naquele momento se deu por uma questão técnica e descartou qualquer tipo de racha no grupo que comanda a CPI.
Acrescenta que a unidade no grupo e na CPI como um todo ainda foi reforçada pela nota do Ministério da Defesa na quarta-feira (7), que repudiou declarações de Aziz e, em tom de ameaça, afirmou que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro".
“O ataque das Forças Armadas ontem ajudou a fortalecer a nossa união. Por causa da seriedade da situação, ficou ainda mais evidente a necessidade de trabalharmos unidos”, afirmou Vieira à Folha.
Otto Alencar (PSD-BA) também havia criticado a prisão no dia em que aconteceu, mas não fez nenhuma menção ao episódio na sessão desta quinta-feira.
Os demais senadores da oposição ou independentes demonstraram apoio público a Aziz.
Humberto Costa (PT-PE) disse que a comissão tratou Dias da forma "mais digna possível".
"O presidente da CPI já tinha dito por mais de uma vez que iríamos chegar na situação limite em que o perjúrio se transformava em afronta à própria CPI", disse o petista.
Já a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) avaliou que a prisão teve "efeito pedagógico". "Mentir aqui é passível sim de prisão."
Simone Tebet (MDB-MS), que não é membra da comissão, mas comparece a todas as sessões e vem se destacando nas inquirições, afirmou que os questionamentos a respeito da prisão se deram pelo momento e não pela fundamentação.
“A CPI voltou aos eixos. Vamos serenar os ânimos [após a prisão], mas fica como lição de que a comissão precisa ser respeitada, que os depoentes precisam honrar com a verdade”, disse.
Já senadores governistas pediram para a CPI delimitar melhor se o depoente é testemunha ou investigado —este tem mais possibilidades de não responder às perguntas para evitar criar provas contra si mesmo.
Ciro Nogueira (PP-PI) disse que a comissão deve parar de convocar como testemunha pessoas que já estão sendo investigadas ou tiveram sigilos quebrados. "Ou vamos então convocar como investigados."
Já Marcos Rogério (DEM-RO) defendeu que é preciso deixar claro "desde o início" se o depoente é testemunha ou investigado.
Daniel Carvalho , Raquel Lopes , Renato Machado e Ricardo Della Coletta
