Incêndio atinge galpão da Cinemateca Brasileira
Por Estadão Conteúdo
29/07/2021 às 19:03
Atualizado em 29/07/2021 às 22:03
Foto: Reprodução

Um incêndio atingiu na tarde desta quinta-feira, 29, o galpão da Cinemateca Brasileira, no bairro Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. O prédio abriga o acervo fotográfico da instituição, conforme o próprio site da instituição, responsável pela preservação do maior acervo audiovisual da América Latina. O Corpo de Bombeiros recebeu a ocorrência às 18h04 e, segundo o órgão, 17 viaturas foram deslocadas para o local. Não há registro de vítimas e o fogo teria começado em uma das salas de acervo histórico de filmes, após um serviço de manutenção no sistema ar condicionado por uma empresa terceirizada. Após a extinção do fogo, o galpão deve passar por vistoria da Defesa Civil.
O fogo foi controlado por volta das 19h50. Nesse horário, era possível ver ainda uma fumaça branca saindo do galpão. A rua onde o prédio fica localizado foi interditada e, segundo Robson da Silva Bertoloto, da Defesa Civil da Lapa, as chamas chegaram a 6 metros de altura. O Corpo de Bombeiros foi acionado após chamados de funcionários. Ainda não há confirmação se os itens queimados eram cópias ou originais.
A capitão do Corpo de Bombeiros, Karina Paula Moreira, informou que três salas pegaram fogo, em uma área atingida de 300 a 400 metros quadrados. Em duas das salas havia filmes e, em outra, documentos históricos. O acervo nessas três salas foi destruído. Informações preliminares repassadas por funcionários da Cinemateca aos bombeiros dão conta de que as películas eram originais e não cópias.
O incêndio começou após um serviço de manutenção de ar condicionado realizado por uma empresa terceirizada, segundo a capitão Karina. "Estamos apurando o que foi queimado e o que foi preservado nessas três salas, mas provavelmente não foi preservado nada", afirmou. A área atingida fica no primeiro andar. Os filmes localizados no térreo não foram incendiados.
Segundo a capitão, funcionários que realizavam a manutenção no local tentaram conter o fogo com extintores, mas não conseguiram por se tratar de material bastante inflamável. A empresa terceirizada foi contratada pelo governo federal. A capitão afirmou que o princípio de incêndio foi causado por uma falha técnica no serviço e os bombeiros foram acionados depois que o incêndio se alastrou por três salas.
O prédio no número 290 da rua Othão, na Vila Leopoldina, foi doado à Cinemateca em 2009, pela Secretaria do Patrimônio da União. Com área total de 8.400 metros quadrados, dos quais 6.356 são de área construída, ele passou a abrigar dois anos mais tarde as reservas específicas de guarda de acervos, áreas de processamento de acervos fílmicos e documentais, laboratório de impressão fotográfica digital e demais instalações administrativas, de apoio e serviços da instituição.
Com a função de preservar e difundir o acervo audiovisual brasileiro, a Cinemateca Brasileira é administrada hoje pela Secretaria Nacional do Audiovisual, braço da Secretaria Especial da Cultura e subjugada ao Ministério do Turismo. Há dois anos, o contrato que a Associação Roquette Pinto (Acerp) mantinha com o Ministério da Educação para a gerência da instituição não foi renovado. O governo federal prometeu lançar novo edital para a função, mas a promessa nunca saiu do papel.
Em maio do ano passado, ao demitir Regina Duarte da Secretaria Especial da Cultura, o presidente Jair Bolsonaro declarou em vídeo, ao lado da atriz, que ela passaria a "fazer a Cinemateca". Ela não assumiu a função. Já em agosto, o governo federal denitiu todos os funcionários que trabalhavam na instituição, alguns com décadas de carreira, e o portal oficial da Cinemetaca foi retirado do ar.
Ainda em 12 de abril deste ano, os ex-funcionários da Cinemateca Brasileira publicaram um manifesto alertando para "os riscos que correm o acervo, os equipamentos, as bases de dados e a edificação da instituição". "O risco de um novo incêndio é real. O acompanhamento técnico e as demais ações de preservação, inclusive processamento em laboratório, são vitais", diz o comunicado, que atenta também para o teor inflamável dos e da possibilidade de autocombustão das películas.
O professor Carlos Calil, presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca, acompanhava na noite desta quinta o trabalho dos bombeiros. Ele afirmou que os filmes guardados no galpão se tratam de cópias e não originais, mas lamentou o dano que o fogo causou a documentos irrecuperáveis do próprio governo federal, mais especificamente do Conselho Nacional do Cinema, criado em 1976 e extinto em 1990. "Não se tem mais memória dessa política desenvolvida no período".
Calil explica que os originais dos filmes atingidos pelo incêndio são mantidos na sede da Cinemateca, em Vila Mariana. Ali, na Vila Leopoldina, eram armazenados itens "secundários", mas não menos valiosos, como processos de órgãos públicos, documentos do Instituto Nacional do Cinema, da Embrafilme, cópias de difusão (películas para cinema), aparelhos antigos de projeção e equipamentos de transmissão. Ele afirma também que apenas uma sala de todo o prédio estava equipada com climatização para armazenzar esse acervo, e o resto do material era distribuído em salas comuns.
"Durante anos, o governo nunca deu bola para isso. E a documentação não foi processada, foi para a Secretaria do Audiovisual que não fez nada, só mudou de lugar e não deu dinheiro para contratar o serviço necessário", afirma Calil.
Ainda em 2016, um dos galpões da Cinemateca foi atingido por um incêndio que destruiu mil rolos de filmes, correspondentes a 500 obras - a maior parte cinejornais.
Em nota enviada à reportagem, a Secretaria Especial da Cultura diz "lamentar profundamente" e "acompanhar de perto" o incêndio que atinge um galpão da Cinemateca. O órgão alega ainda que "todo o sistema de climatização do espaço passou por manutenção há cerca de um mês como parte do esforço do governo federal para manter o acervo da instituição".
A secretaria também diz ter solicitado o apoio da Polícia Federal na investigação das causas do incêndio e que "só após o seu controle total pelo Corpo de Bombeiros" poderá determinar "o impacto e as ações necessárias para uma eventual recuperação do acervo e, também, do espaço físico". O governo federal, por meio da Secretaria, também reafirma o seu "compromisso com o espaço e com a manutenção de sua história".Nas redes sociais, o governador João Doria (PSDB) classificou o incêndio na Cinemateca como "um crime com a cultura do País" e fruto do "desprezo pela arte e pela memória do Brasil". Já o secretário municipal de Cultura, Alexandre Youssef, declarou: "Se se confirmar que o incêndio é fruto da falta de manutenção que nós e todo o setor audiovisual já tínhamos anunciado, vamos perceber que essa é mais uma ação de ataque à cultura e ao patrimônio cultural brasileiro por parte do governo federal, que tem uma linha ideológica completamente distanciada da cultura brasileira. É a crônica de uma tragédia anunciada".
Mais de três horas após o início das chamas, o secretário especial de Cultura, Mário Frias, afirmou em suas redes que "irá tomar as devidas providências para verificar se o incêndio foi criminoso ou não".
