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Alvos da PF, madeireiras beneficiadas por medidas de Salles são as maiores do País
Alvos da PF, madeireiras beneficiadas por medidas de Salles são as maiores do País
Por Estadão Conteúdo
20/05/2021 às 17:46
Atualizado em 20/05/2021 às 21:59
Foto: Dida Sampaio/Estadão

A atuação ilegal na exportação de madeira não é negócio para pequenos empresários. As madeireiras que são alvos da Operação Akuanduba, deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira, 19, estão entre aquelas que mais realizaram transações internacionais em todo mercado nacional.
A reportagem teve acesso a uma nota técnica do Ibama elaborada em agosto do ano passado, que traça um panorama nacional envolvendo o uso do Documento de Origem Florestal (DOF) em exportações. Esse documento é aquele que, desde fevereiro do ano passado, passou a ser o único utilizado pelas madeireiras para vender produtos a outros países, a partir de uma mudança nas regras publicada pelo presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim. A alteração acabou com a necessidade de emitir uma autorização específica de exportação. Desde ontem, porém, por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a autorização de exportação voltou a ser exigida das empresas.
O levantamento do Ibama, que reúne dados oficiais registrados Ibama entre 2007 e agosto de 2019, mostra que as duas empresas apontadas pela PF como aquelas que atuaram para liberar madeira apreendida nos Estados – a Ebata Produtos Florestais e a Tradelink Madeiras – estão entre as sete mais atuantes do Brasil.
Nos treze anos analisados, a Ebata realizou nada menos que 5.484 transações de exportação de madeira, o que faz da empresa a quarta mais ativa no ranking nacional. No mesmo período, a Tradelink fez 4.781 transações de exportação. Os dados históricos apontam que a madeireira que mais atua com exportações é a Mil Madeiras Preciosas, localizada em Itacoatiara, no Estado do Amazonas, com 12.705 transações entre 2007 e 2019. Esses dados referem-se a operações formais, ou seja, aquelas que foram devidamente informadas ao Ibama.
O mapeamento revela ainda que há uma forte concentração das exportações em poucas empresas do setor. O número total de madeireiras que realizaram alguma operação com outro país no período analisado chegou a 895 empresas. Deste total, porém, apenas 50 madeireiras foram responsáveis por quase metade de todas as transações históricas.
Os sócios da Tradelink Madeiras, David Pereira Serfaty e o inglês Leon Robert Weich administram uma empresa que já se envolveu em problemas com a Justiça brasileira. Venda de madeira ilegal, falsificação de informações ambientais e exploração de trabalho escravo são alguns delas. As autuações à empresa, apontada como beneficiada por decisões do Ibama e do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, ultrapassam R$ 7 milhões, segundo a Polícia Federal.
A reportagem entrou em contato com a empresa. De acordo com informação da Tradelink, Leon Robert Weich é desconhecido ali, na unidade de Ananindeua, apesar de ter seu nome listado na relação societária. David Pereira Serfaty não foi localizado.
Em ofício encaminhado pela Embaixada dos Estados Unidos à PF, o adido americano, Bryan Landry relatou irregularidades encontradas no caso de importação feita pela empresa Tradelink Madeiras, que tem sua base no município de Ananindeua, no Pará, com destino à sua representação Tradelink Wood Products Inc, sediada em Carolina do Norte (EUA).
Bryan Landry conta que, em 10 de janeiro de 2020, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (FWS), órgão de controle ambiental americano e que atua como o Ibama no Brasil, deteve para inspeção três contêineres de madeira exportados do Brasil. O material seguiria para o Porto de Savannah, na Geórgia. Durante a fiscalização, os americanos notaram que o material não detinha a documentação prevista que era dada pelo Ibama. Por isso, pediu confirmação ao órgão brasileiro.
Uma semana depois, o FWS recebeu uma carta do Ibama em Belém, com dados sobre o material detido e outros quatro contêineres, os quais somavam 153 mil metros cúbicos (m³) de madeira de Ipê e Jatobá. A resposta comprovava que as cargas não tinham sido analisadas pelo setor competente, que informações falsas foram inseridas no sistema oficial de controle e que a empresa exportava a madeira sem a manifestação ou autorização prévia pelo Ibama.
O caso chegou a ser objeto de uma infração de violação pelo Ibama em 24 de janeiro, violando as próprias leis brasileiras, além da Lei Lacey, dos EUA, que trata do assunto. O importado Tradelink USA também foi notificado da detenção do material.
No dia 5 de fevereiro de 2020, o órgão americano recebeu diversas “certidões” do Ibama em Belém, na tentativa de liberar o material. “Apesar da determinação anterior de ilegalidade e notificação de violação por funcionários do mesmo escritório do Ibama, as cartas de ‘Certidão’ legitimavam os envios e defendiam sua libertação da detenção nos Estados Unidos”, relatou Bryan Landry.
Após troca de informações com a base da Tradelink nos Estados Unidos, a companhia admitiu que acreditava que os embarques de madeira detidos eram originários de várias serrarias de diferentes regiões do Brasil, e não de uma serraria só, como declarado.
Finalmente, no dia 21 de fevereiro, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, entrou em cena. Em uma reunião com Bryan Landry e representantes da Embaixada dos EUA em Brasília, Bim falou sobre interpretações de várias instruções normativas do Ibama sobre o assunto e prometeu uma decisão nos próximos dias. Quatro dias depois, o FWS recebeu uma cópia do “despacho interpretativo” de Bim, a qual concluía que a autorização de exportação não era mais necessária, mas apenas o Documento de Origem Florestal (DOF).
