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Embate entre Doria e Bolsonaro vai além da vacina e atinge ao menos oito obras em São Paulo
Embate entre Doria e Bolsonaro vai além da vacina e atinge ao menos oito obras em São Paulo
Por Folhapress
15/02/2021 às 06:36
Atualizado em 15/02/2021 às 06:36
Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

O antagonismo adotado pelo governador João Doria (PSDB) em relação ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ultrapassou a retórica inflamada e a já conhecida guerra da vacina e hoje é apontado como um empecilho para ao menos oito projetos do Governo de São Paulo que dependem da administração federal.
Segundo o governo paulista, as obras pendentes de realização na capital e no interior somam quase R$ 5,9 bilhões em investimentos, de ponte e duplicação de rodovia a canal e piscinão.
Nos bastidores, aliados de Doria atribuem as dificuldades e os atrasos à má vontade de Bolsonaro com o governador paulista por considerá-lo adversário na corrida pelo Planalto em 2022. De fato, o tucano não esconde sua pretensão presidencial.
“O Governo de São Paulo estudou cada um desses projetos. Espero que o calendário eleitoral e as opiniões individuais não prevaleçam sobre os benefícios que eles trarão à população, tampouco sobre os seus impactos na retomada econômica, importante não só para São Paulo, mas para o Brasil”, diz o vice-governador e secretário de governo, Rodrigo Garcia (DEM).
Por outro lado, como mostrou a Folha, uma parceria entre governo federal e estadual conseguiu destravar o projeto do trem expresso de passageiros entre São Paulo e Campinas, uma promessa em discussão há 17 anos.
A vacina se tornou o maior símbolo da divergência, com Doria trabalhando pela produção do imunizante enquanto o negacionismo de Bolsonaro impedia ação efetiva do governo federal em prol da vacinação.
A nova fábrica do Instituto Butantan para a produção da Coronavac, inclusive, faz parte da lista de obras atingidas pela discórdia entre São Paulo e Brasília. Segundo o Bandeirantes, o governo federal se comprometeu com o repasse de R$ 63 milhões, que não foi feito.
O Ministério da Saúde não respondeu sobre o repasse até a publicação da reportagem.
O valor total da obra, R$ 160 milhões, acabou alcançado por meio de doações de empresas privadas. A construção teve início em novembro passado e tem previsão de ser entregue em outubro deste ano. A nova terá capacidade para produzir 100 milhões de doses da Coronavac por ano.
Além da pandemia, o embate direto tem outros palcos, como a Ceagesp e o Complexo Esportivo do Ibirapuera.
O caso da Ceagesp, presidida por um coronel da reserva da PM aliado de Bolsonaro, também é emblemático. Em outubro de 2019, Doria e o governo federal acordaram a concessão do entreposto e sua transferência para outro endereço.
A Ceagesp foi incluída no plano de desestatização do governo Bolsonaro, conduzido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Doria assinou um decreto para que o novo endereço tenha acesso a rodovias expressas e duplicadas, enquanto planejou um centro de tecnologia e inovação para o desenvolvimento de startups no endereço atual.
Em dezembro passado, Bolsonaro esteve no local e, em meio à aglomeração de simpatizantes, afirmou que “nenhum rato vai sucatear isso aqui pra privatizar para seus amigos”.
O BNDES respondeu que o projeto está na primeira fase, de formulação do modelo de desestatização, que deve ser concluída no primeiro trimestre deste ano.
"Os estudos serão entregues ao PPI [Programa de Parcerias de Investimento do Ministério da Economia] para tomada de decisão sobre continuidade do projeto e qual modelo seguir", diz em nota. O Ministério da Economia não enviou resposta até a publicação da reportagem.
O Governo de São Paulo também vê interferência direta de Bolsonaro no caso do Complexo Esportivo do Ibirapuera. Doria anunciou no ano passado a concessão do ginásio, que incluirá a construção de uma arena para 20 mil pessoas.
O presidente foi procurado por atletas contrários ao projeto, e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão federal, abriu processo para discutir o tombamento do local. Procurado pela Folha, o Iphan não respondeu.
O edital seria publicado em março e a assinatura da concessão estava prevista para junho –as obras levariam cinco anos. De qualquer forma, o processo foi paralisado em dezembro por uma liminar da Justiça de São Paulo que atendeu ao pedido de atletas.
