Guedes cria narrativas para tentar construir apoio e aprovar medidas
Por Folha de S.Paulo
26/12/2020 às 17:00
Atualizado em 27/12/2020 às 06:36
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Na tentativa de construir apoio para levar à aprovação de propostas —às vezes amargas— defendidas pela equipe econômica, o ministro Paulo Guedes (Economia) desenvolveu o hábito de criar narrativas, com discursos que são repetidos meses a fio, até que consiga atingir seu objetivo.
Além das já conhecidas metáforas usadas para ilustrar a economia do país, o ministro elabora argumentos e frases de efeito que visam direcionar opiniões, suavizar críticas a respeito de propostas ou agradar parlamentares.
Recentemente, por exemplo, Guedes confidenciou a auxiliares que não acreditava que o Congresso era reformista. Segundo relatos, logo no início do governo, ele teve a ideia de criar essa espécie de selo para qualificar os deputados e senadores, apesar de achar que o Parlamento não tinha nada de reformista.
Segundo interlocutores, Guedes conversou em 2019 com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e defendeu que os parlamentares avençassem com as pautas econômicas mesmo se não houvesse apoio explícito de Jair Bolsonaro (sem partido). Ele sugeriu que o deputado argumentasse que o Congresso é reformista e que apoiaria as medidas mesmo que o presidente não quisesse.
Maia usou algumas vezes a expressão, que também foi vocalizada sucessivamente até os dias atuais por Guedes.
Após insistente repetição, o ministro afirmou a um auxiliar que acredita que a ideia acabou colando.
Nos últimos meses, no entanto, a agenda de reformas travou no Congresso. Após forte expansão de gastos para mitigar os efeitos da pandemia, a equipe econômica tenta retomar a pauta de medidas estruturantes e de ajuste fiscal.
O saldo recente do Legislativo, porém, tem a aprovação apenas de medidas menos polêmicas, como marcos legais para atrair investimentos. Propostas consideradas mais importantes pelo governo, como o pacto federativo e as reformas tributária e administrativa, não avançaram.
Ainda assim, Guedes acredita na efetividade do método da repetição. A avaliação é que ele deve ser usado como forma de influenciar opiniões, seja dos parlamentares ou da sociedade.
Uma estratégia que considera bem-sucedida foi dizer que o socorro financeiro dado pelo governo federal aos estados neste ano não poderia ser “transformado em aumento permanente de salários”. Guedes justificava que não seria justo “distribuir medalhas antes da guerra”.
