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Em UTI de hospital da zona leste de SP, maioria não sobrevive à Covid

Em UTI de hospital da zona leste de SP, maioria não sobrevive à Covid

Por Folha de S.Paulo

03/08/2020 às 11:57

Atualizado em 03/08/2020 às 11:57

Foto: Divulgação

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Enquanto a vida começa a voltar ao normal nos bairros centrais de São Paulo, a pandemia do novo coronavírus deixa marcas profundas na periferia da cidade.

No hospital municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, zona leste da capital paulista, a mortalidade na UTI destinada a pacientes da Covid-19 chega a 90%, seguindo o cálculo da Agência Nacional de Saúde, que leva em conta número de óbitos dividido por número de saídas, que inclui altas ou transferências.

De acordo com dados epidemiológicos do hospital, desde 16 de março, houve 237 mortes nas UTIs reservadas para infectados com a Covid-19 e apenas 23 altas. Quando se contabilizam somente os casos confirmados com exame PCR, usado para detectar se o paciente está com a doença, houve 166 mortes nas UTIs e 9 altas.

Como comparação, no Hospital Emílio Ribas, que também é público, mas conta com mais recursos e fica em uma área rica da cidade, a taxa de mortalidade é de 27,4% em seus leitos de UTI reservados para Covid-19.

Segundo levantamento realizado por Carlos de Carvalho, professor titular de pneumologia da Faculdade de Medicina da USP, o índice de mortalidade médio por Covid-19 nas UTIs de 16 hospitais estaduais em São Paulo é 46%.

Em nota, o diretor do Tide Setúbal, Carlos Alberto Velucci, afirmou que, de 16 de março a 31 de julho, 1.036 pacientes ficaram internados no hospital, tanto em leitos de enfermaria quanto de UTI, sendo que 613 testaram positivo para Covid-19. Segundo ele, o hospital registrou neste período, 361 óbitos, sendo 246 de pacientes com a Covid-19.

Ao todo, afirma Velucci, foram registradas 619 altas. A direção da Unidade afirma que a taxa de mortalidade (total, não apenas da UTI) está em torno de 63%.

De acordo com Velucci, a alta mortalidade se deve, em parte, ao fato de os pacientes chegarem em estágio muito avançado da doença nos hospitais da periferia. “O hospital atua de portas abertas durante 24 horas e recebe, em sua maioria, pacientes em estado avançado da doença, inclusive de outros municípios”, diz a nota.

Velucci relata que os pacientes passam por postos de saúde, unidades de pronto atendimento e até por outros hospitais antes de chegar ao Tide. Há ainda pacientes graves que relutaram em procurar atendimento.

Foi o caso de Caio Vinícius de Abreu Luciano, de 25 anos. Morador de Vila Curuçá, durante a pandemia, ele voltou a trabalhar com seu irmão, vendedor de roupas no Brás, e começou a ter febre, calafrios, tosse e dor no corpo.

“Estava tomando tudo quanto é remédio, tentando não ir para o hospital”, conta Caio, que está internado na UTI do Tide. “Ai deu ruim; tentava e tentava puxar o ar, e não vinha.”

Ele passou primeiro em uma Unidade de Pronto Atendimento, onde receitaram um antibiótico, paracetamol e o mandaram para casa. Não adiantou. Foi ao hospital municipal Waldomiro de Paula, mas não havia vaga na UTI. Só depois é que chegou ao Tide Setubal.

“Diz lá para ele que amo meu gordinho, tá?”, pediu a mãe de Caio, Cristiane Aparecida de Abreu, servente em uma AMA (Assistência Médica Ambulatória). Ela e o pai de paciente, o pintor Ivan de Araújo de Luciano Oliveira, estavam no hospital para obter informações sobre filho.

Também internado, Otávio Souza, 59 anos, passou 11 dias com sintomas antes de chegar à UTI do Tide.

“Detesto médico, nem me lembro da última vez que fui a um”, diz o técnico de máquinas de costura industriais que mora no Jardim Robru, na periferia de São Paulo. Com dor de garganta, muita falta de ar, ele procurou uma farmácia, onde tomou um anti-inflamatório e uma injeção de Benzetacil.

“Depois, meu pai foi ao (Porto Socorro municipal) Julio Tupy. Acharam que era crise de ansiedade, e deram um calmante para ele. Não fizeram raio-X, tomografia, só perguntaram se ele fumava”, conta sua filha, Bárbara, 25.

Otávio ainda relutou alguns dias em ir ao hospital. Dizia que precisava esperar o remédio funcionar. Chegou ao Tide com o pulmão bastante comprometido, mas está respondendo bem e não teve que ser intubado.

O quadro já grave dos pacientes internados não é o único motivo para a taxa de mortalidade tão alta. O Tide Setúbal —assim batizado em homenagem à primeira dama da capital, a filantropa Mathilde de Azevedo Setubal (1925-77), casada com Olavo Setúbal— tem menos recursos que outros hospitais da capital paulista. No início da pandemia, contava com apenas oito leitos de UTI.

Com a explosão da pandemia, o hospital passou a improvisar salas de UTIs em todo o prédio e agora há 64 leitos (incluídos alguns intermediários) e 6 infantis, dispostos no que eram salas de observação, na sala de clínica ortopédica, em consultórios.Todos enfileirados, sem divisórias, em espaços exíguos. Quando alguém morre, enfermeiros montam na hora um biombo para dar privacidade ao paciente e aos outros doentes.

Apenas uma porta de contenção de borracha separa as UTIs com pacientes com Covid-19 e os corredores do hospital, por onde circulam familiares, médicos e funcionários. No Emílio Ribas, especializado em doenças infecciosas, há quartos individuais de UTI, com um leito em cada um.

O Tide Setúbal não tinha nenhum infectologista antes da pandemia. Agora, conta com um especialista do hospital e um da organização Médicos sem Fronteiras, que ofereceu uma equipe para ajudar no atendimento à Covid-19. Trinta e cinco profissionais da ONG estão trabalhando em uma das UTIs do Tide Setubal desde o início de julho, gerindo 8 leitos.

O hospital tem 800 funcionários mais 600 da OS (organização social de saúde). Desde o início da pandemia, 70 funcionários do Tide Setúbal se infectaram, sendo que 3 médicos do hospital, 2 enfermeiras e 1 fisioterapeuta morreram, segundo Velucci.

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