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'Para Celso Furtado, industrialização nunca foi um fim em si mesmo', diz pesquisador

'Para Celso Furtado, industrialização nunca foi um fim em si mesmo', diz pesquisador

Por Redação

26/07/2020 às 12:34

Atualizado em 26/07/2020 às 12:34

Celso Furtado via a industrialização como o principal meio de superar o subdesenvolvimento, explica Alexandre de Freitas Barbosa, professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

Industrialização

"Para Furtado, a industrialização era o principal meio para superar o subdesenvolvimento, mas nunca foi um fim em si mesmo. Era um meio junto às reformas de base à reforma do Estado. Ele viu como se deu nossa industrialização a partir de uma crise internacional. Ele mostra que ela é problemática, gera inflação e crise no balanço de pagamentos, é concentrada regionalmente."

A indústria hoje

"Houve uma mudança na configuração da economia-mundo capitalista, com a presença da China num quadro de boom de commodities, mas os setores com maior valor agregado ficaram cada vez mais fora do país. Isso é mais grave que desindustrialização. A indústria é quase só montagem, virou importadora de tecnologia, a estrutura produtiva continuou obsoleta ou cada vez mais dependente em termos internacionais. Como reverter isso? Furtado serve para fazer essas indagações. É preciso pensar centros e periferias tendo estruturas sociais diferentes, e se conectando de maneira complementar e contraditória."

Centros dinâmicos

"Nós temos um cenário com três centros dinâmicos: EUA, China e Europa. Boa parte do que é produzido está na China, mas boa parte também do que é investido na África, Ásia e América Latina vem da China também. E os outros centros reagem a isso. Qualquer país para lidar com esse novo contexto precisa entender suas possibilidades a partir das interações entre eles."

Papel do Brasil

"As pessoas que estão no governo hoje não têm nenhum objetivo, senso de realidade nenhum, sequer são teóricos. Furtado, no livro "A Construção Interrompida" [de 1992], tem uma nota introdutória muito amarga, escrita durante o governo [Fernando] Collor, falando dos "liquidatários do desenvolvimento". Ele não imaginava que os liquidatários do desenvolvimento ainda estavam por vir. O governo atual não tem estratégia, projeto. Atacam a China, destroem o meio ambiente. Não acho que exista qualquer tipo de visão geopolítica. No golpe de 1964 o objetivo era desenvolver as engrenagens do capitalismo brasileiro. Agora não existe perspectiva de desenvolver nada, é aumentar a rentabilidade, fazer terra arrasada e pronto. Eles não pronunciam a palavra desenvolvimento."

Superação do subdesenvolvimento

"Me pergunto se sequer há possibilidade de existência de algo como nação. Furtado falava em nexos de solidariedade econômica. Não sei se existem esses nexos entre os setores que compõem o território nacional. Eles estão interligados a diferentes dinâmicas de acumulação predadora. Isso pode até dar em algum crescimento econômico aqui e acolá, mas o cenário é o do ornitorrinco do Chico de Oliveira: acumulação truncada, desigualdade irremissível. Ele só esqueceu de colocar um Estado e uma sociedade autoritários."

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