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Hidroxicloroquina é remédio mais citado em peças de desinformação no mundo, mas volume cai

Hidroxicloroquina é remédio mais citado em peças de desinformação no mundo, mas volume cai

Por Folha de S.Paulo

22/07/2020 às 11:17

Foto: Marcos Corrêa/PR

Jair Bolsonaro

Entre os medicamentos apontados como tratamentos para a Covid-19 em peças de desinformação, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram os mais citados em todo o mundo. As bases de dados Coronavirus Facts Alliance e CoronaVerificado mostram que os checadores desmentiram 161 conteúdos falsos sobre remédios de janeiro até o dia 20 de julho. Desses, 31,7% envolviam essas duas substâncias, o equivalente a 51 conteúdos. ?

Usadas no tratamento de malária, lúpus e artrite, a cloroquina e a hidroxicloroquina começaram a ser apontadas como alternativa contra o novo coronavírus em fevereiro. Os boatos continuam sendo compartilhados até hoje, especialmente no Brasil, mas tiveram mais força nos meses de março e abril.

Checadores da Nigéria foram os primeiros a desmentir um boato de que a cloroquina seria a cura para a Covid-19. A informação partiu de um post publicado no Twitter pela revista China Science no dia 17 de fevereiro. O tuíte dizia que a droga teria “certo efeito curativo na Covid-19”, o que desencadeou uma série de comentários sobre o remédio na Nigéria. Perfis usaram a hashtag “chloroquine”, dizendo que ela iria curar a doença.

A informação, no entanto, estava incorreta. Na verdade, pesquisas feitas na China mostraram que a cloroquina e a hidroxicloroquina conseguiam eliminar o novo coronavírus de culturas de células. Esse é um primeiro passo na pesquisa médica, mas não o ponto final. O fato de um remédio funcionar em uma cultura de células não significa que ele seja eficaz dentro do organismo.

Em março, o médico francês Didier Raoult disponibilizou publicamente um polêmico pre-print(estudo sem revisão por terceiros), no qual mostrou dados do tratamento de 20 pessoas com hidroxicloroquina.

Apesar de severas falhas metodológicas apontadas por outros cientistas, incluindo a exclusão de pacientes que reagiram mal, o medicamento virou uma bandeira política para os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido).

Nas semanas seguintes, notícias falsas sobre a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina ganharam força, e circularam nas mais variadas partes do mundo, incluindo França, Índia, Estados Unidos, Filipinas, Venezuela, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda, México, Alemanha, Tanzânia e Canadá. O Brasil foi o terceiro país que mais desmentiu boatos sobre esses medicamentos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da França.

A partir de maio, contudo, diversos estudos clínicos, com testes duplo-cegos, mostraram a ineficácia dessas substâncias no tratamento da Covid-19. Um deles, publicado pelo periódico The New England Journal of Medicine, mostrou que a hidroxicloroquina é ineficaz como profilaxia. Outro, publicado pelo Annals of Internal Medicine, que o remédio não funciona no tratamento de pessoas não hospitalizadas.

Pesquisas dos projetos Recovery Trials, da Universidade de Oxford, e do Solidarity Trial, da Organização Mundial da Saúde (OMS), sobre o uso da droga no tratamento de pacientes internados em estado grave, foram interrompidas porque o medicamento não mostrou resultado.

Desde então, no resto do mundo, a desinformação sobre esses medicamentos perdeu força. Em junho, informações falsas sobre esse assunto foram verificadas somente por checadores do Brasil e da França.

No Brasil, notícias falsas sobre a hidroxicloroquina continuaram sendo compartilhadas em julho. Somente na semana passada, a Lupa verificou três conteúdos.

Um deles dizia que o governador da Bahia, Rui Costa, teria recolhido o medicamento de farmácias do estado e proibido seu uso. Outro afirmava que pacientes diagnosticados com Covid-19 poderiam “pedir a cassação do CRM [registro no Conselho Regional de Medicina]” de profissionais que se recusassem a prescrever a droga. Uma terceira peça de desinformação dizia, entre outras coisas, que a OMS “proibiu” o remédio. Nenhuma dessas informações é verdadeira.

Fakes sobre ivermectina começaram na Espanha, mas são destaque no Brasil

Enquanto a cloroquina e a hidroxicloroquina foram usadas em peças de desinformação ao redor do mundo, a ivermectina, outra droga sendo usada contra Covid-19 sem eficácia comprovada, é mais citada especificamente no Brasil. De dez conteúdos falsos checados, seis são de plataformas brasileiras.

O primeiro boato sobre esse medicamento apareceu na Espanha, no início de abril. O texto dizia que a ivermectina era capaz de matar o novo coronavírus em 48 horas, curando o paciente infectado da doença. A publicação distorcia informações de um estudo publicado pela Universidade Melbourne, realizado com células in vitro.

No Brasil, a Lupa verificou outras peças de desinformação sobre a ivermectina. Uma delas afirmava que a Marinha do Brasil havia estabelecido um protocolo de tratamento da Covid-19 para uso domiciliar com esse remédio. Outra, que um estudo comprovou que o uso da droga estava relacionado à diminuição do número de infectados por Covid-19 em Natal (RN). Nenhum é verdadeiro.

Ainda não há um remédio comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus.

Em junho, pesquisadores do Recovery Trial publicaram um pre-print citando potenciais benefícios no uso de dexametasona no tratamento de casos graves de Covid-19. Essa substância não atua diretamente contra o vírus, e, portanto, não cura a doença. Contudo, pode ajudar na modulação da resposta imune do organismo, evitando o fenômeno chamado “tempestade de citocinas” —uma resposta exagerada do sistema imunológico que causa danos ao próprio organismo.

Assim que essa notícia saiu, começaram a circular peças de desinformação tratando esse medicamento como a cura da Covid-19, o que não é verdade. Boatos desse tipo foram verificados na Itália, nas Filipinas e na Ucrânia, entre outros países.

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