Brasileiros abandonam quarentena antes da Covid-19 arrefecer no país
Por Folha
25/07/2020 às 12:21
Atualizado em 25/07/2020 às 12:43
Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress

Apesar do crescimento acelerado de casos de Covid-19 e com cerca de mil novas mortes registradas diariamente, os brasileiros estão deixando a quarentena de lado. Em todos os estados houve aumento de ao menos 30% na circulação de pessoas entre março e julho, segundo dados apurados pelo Google.
No Amazonas, a movimentação chegou a subir 93% em quatro meses: foi de uma queda de 45% da movimentação em locais de trabalho em março para uma redução de apenas 3% na semana passada —ou seja, agora está praticamente igual ao período anterior à pandemia.
O aumento de circulação ocorre num momento em que o Amapá é o único estado com ritmo desacelerado de contágio, indicava na sexta-feira (24) o Monitor de Aceleração da Covid-19 no Brasil, da Folha.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que o retorno de movimentação pode fazer com que os estados e o país permaneçam por mais tempo com números elevados de novos casos e de óbitos.
Além do Amazonas, Maranhão, Pará, Tocantins e Mato Grosso do Sul também estão agora com o movimento em locais de trabalho próximos aos patamares registrados antes da pandemia.
No Brasil, a doença ainda está em aceleração em boa parte das regiões. Por isso, a quarentena, que perdeu força nas últimas semanas no país, ainda é necessária para conter a pandemia.
Faz quatro meses que o Brasil atingiu o ponto mais baixo de mobilidade e ainda segue com movimentação inferior ao pré-pandemia. Nas atividades de lazer, por exemplo, está 47% abaixo do normal, na média nacional.
Na Itália e na Espanha, três meses e meio após o ponto mais baixo de mobilidade, a movimentação já estava próxima ao normal nas atividades de lazer.
Conforme a Folha mostrou em junho, quando começou a se delinear o enfraquecimento do distanciamento social no Brasil, entre os dez países com mais óbitos no mundo naquele momento, somente brasileiros e mexicanos estavam saindo da quarentena ainda com aumento do número de óbitos diários.
No momento atual, a flexibilização também pode dar à população a impressão de que a estabilização dos casos em alguns estados signifique que tudo já passou e a crise está sob controle.
“Muita dessa confusão pode também estar relacionada com promessas de tratamentos milagrosos e as pessoas achando que a vacina já vai estar disponível no mês que vem”, diz Stucchi.
Além de questionar as medidas de isolamento, Bolsonaro, apesar das evidências científicas que apontam o contrário, é um ferrenho defensor do uso da cloroquina contra a Covid-19.
“Para todo mundo que é da área da saúde, a abertura não é adequada enquanto tem transmissão importante. A circulação deveria ser evitada ao máximo neste momento”, diz Marcos Boulos, professor de medicina da USP e integrante do comitê de contingenciamento do coronavírus de São Paulo.?
Boulos afirma que com o aumento da circulação tem como consequência o prolongamento da duração da pandemia. “A doença já poderia ter acabado se tivesse tido uma restrição importante”, diz.
O especialista diz que no estado de São Paulo a crise poderia ter acabado já em junho caso tivesse sido adotado um lockdown, o mais restritivo nível de distanciamento social, mas que isso não foi avaliado como uma opção viável na situação atual do país.
Christovam Barcellos, sanitarista da Fiocruz e membro do Monitora-Covid-19, afirma que o Brasil corre o risco de repetir o que acontece nos EUA, que, após um pico de casos e mortes, entrou em estabilização e já enfrenta uma nova ascensão do Sars-CoV-2.
“É esse formato que infelizmente pode acontecer no Brasil, uma subida sobre outra subida”, diz Barcellos.
“Na Europa e na Ásia, houve um pico claro e uma descida sustentada. Foram tomadas medidas para uma volta com menor risco de transmissão. No Brasil essas medidas não foram tomadas.”
Segundo o pesquisador da Fiocruz, só haverá segurança se houver uma cadeia de responsabilidade e coerência, partindo do governo federal até chegar às empresas e às pessoas.
Stucchi, da Unicamp, também cita a necessidade de políticas estruturadas de testagem e isolamento.
