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União podia ao menos ajudar quem quer enfrentar a pandemia, por Raul Monteiro*

União podia ao menos ajudar quem quer enfrentar a pandemia, por Raul Monteiro*

Por Redação

14/05/2020 às 08:52

Atualizado em 14/05/2020 às 10:01

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo

Estados e municípios não têm serviços diplomáticos, que o governo federal poderia fornecer para ajudar nas aquisições

Há de tudo no processo de aquisição de equipamentos por Estados e municípios para enfrentar a pandemia do coronavírus: denúncias de superfaturamento, lobbies desavergonhados de políticos e investigações para apurar acusações de corrupção, além, naturalmente, de golpes internacionais nos compradores, que vão de envio de respiradores defeituosos à suspensão de entregas ao país, muitas vezes injustificadamente. Tudo isso, entretanto, poderia ser pelo menos minorado, caso Estados e municípios não tivessem sido largados sozinhos na tarefa de enfrentar a Covid-19.

Sob o argumento de que as regras de confinamento adotadas por prefeitos e governadores, seguindo a orientação das autoridades sanitárias e de Saúde mundiais e mesmo nacionais - o ainda novo ministro Nelson Teich também não viu como defender sua abolição -, estão quebrando a economia, o governo central praticamente abandonou os entes subnacionais à própria sorte, eximindo-se de qualquer responsabilidade pelo que fazem devido a sua insubordinação à orientação do presidente Jair Bolsonaro, como se não representassem igualmente a população e não fossem mesmo seu primeiro anteparo.

O resultado é que, prevendo o colapso, principalmente na Saúde, que a maioria já começa a ser obrigada a enfrentar, muitos gestores se apavoraram e começaram a promover aquisições de equipamentos em mãos de intermediários ou de fabricantes chineses, com os quais as relações comerciais, segundo relatos, são normalmente as piores possíveis, entrando, em alguns casos, em verdadeiras roubadas. Claro que não se descarta a ação dos oportunistas que viram na crise a chance de fazer grandes negócios na expectativa de que, pela situação emergencial, pudessem driblar órgãos de controle.

Para esses, os rigores da lei, com as penas que prevê, ainda parecem insuficientes, dado o fato de estarem se aproveitando principalmente do sofrimento alheio. Mas para os que agiram de boa fé, buscando mitigar o desespero de muitos, ao antecipar o aprofundamento da crise em suas cidades e Estados, um mínimo de estímulo e apoio poderia ser provido pelo governo federal, fosse organizando as compras de interessados de todo o país, o que permitiria certamente ganhos de escala, ou utilizando a diplomacia de que governos estaduais e municipais não dispõem para evitar equívocos, problemas e embaraços como alguns que se vêem agora.

É disso que se fala quando se pede que o presidente da República desça do palanque e trabalhe, coordene as ações pelo enfrentamento da doença, buscando potencializar, como qualquer líder responsável, as iniciativas de todos aqueles que têm, na medida do possível e com as armas que possuem, buscado enfrentar uma doença traiçoeira. Mas como exigir tal comportamento de alguém que nunca trabalhou, tem desprezo pelo exercício administrativo e o da política e, ainda por cima, nega a existência da enfermidade, assim como sua rápida e letal expansão? Sem direção nacional na crise, o melhor é se preparar para os prejuízos, que tendem só a aumentar.

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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