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Relatório da PF sobre facada em Bolsonaro diz que apuração não pode se basear em opinião pública ou leigos
Relatório da PF sobre facada em Bolsonaro diz que apuração não pode se basear em opinião pública ou leigos
Por Folhapress
15/05/2020 às 07:01
Atualizado em 15/05/2020 às 07:01
Foto: Reprodução/Twitter

No relatório do inquérito que descartou pela segunda vez a existência de mandante no caso da facada em Jair Bolsonaro, a Polícia Federal afirmou que suas investigações não podem se basear na opinião pública ou se guiar por dúvidas de leigos.
O documento, obtido pela reportagem, desconstrói teorias da conspiração criadas sobre a tentativa de assassinato cometida por Adélio Bispo de Oliveira contra o então candidato a presidente, em 2018. Bolsonaro tem insistido na tese de que o autor agiu a mando de terceiros, o que a PF refutou.
"As dúvidas provenientes dos leigos são plenamente aceitáveis, contudo, a investigação não pode ser pautada pela opinião pública, sob pena de ser marcada pela falta de rigor técnico", escreveu o delegado da PF Rodrigo Morais no relatório, entregue ao Ministério Público Federal nesta quarta-feira (13).
"Em se tratando de uma investigação policial, o senso comum deve ser substituído por uma pesquisa sublinhada pela precisão metodológica", afirmou o responsável pelo inquérito, o segundo aberto pela corporação sobre o caso. Ambos mostraram que Adélio, que foi declarado inimputável, agiu sozinho.
De acordo com o documento, o inquérito tem nove volumes e 1.908 folhas.
As conclusões foram apresentadas em um relatório classificado por Morais como parcial, já que a PF foi impossibilitada de averiguar um último ponto considerado importante: o celular e outros materiais apreendidos com os advogados que assumiram a defesa do autor logo após o crime.
Como mostrou o jornal Folha de S.Paulo, a perícia nos conteúdos depende de julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal), que ainda não começou a analisar o tema. Em meio às pressões de Bolsonaro, que vem colocando em xeque o trabalho da PF, os investigadores divulgaram os resultados obtidos até agora.
O Supremo terá que se pronunciar sobre a eventual violação de sigilo profissional de advogados, garantida pela Constituição. Se a corte der aval à perícia, uma nova frente de investigação se abrirá.
O escrutínio dos aparelhos apreendidos no escritório de Zanone de Oliveira Júnior poderia revelar eventuais conexões com financiadores e mentores do plano, o que o advogado nega. A PF trabalha com a possibilidade de reabrir a investigação no futuro caso o STF autorize o pente-fino nos materiais.
No último dia 28, o presidente disse que a facada foi negligenciada pela PF e defendeu que a investigação fosse reaberta –àquela altura, contudo, a apuração finalizada nesta semana ainda estava em andamento.
Bolsonaro afirmou na ocasião não possuir provas do envolvimento de terceiros, mas disse ter "sentimentos, sugestão para dar para a Polícia Federal". A defesa dele não recorreu da decisão judicial que absolveu Adélio e determinou que cumpra medida de segurança. O autor está preso desde o crime.
No documento, o delegado Morais afirma que até os advogados da vítima reconhecem que a análise do conteúdo do celular é a única diligência pendente.
O relatório apresentado nesta quinta-feira (14) à direção-geral da corporação e ao novo ministro da Justiça, André Mendonça, detalha como os agentes, com base em dados fiscais, bancários e telefônicos, imagens e depoimentos, afastaram a participação de terceiros e a ajuda de comparsas.
A PF afirma que a investigação foi "marcada ininterruptamente pelo rigor técnico" e que, "ainda que a maioria das pessoas acredite na existência de suporte logístico" a Adélio "ou no envolvimento de grupos criminosos especializados, até o presente momento nada de concreto" surgiu sobre essas hipóteses.
A "participação de agremiações partidárias, facções criminosas, grupos terroristas ou mesmo paramilitares em qualquer das fases do ato criminoso" foi descartada. Nos últimos dias, aliados de Bolsonaro e apoiadores buscaram associar PT e PSOL, duas siglas de esquerda, ao crime.
Os partidos repudiaram a insinuação e entraram com ações na Justiça por difamação.
A PF diz que a própria forma como a tentativa de homicídio foi cometida, usando uma faca de cozinha, torna menos crível que o criminoso tenha sido orientado por grupo organizado ou recebido suporte material ou financeiro. "A ação foi perpetrada de maneira extremamente rudimentar", afirma o relatório.
Replicada em redes sociais, a suspeita de ligação de Adélio com o PCC (Primeiro Comando da Capital), por exemplo, foi investigada. A PF partiu da hipótese de que a eleição de Bolsonaro seria indesejada pela facção criminosa e que o autor poderia ter atuado a mando do grupo. Isso, porém, não foi comprovado.
