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Moro não tinha ideia de como seria trabalhar com Bolsonaro, diz ex-secretário da Justiça
Moro não tinha ideia de como seria trabalhar com Bolsonaro, diz ex-secretário da Justiça
Por Folha de S.Paulo
13/05/2020 às 06:37
Foto: Alan Santos/PR

Um dos principais auxiliares de Sergio Moro no Ministério da Justiça, o juiz aposentado Vladimir Passos de Freitas, 75, diz que o ex-magistrado da Lava Jato "não tinha a menor ideia" de como seria trabalhar junto com o presidente Jair Bolsonaro no governo.
"A carreira política do presidente era no Rio de Janeiro, e ele [Moro] era um juiz do Sul do país, totalmente distante. Não creio que ele tivesse ideia de como seria a vida comum ali."
Freitas, que ocupou os cargos de secretário de Justiça e assessor para assuntos legislativos na pasta, diz que Moro tentou "até o último minuto" reverter a decisão de Bolsonaro que precipitou a demissão do ministro, a troca de comando na Polícia Federal.
O ex-secretário foi convidado por Moro para integrar a equipe da pasta ainda no início do governo. Os dois se conhecem desde a época em que o agora ex-ministro entrou na magistratura, nos anos 1990. Freitas foi presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e da Ajufe (Associação de Juízes Federais).
Qual o saldo da gestão de Sergio Moro no ministério?
Vejo um saldo positivo. Evidentemente não se atingiu tudo que se pretendia, mas se fez muito. Algumas coisas passaram despercebidas, mas foram da máxima importância. Por exemplo: a remoção de 22 presos do PCC para presídio federal quebrou elos. Muitas medidas na área de segurança, como a criação de um centro integrado em Foz do Iguaçu, o fortalecimento da secretaria especial de coordenação das polícias.
E algumas [medidas] não saíram como pretendido, como o pacote anticrime, que ficou aquém do que se esperava no ministério. São algumas frustrações, faz parte.
Entre elas, o sr. incluiria a retirada do Coaf [órgão que detecta movimentações financeiras suspeitas] da pasta e a sanção da Lei de Abuso de Autoridade?
Evidentemente, o Coaf estando ali junto [no Ministério da Justiça], as relações eram muito mais fáceis, mais diretas. Quando vai para outro ministério, tem que se fazer tudo de uma maneira formal, por ofício etc. Foi uma frustração. A Lei de Abuso de Autoridade também, porque ela cerceia muito a atividade da polícia, da Justiça, do Ministério Público.
Como era a relação com o presidente Bolsonaro?
Quem faz a relação é o ministro. A relação do ministro [Moro] com o presidente evidentemente tinha divergências, como no pacote de liberação de armas. Mas eram levadas assim, de uma maneira respeitosa, sem grandes atritos. Com o tempo, as divergências se agravaram. Mas o ministro não se queixava, nem para mim nem para outros secretários.
A liberação de armas, que é quase uma obsessão do presidente, causou atritos?
Talvez tenha sido o primeiro momento de posições mais divergentes. Mas era considerado como uma promessa de campanha [de Bolsonaro]. Tinha que ser respeitada, e o desejo do presidente tinha que ser satisfeito. E se tentava, mais do que tudo, evitar inconstitucionalidades. Mas não houve nada mais grave.
O sr. tratou da relação com o Congresso. O ministro não foi otimista demais em relação a como o Congresso reagiria [a suas propostas], já que ele teve uma carreira como magistrado que foi muito dura ao meio político?
Ele [Moro] não tinha experiência na vida política. Apesar de não ser político de carreira, ele foi muito gentil com congressistas, recebia pessoas o dia inteiro.
Depois, nos votos, muitas pessoas que tinham simpatia por ele votavam contra porque tinha o voto do partido, fidelidade partidária. Houve realmente uma reação maior do que a esperada. Mescla-se um caldeirão de interesses completamente diversos. Desde o político que teme uma lei mais dura porque pode ser alcançado por ela até partidos de esquerda que votavam contra porque simplesmente era Moro, quiçá um candidato a presidente fortíssimo. Outros por crenças teóricas, são do viés garantista. Tudo isso resultou que muitas iniciativas do pacote anticrime fossem afastadas.
