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Entenda o interesse de Bolsonaro na troca do chefe da Superintendência da PF no Rio
Entenda o interesse de Bolsonaro na troca do chefe da Superintendência da PF no Rio
Por Folha de S.Paulo
05/05/2020 às 12:36
Foto: Reprodução

Na manhã desta terça-feira (5), em rápida declaração em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mandou repórteres calarem a boca quando foi questionado sobre as recentes mudanças na Polícia Federal. Bolsonaro ainda atacou a Folha, chamando o jornal de "canalha", "patife" e "mentiroso".
O presidente mostrou uma imagem que reproduzia a manchete da edição impressa da Folha desta terça-feira e, referindo-se à manchete "Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro", disse que não interferiu na corporação.
Nomeado um dia antes, o novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Souza, decidiu trocar a chefia da Superintendência da PF no Rio de Janeiro, foco de interesse da família de Jair Bolsonaro, como revelou o Painel. O novo superintendente do Rio ainda não foi definido.
Carlos Henrique Oliveira, atual chefe da PF no estado, foi convidado para ser o diretor-executivo, número dois na hierarquia do órgão. A ação de Rolando, o novo chefe da PF, gerou estranhamento dentro da corporação, especificamente por três motivos:
1) a mudança no Rio era um pedido de Bolsonaro, segundo Sergio Moro;
2) o novo diretor-geral e Oliveira, atual chefe da PF no Rio, não têm relação de amizade ou proximidade;
3) Oliveira está há menos de seis meses como chefe no Rio de Janeiro, o que é considerado pouco tempo para uma troca.
"Que imprensa canalha a Folha de S.Paulo. Canalha é elogio para a Folha de S.Paulo. O atual superintendente do Rio de Janeiro, que o [ex-ministro Sergio] Moro disse que eu quero trocar por questões familiares."
"Não tem nenhum parente meu investigado pela Polícia Federal, nem eu nem meus filhos, zero. Uma mentira que a imprensa replica o tempo todo, dizer que meus filhos querem trocar o superintendente [da PF no Rio]", completou o presidente neste terça-feira.
Mas, ao contrário do que diz o presidente, a PF no Rio tem uma série de apurações e interesses que esbarram nele e em sua família.
A Polícia Federal, por exemplo, identificou o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, como um dos articuladores de um esquema criminoso de fake news. Carlos mora no Rio de Janeiro. Bolsonaro também cobra da PF atualizações sobre o uso de seu nome nas apurações do assassinato da vereadora Marielle Franco.
Capitão reformado do Exército e defensor de pautas das forças de segurança desde o início da vida política, Bolsonaro sempre manteve contato com agentes e delegados das polícias. O filho Eduardo virou escrivão da PF, o que também estreitou laços. No Rio, onde a família mora, a aproximação foi ainda maior.
Já o caso da "rachadinha" do então gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio não está com a PF, mas o órgão tocava na época investigações envolvendo personagens em comum. Aliados do presidente, no entanto, divulgam por diversas vezes que a polícia possui uma série de informações deste assunto, guardadas em sigilo.
Flávio é investigado desde janeiro de 2018 sob a suspeita de recolher parte do salário de seus empregados na Assembleia de 2007 a 2018. Os crimes em apuração são peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.?
No pronunciamento de sua despedida do governo, Moro disse que ouviu "expressamente" do presidente que ele queria não só a troca do diretor-geral como também novamente a do superintendente do Rio.
Moro afirmou que os pedidos não tinham uma razão ou causas aceitáveis. Segundo relatos, o ex-ministro detalhou os episódios em seu depoimento no inquérito que está com o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal.
Respeitado entre os pares, Oliveira não tem relação de amizade ou proximidade com o novo diretor-geral, o que aumentou a desconfiança em alguns setores da Polícia Federal.
Antes de assumir a chefia Rio, em dezembro do ano passado, ele ficou menos de um ano no comando da superintendência de Pernambuco. E, agora, ainda não completou seis meses na nova função.
Como mostrou o Painel, Alexandre Ramagem, primeira opção de Bolsonaro mas barrado pelo Supremo, também tinha decidido fazer a troca no estado, como um dos seus primeiros atos, nas poucas horas que ficou como diretor-geral, antes de ter sua nomeação suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.
