É como se estivéssemos no mundo das sombras dele próprio, por Gerson Brasil*
Por Gerson Brasil*
28/05/2020 às 19:40
Atualizado em 28/05/2020 às 19:44
Foto: Divulgação/Arquivo

A Europa, rica e culturalmente exuberante, que legou o Renascimento; o “uomo universal”, burguês, independente e pensado na liberdade, que nos outros urdimos numa caliça malamanhada, criou um fundo de emergência pós-pandemia, de mais de 1 trilhão de euros. Objetivo, ajudar na recuperação da economia do bloco. Discute-se apenas como essa dinheirama será distribuída, se sob a forma de subsídio, ou empréstimo.
São 27 países abrigados num guarda-chuva com PIB superior a 15 trilhões de euros e com um sistema de saúde eficiente; mas que foram pegos de surpresa pelo coronavírus – a gripezinha de Jair – e se mostraram bastante vulneráveis.
Aqui no Brasil, que muitos gostam de arrotar sermos a oitava economia do mundo, a sétima seria a da França, o déficit fiscal da união, estados e municípios está projetado para R$ 500 bilhões este ano. Como financiar esse buraco, tem gerado várias discussões, como o uso de uma parte das reservas cambiais, emissão de dinheiro, et al.
O fato é que o rombo existe, não se sabe ainda qual o valor final, e não fazemos parte da União Europeia e sim do Mercosul; união de pobres, sem moeda, com a Argentina em frangalhos. Acabou de dar um calote de US$ 500 milhões no FMI.
As pretendidas reformas econômicas de Guedes, tributária, administrativa e o tal do pacto federativo, encontraram resistências no Congresso e nos governadores. Ou seja, o que seria uma plataforma para mitigar o déficit público foi torpedeada, mas Guedes, como o herói de Cervantes, luta para torná-las viável. Não se sabe até quando.
Colada a isso, a pandemia avança, a população dá sinais de cansaço da quarentena, se junta ao compositor Haroldo e Lobo e diz “eu quero é rosetar”. A edição da Tribuna do dia 25 mostrou o fato (Semana de isolamento social mais rigoroso começa com descumprimentos de medidas). O Exército mostra a produção de 1.250.000 comprimidos de 150 mg de cloroquina, remédio rejeitado pela ciência médica, no combate à Covid, mas abraçado por Jair.
O líder Jair insiste no isolamento social vertical e o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, disse não ter como prever o fim da pandemia. Acossado com a possibilidade de um impeachment, verossímil – já acolhemos dois na perfeita ordem jurídica -, Jair quer saber de tudo. O mundo político e o judiciário, à frente o STF, dia sim dia não, falam sobre a necessidade de manter a Democracia, e o respeito e a harmonia entre os três poderes.
Difícil nesse barandão a prevalência do argumentatio, a esgrima de ideais, que não impede o conflito, mas o coloca no razoável. É como se estivéssemos no mundo não do Renascimento e sim no mundo das sombras dele próprio.
Um certo líder romano, “excêntrico”, mandava e desmandava, gostava de temperatura ensurdecedora, mas sua música era péssima, próxima, talvez, a da musicista de Vermeer, a “Dama Sentada ao Virginal”, instrumento musical de cordas. Mas no Youtube Caetano Veloso é luzidio em “Linha do Equador”, e Ruy Guerra nos brinda, em “Os Cafajeste”, com a cena de quatro minutos e meio da nudez cálida de Norma Benguell. Ainda, bem!
* Gerson Brasil é jornalista e secretário de Redação da Tribuna.
