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A eleição em Salvador se define em 1º turno e a maioria quer a continuidade do projeto de Neto, diz Elmar em entrevista exclusiva
A eleição em Salvador se define em 1º turno e a maioria quer a continuidade do projeto de Neto, diz Elmar em entrevista exclusiva
Por Raul Monteiro
10/05/2020 às 08:00
Atualizado em 10/05/2020 às 09:19
Foto: Dida Sampaio/Estadão/Arquivo

Ex-líder do DEM na Câmara, o deputado federal Elmar Nascimento diz não se surpreender com as polêmicas que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) produz no país, as quais vão desde brigar o tempo todo com quase todo mundo e demitir ministros que desempenham bem suas funções até demonstrar grande insensibilidade com a perspectiva do aumento das mortes no país pela Covid-19, que bateu a casa dos 10 mil óbitos neste sábado.
"Ninguém votou desconhecendo o que Bolsonaro era e pensava", afirma Elmar, observando que o presidente pode ser acusado de tudo, menos de ter praticado um estelionato eleitoral, nesta entrevista exclusiva, a primeira de uma série que o Política Livre passa a publicar, sempre aos domingos, com lideranças políticas.
O parlamentar não acredita que o governo consiga eleger um sucessor de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à presidência da Câmara submisso aos interesses do Planalto, concorda com a previsão de que as eleições municipais devem ser adiadas para dezembro e prevê a eleição do candidato do prefeito ACM Neto (DEM) ao Palácio Thomé de Souza em primeiro turno como algo absolutamente natural. Confira os melhores trechos da conversa, abaixo:
Pergunta - Como o senhor está vendo essa proposta de prorrogação das eleições?
Resposta - Depende do que seja prorrogar. Uma seria de adiamento e outra de prorrogar mandato, que é absolutamente inconstitucional, porque mandato tem prazo certo. Isso é cláusula pétrea da Constituição. Teria que ter uma nova Constituinte, nem uma emenda à Constituição seria possível. Teremos que ver também como se comportará a pandemia. É claro que chegou ao pico em alguns Estados - Maranhão, Ceará, Amazonas - São Paulo chegando, na Bahia está mais prorrogada. Pode fazer o adiamento. Tem que decidir até junho, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tem que tomar providências. Seria então o mais provável dezembro. Mas em junho, teremos mais clareza.
P - O senhor teve a oportunidade de lidar pessoalmente com o ministro Sérgio Moro (Justiça) por ocasisão da tentativa de aprovação no Congresso do projeto anti-corrupção, contra o qual, inclusive, fez algumas críticas. O senhor achava que o fim de Moro no governo estava anunciado?
R - Não dava para se prever, porque ele, claro, mergulhou de cabeça no projeto (de combate à corrupção), ninguém abandona 22 anos de magistratura, que abraçou, muda completamente o rumo, ninguém faz isso sem confiar num projeto, que poderia ter dois sentidos: primeiro, ir (ser nomeado) para o STF (Supremo Tribunal Federal) (pelo presidente Jair Bolsonaro), segundo, inconfesso, um projeto político. Mas ele não conseguiu conceber bem a forma como a política funciona. É certo que, quando as pessoas dizem que vão dar carta branca sempre tem os limites e obstáculos, e ele não conseguiu, bem, não tinha um convívio grande com o presidente, para saber onde ia, fez uma aposta no escuro. Tem uma frase que o próprio presidente falou - você só conhece a mulher quando casa. Fizeram um casamento sem um conhecer o outro.
P - Com que tipo de capital político o senhor acha que Moro deixa o governo?
R - Em política, dois anos é uma eternidade. Não dá muito para prever. Se for ver o histórico recente do país, com menos de um ano não tinha condição que fizesse, fora Lula que tentou mais de três vezes para poder se eleger, FHC, que perdeu a eleição para prefeito de São Paulo e em seguida foi eleito navegando no Plano Real. Bolsonaro, ninguém apostava, foi eleito meio confirmando que Presidência é destino. Olha o Aécio o que aconteceu - por pouco não ganha para Dilma Rousseff e em quatro anos seria imbatível. Veja o que aconteceu. Ninguém falava há dois meses em qualquer tipo de força que Mandetta poderia ter. Hoje pode ser presidente, governador, senador ou nada. Não quer dizer que se manterá à frente. Porque vai estar no sereno. Eu não sei como vai acontecer com Moro. Se se mantiver em visibilidade. A menos que as denúncias coloquem ele na história. Tudo que se vazou até agora foi muito pouco. Ficou todo muito numa expectativa de que ele conseguisse vir com um caminhão de coisas contra o presidente e não veio nada de surpreendente.
P - Cometeu, então, um erro político?
R - Se ele se achava com vocação para magistrado, e acho até que tinha, porque uma coisa tem que reconhecer: no exercício da magistratura, foi um ícone de combate à corrupção, colocou atrás das grandes um dos maiores empresários da construção civil do país, um ex-presidente da República. Ninguém fica neste plano, se não tiver vocação. Ele se aventurou numa nova missão para a qual ele não estava preparado, talvez. Eu convivi com ele como líder (do DEM) e pude perceber que ele tinha determinada convicção e não estava pronto para o debate e, às vezes, não tinha capacidade de perceber como funciona o Parlamento, na base do diálogo - onde se tem que dar um passo atrás para dar dois à frente. No próprio exercício da magistratura, ele também ultrapassou às vezes o limite da legalidade como naquele episódio da divulgação do áudio da presidente Dilma com Lula a partir de um grampo que era ilegal. Ele tinha a capacidade de atuar no limite da legalidade e fazer e acontecer e ficar por isso mesmo, porque tinha o apoio da opinião pública e da imprensa. Quando ele foi para o Ministério, ele teve que lidar com outras situações e sofrer algumas derrotas. Foi um ganho o pacote, mas foi aperfeiçoado pelo Congresso, naquilo que tinha sincronia com a Constituiução.
P - Todos nós sabemos que o senhor é muito ligado ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Até que ponto essas divergências entre ele e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) são verdadeiras e podem prosperar?
R - Há divergências e eventuais diferenças em relação a uma coisa ou outra. Agora, o convívio entre eles é absoluto, até uma porta entre as residências da Câmara e do Senado foi aberta para que pudessem se comunicar com mais rapidez e facilidade. Têm um convívio quase diário e quando estão juntos, em 99% das vezes estão fechados, em uma ou outra questão têm divergências. Presidentes de duas Casas diferentes divergem, daí o sistema bi-cameral. O papel de cada presidente é coordenar o pensamento médio dos partidos por meio de seus líderes. Com a reforma da Previdência, houve um protagnosimo muito grande da Câmara e isso gerou um certo ciúme no Senado. Mas se eles não tivessem uma relação de amizade e parceria tão grande, poderia resultar numa crise entre as duas Casas.
P - O senhor considera que a aproximação do governo com o Centrão tira de Rodrigo Maia a chance de se reeleger presidente da Câmara?
R - Não tira. Agora, reeleger presidente já não posso trabalhar com uma hipótese que legalmente não existe. Não existe nem proposta. Então tenho que trabalhar com a hipótese de que ele não tem inelegibilidade. Mas no momento em que a gente trata de uma pandemia para remotamente votar uma proposta de emenda constitucional (para assegurar a reeleição) já é um pouco mais complicado. Quanto ao mérito, vota o que quiser, mas se priorizariam votações de relação direta com a recuperação da economia e de combate à pandemia e as Medidas Provisórias. Fora disso, tinha que a pauta ser consenso. Um tema como esse não seria consenso. Tramitação muito lenta, se propõe, tem que ter assinatura de um terço da Casa, depois tramita por comissão especial que tem prazo de 11 sessões para discutir o assunto, só depois faz uma votação em um turno com 308 votos, depois uma nova votação, iria ainda para outra Casa. Quando é um tema de consenso é mais fácil.
P - Rodrigo Maia tem atuado acertadamente no sentido de conter o estilo imperial do presidente, apesar de ser trucidado nas redes sociais e manifestações pró-governo. O país corre perigo se assumir a presidência da Câmara uma figura aliada incondicional do presidente?
R - Em primeiro lugar, alguém com este perfil chegar à presidência da Câmara é muito difícil. Presidente tem fiel a tudo o que ele pensa algo em torno de 50 a 70 deputados. Fora disso, mesmo no bloco do Centrão é majoritário que ninguém quer um perfil desse tipo e nem tem ninguém nesse perfil sendo cogitado. No centrão, não tem esse perfil para se dobrar para a vontade de quem quer seja.
P - Nem o Marcos Pereira (Republicanos), que é ligado à Igreja Evangélica e a Edir Macedo, apoiador do presidente?
R - De jeito nenhum. Ele é ligado à Igreja Universal, mas é um advogado, um político da melhor qualidade, além de baiano, tem uma carreira, e posso dizer que é um sujeito muito equilibrado.
P - O DEM tem condições de tentar manter o lugar de Rodrido Maia? E quem seria o melhor candidato?
R - Qualquer partido tem. Sempre no passado, quando você tinha menor quantidade de partidos com bancadas fortes, com em média cento e pouco deputados, a preferência, por conta da proporcionalidade, era que a maior bancada fizesse a presidência. Davi (Alcolumbre, que se elegeu presidente do Senado) quebrou isso. Mas como houve uma fragmentação do voto e das bancadas, não tem nenhuma muito grande. As maiores foram a do PSL e a do PT, mas nada como era no passado, de cento e tantos deputados. Então, você tem ali na Câmara algo em torno de 12 siglas de 30 a 50 deputados, depois vem o PT, em seguida o PL e o PP, com 40, e o menor com 30. Ninguém grande demais nem pequeno demais que esteja legitimado por isso. Rodrigo conseguiu construir uma aliança improvável que uniu no segundo turno um leque que permitiu sua eleição. Como hoje ninguém tem legitimidade partidária, aquele que conseguir reunir uma aliança como Rodrigo fez, que tenha credibilidade de construir, que dê equilíbrio e tranquilidade e no ritmo que Rodrigo vem dando, acho que se viabiliza. Nós saímos de uma situação de muita turbulência, a Câmara passou por aquele processo da condenação, prisão e cassação de Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara responsável pelo impeachment e depois cassado). Rodrigo demonstrou equilíbrio para superar aquilo e ser eleito. É preciso que as instituições dêem previsibilidade. É a marca com Rodrigo Maia. A sociedade sabe que não será surpreendente, terá uma agenda reformista, liberal, progressista, que não tem trazido instabilidade para o país. Dentre os 513 deputados já há a percepção de necessidade de um projeto de moderação. O presidente da Câmara tem a missão de coordenar os trabalhos e é o que Rodrigo tem feito.
P - Muitos falam que a aproximação com o Centrão livra Bolsonaro de um desses vários pedidos de impeachment que estão na Câmara. O senhor acha que o presidente pode sofrer um impedimento?
R - Acho que não. Até agora não vi configurados os elementos que esse tipo de pedido precisa para ir à frente. Nós estamos numa guerra, o mundo inteiro contra um inimigo comum que não dá para dispersar forças para abrir uma nova frente. Temos uma crise de saúde e econômica mundial e não dá para a gente aqui na província discutir isso. As instituições são fortes. Nos dois casos anteriores de impeachment, houve provas e mobilização popular. Hoje, tem mais gente que não gosta do presidente, mas ele tem uma parcela forte de apoio popular. Diferente de um (Fernando) Collor (de Mello), que se apresentou na campanha como o caçador de marajás, Bolsonaro não cometeu um estelionato. Tudo que ele defende hoje ele defendeu a vida toda. Eu votei nele no segundo turno porque achei que o PT já tinha dado o que tinha que que dar. E a eleição de Bolsonaro muito decorre da experiência do PT, das ferramentas utilizadas pelo PT. Mas ninguém votou desconhecendo o que ele era e pensava. É o mesmo cara que condenava homossexual, defendida corporações de servidores públicos, ligado às forças de segurança. Quem achou que ele ia mudar no poder, se enganou. Não tem nada mostrando que ele tenha sido uma pessoa no passado e se revelado outra na Presidência. Para evitar crises, no parlamentarismo há o voto de desconfiança, que é muito melhor para a sociedade quando a pessoa não tem condições de governar do que ir para o impeachment. Da mesma forma, quando um primeiro-ministro não tem condição de formar um governo de coalizão e não realize as condições de governar. O contrário também acontece, quando o Parlamento não oferece as condições de governar, tem que acontecer novas eleições parlamentares, por isso as pessoas não querem aprofundar a crise.
P - Nesta pandemia, prefeitos e governadores assumiram o monopólio do discurso de defesa da vida, enquanto o presidente permanece na batida de que é preciso salvar a economia. Quem tem chances de vencer esta batalha?
R - É claro que a defesa da vida. Bolsonaro peca muito por não saber se expressar. Aí faz uma defesa enfática da economia, porque ele persegue o contraditório. Se voce vai por um caminho, ele vai por outro, dobra e redobra a aposta. É claro que qualque gestor está precoupado em salvar vidas, mas de olho nas consequências do que vai acontecer com a economia. No mundo inteiro, países desenvolvidos, da Ásia, os EUA, com condições de usar sua poupança para investir e evitar o desemprego e o nosso país tem uma condição do ponto de vista econômico diferente, vinha de uma recessão profunda, fazendo as reformas para se recuperar. Aí é como aquele devedor contumaz que estava fazendo um refinanciamento e aparece uma situação de uma urgência médica. Então, você não tem mais crédito, usa o cheque especial, vai a um agiota, mas não vai deixar um parente morrer. O país vive uma crise gravíssima, não tem poupança, deve e estava lutando, agora tem que imprimir dinheiro, aumentar a dívida, entrar no cheque especial, vai tornar a recuperação mais lenta e difícil. Talvez o presidente esteja de olho e qualquer um sempre está de olho no calendário eleitoral e se havia uma dificuldade de fazer a economia rodar, de recuperação econômica que o faria se reeleger, esta possibilidade de recuperação é muitíssimo pequena. Se a história se repetir, quando a economia não vai bem é claro que ele por intuição sabe que não vai conseguir se manter e é difícil que qualquer um não esteja pensando nisso também. Agora, a prioridade total é salvar vidas. Não dá para ignorar o abismo econômico. Países saíram de terra arrasada, mas vamos ter a capacidade, se todo mundo fizer mais sacrifício ainda do que estava fazendo. Sociedade tem a legitimidade, prefeitos e governadores têm a capacidade de fazer coisas com transparência. Não dá para exigir mais sacrifício enquanto tem alguns privilegiados - tanto no setor público como no privado, marajás que ganham acima do teto, e também subsídios dados a determinados setores empresariais que precisam ser revistos e os bancos cada vez mais tendo maior lucro. Isso tem que ver como é que vai resolver. Não dá para ver a classe média achatada e ter gente rica. Não dá para exigir sacrifício de quem vive de Bolsa Família, BPC, 14 milhões de desempregados. Cada um vai ter que contribuir no nível em que pode, além de ter que mudar a cultura para ter que poupar. Se os números são drásticos - e o Brasil está ficando entre os principais - aqui serão mais fortes.
P - E Salvador, como encara? Bruno (Reis) é favorito?
R - Desde antes achava que a eleição em Salvador seria um plebiscito - sobre se as pessoas aprovam a maneira de ACM Neto governar a cidade. As pessoas começaram a diferenciar. Aqui ninguém vota em partido, mas na pessoa. Durante muito tempo em que o carlismo foi muito forte, se vendeu uma coisa de prefeito ser eleito aliado de governador e presidente para poder fazer um bom governo. Depois veio o PT, ganhou as eleições e nunca conseguiu fazer um prefeito, mesmo no auge da popularidade, aí o Neto conseguiu quebrar esse paradigma e mostrar com competência que Salvador tinha condições de andar com as próprias pernas. E aí as pessoas começaram a ver uma espécie de competição positiva que ajudava os dois grupos. As pessoas começaram a ver: vamos votar em quem está indo bem. Do ponto de vista da eleição estadual nos prejudica, mas da municipal nos favorece. E Bruno (Reis, atual vice e candidato a prefeito de ACM Neto) surfa sozinho, como uma pessoa que tem o apoio, a aprovação de Neto, com intervenções como um todo, com hoje uma aliança administrativa com o governo do Estado. Neste ponto, favorece quem está no poder e a falta da naturalidade de uma candidatura de oposição - (o deputado federal) Pastor Isidório faz um trabalho belíssimo em sua Fundação de apoio a drogados, mas ninguém tem condição de entregar sua casa a ele e é a pessoa que tem mais naturalidade no campo do governador. A eleição se define em primeiro turno. Salvador não quer voltar ao passado e vai querer a continuidade desse projeto liderado pelo Neto.
