Pandemia reduz em até 70% atendimento de infartos pelo país
Por Folha de S.Paulo
14/04/2020 às 08:33
Atualizado em 14/04/2020 às 08:33
Foto: Reprodução

A pandemia de coronavírus tem reduzido atendimentos cardiológicos de emergência em todo o país, especialmente os infartos e anginas instáveis, fenômeno também observado em países da Europa e nos Estados Unidos.
No caso das angioplastias primárias (desobstrução da artéria por meio de um balão e, depois, colocação de stent), a redução chega a 70%, segundo as sociedades brasileira e paulista de cardiologia.
No InCor (Instituto do Coração), a redução estimada das angioplastias primárias está em torno de 50%. A média mensal é de 40 casos; nesses primeiros 13 dias de abril, apenas 9 foram realizadas.
Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia Intervencionista também apontam diminuição de até 70% desses procedimentos em todo o país na primeira semana de abril.
A mortalidade por infarto chega a 50% —com a angioplastia, cai para 5%. A outra metade sobrevive, mas pode ficar com sequelas no coração, como a insuficiência cardíaca.
Ainda não dá dados consolidados e nem uma explicação única sobre essa diminuição. Entre as hipóteses estão desde a possibilidade de estar havendo de fato uma diminuição das ocorrências até, a mais plausível, que as pessoas estejam retardando a busca por socorro, o que pode agravar o quadro cardíaco ou causar morte repentina em casa.
“As pessoas não estão chegando às emergências, mas vão continuar morrendo de causas cardíacas. A Covid-19 é um fator complicador. O medo pode atrasar a busca por socorro ao mesmo tempo que essas 14 milhões de pessoas com doenças cardiovasculares têm risco maior de complicações por conta da infecção”, explica o cardiologista Marcelo Queiroga, presidente da SBC (Sociedade
Brasileira de Cardiologia).
A SBC acaba de lançar um serviço de telecardiologia em que médicos voluntários vão orientar pacientes virtualmente sobre as doenças cardiovasculares; por exemplo, se suspendem ou não certos medicamentos ou quando devem procurar o hospital.
Segundo Alvaro Avezum, diretor da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo), os relatos mostram que na Itália, Espanha, EUA e Reino Unido as unidades de emergências têm percebido redução de 20% a 70% no número de atendimentos de casos cardiovasculares.
A diminuição nos casos é mais intrigante ainda, considerando que é comum que nas temporadas gripais e de frio aumentem os casos de infarto. “Como poderia com a Covid-19 ter redução?”, questiona o especialista.
Uma das possibilidades, segundo ele, seria estar ocorrendo uma diminuição real dos casos. Home office, menos estresse associado ao trabalho (consequentemente, menos uso de cigarro), alimentação mais controlada e menos poluição poderiam ser fatores que diminuiriam os infarto, por exemplo.
Outra explicação possível, e talvez mais próxima do real motivo, é o medo. As pessoas, por um possível risco de infecção pelo novo coronavírus, estariam receosas de ir a serviços de pronto-atendimento.
“Nesse momento estamos especulando. É um achado que as pessoas estão observando. Agora precisamos traduzir o que foi observado para algo constatado e, para isso, é preciso um estudo.”
A cardiologista Gláucia Moraes de Oliveira, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), aposta no medo. “Mesmos os nossos doentes descompensados tentam postergar. A gente liga, e eles dizem que estão pouco melhor, ninguém está querendo ir para o hospital, só procuram quando estão muito mal.”
Alexandre Abizaid, chefe do setor de cardiologia intervencionista do InCor, também tem a mesma percepção. Afirma que as pessoas, especialmente as mais velhas, estão resistindo a procurar as emergências, temendo o contágio pelo coranavírus.
“Tivemos o caso de uma senhora que infartou em casa, esperou três dias, chegou ao hospital em situação terrível, com choque cardiogênico, e morreu”, conta o médico.
Ele explica que, mesmo que não morram na hora em razão do infarto, essas pessoas ficarão com sequelas, como falta de ar, inchaço nas pernas, sinais da insuficiência cardíaca.
“O risco de mortalidade por infarto é muito maior do que ir para o hospital e pegar coronavírus. No hospital, o paciente com suspeita de infarto tem um caminho totalmente distinto daquele com suspeita de síndrome gripal.”
