'Paneleiros' anti-Bolsonaro usam ato para extravasar em meio a quarentena
Por Folha de S.Paulo
29/03/2020 às 08:38
Atualizado em 29/03/2020 às 08:38
Foto: Alan Santos/PR

Os instrumentos começam a ser afinados depois das 20h. Uma batidinha aqui, uma cornetada ali. Logo se percebe o vaivém e o pisca-pisca de luzes em janelas e sacadas dos edifícios. Entre as 20h20 e 20h30, o alarido atinge o ápice: em uma espécie de catarse coletiva, as pessoas dão vazão aos sentimentos reprimidos durante o período de confinamento imposto pela necessidade de conter a disseminação do novo coronavírus.
Em meio à parafernália de panelas, buzinas, apitos e vuvuzelas, gritos expressam a polarização. De um lado —diga-se, bem mais sonoro—, "Fora, Bolsonaro genocida", "Bolsonaro vai cair", "Fora, atleta da morte" e "Bolsonaro irresponsável".
Do outro, "Mito", "Vai pra Venezuela", "Vai pra Cuba", "Vai trabalhar, vagabundo". Não para por aí. Brados em quantidade menor, embora mais radicais, exaltam a intervenção militar e a volta do AI-5, acompanhados de frases contra minorias.
Enclausurado por causa de medidas restritivas de combate à pandemia, Tarcisio D'Almeida, 47, professor do curso de design de moda da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tem adotado um ritual antes, durante e depois do panelaço.
Ao som de "O Canto da Cidade", canção em que Daniela Mercury entoa os versos "A cor dessa cidade sou eu/ O canto dessa cidade é meu", D'Almeida transformou a bateção de panelas num Carnaval temporão.
Festivo, coloca brincos e vai para a sacada do prédio onde fica quando está em São Paulo, na avenida São João, no centro, para gritar frases contra Jair Bolsonaro.
"É, antes de mais nada, uma manifestação de repúdio a esse desgoverno", avisa ele, eleitor do PT.
"A música e os adereços me ajudam a extravasar." Durante o panelaço, grava vídeos das manifestações na vizinhança. Dança, grita e, de novo, bate panela. No fim, corre para acompanhar a repercussão em redes sociais e na imprensa.
"Tem um ou outro que manda a gente calar a boca, tomar no c., essas grosserias de quem não tem argumento. Não há dúvida de que Bolsonaro está cada vez mais isolado. Principalmente depois do pronunciamento de terça [24], quando foi na contramão de órgãos de saúde e da tendência mundial de combate ao coronavírus", afirma D'Almeida. "O barulho só vai aumentar."
Quem dá início à barulheira é sempre o pessoal da esquerda, diz a professora de educação física Valéria Baub Santos, 55. "Depois entra a direita, mas logo a esquerda grita mais forte", diz, referindo-se aos panelaços na Vila Mariana, bairro onde vive, na zona sul de São Paulo. A voz dela, não nega, tem sido dissonante.
"Grito 'gente, vamos parar com isso. O coronavírus está acima de identidade política'", conta. "Cada um deveria colocar seu bichinho de estimação [referência aos candidatos] no bolso até a eleição. Vamos bater palmas para os profissionais de saúde, cantar nas janelas ou até mesmo fazer exercícios", sugere.
