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Guinada de Bolsonaro em pandemia se deu por medo de perder empresários e redes sociais

Guinada de Bolsonaro em pandemia se deu por medo de perder empresários e redes sociais

Por Folha de S.Paulo

29/03/2020 às 07:36

Atualizado em 29/03/2020 às 07:36

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Jair Bolsonaro

A guinada dada por Jair Bolsonaro diante da pandemia do coronavírus foi gerada pelo receio de perder apoio do setor empresarial e de trabalhadores autônomos, pilares de sustentação de seu mandato.

O presidente começou a semana passada sinalizando uma trégua no embate com governos estaduais.

No entanto, após ligações e vídeos de empresários e trabalhadores com queixas dos prejuízos com a política de isolamento, e da pressão em suas redes sociais, Bolsonaro radicalizou o discurso.

O flerte inicial com uma fala moderada foi costurado pela cúpula militar, em especial os ministros da Casa Civil, Walter Braga Netto, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. Foi este último, por exemplo, quem marcou com os governadores conversas por teleconferência com o presidente, em um esforço de abrir um canal de diálogo.

A estratégia parecia ter sido bem-sucedida e recebera elogios até de deputados bolsonaristas, para os quais o momento era de baixar as armas e construir uma solução.

A cúpula militar, no entanto, não esperava o movimento casado dos filhos do presidente com o setor empresarial.

Desde o início da semana, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) vinha dialogando com empresários insatisfeitos com as medidas de isolamento adotadas nos estados.

As reclamações, segundo assessores palacianos, vinham sobretudo dos setores de varejo, logístico e agropecuário. Eles ameaçavam demitir se o resguardo se prolongasse.

Flávio fez chegar as reclamações ao pai. O recado implícito era o de que, caso Bolsonaro não se posicionasse ao lado do setor produtivo, ele corria o risco de perder o apoio de boa parcela dos empresários.

A pressão sobre o presidente foi feita por meio de uma enxurrada de ligações e vídeos de empresários e trabalhadores reclamando das consequências das restrições.

As queixas chegaram também pelas redes sociais, terreno que sensibiliza Bolsonaro.

Em um dos vídeos, caminhoneiros reclamavam de não ter comida na estrada porque os estabelecimentos estavam fechados. Diziam que seriam obrigados a voltar para casa.

Em outra peça, agricultores aparecem em feiras jogando no chão legumes e frutas.

“Todos os restaurantes estão fechados e não tem o que fazer”, diz um feirante no vídeo.

Em paralelo, o gabinete digital da Presidência, sob a influência do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), constatou que o discurso ameno do presidente causou uma desmobilização de perfis de direita nas redes sociais, que passaram a defender menos o governo de ataques da esquerda.

A avaliação foi a de que, diante do clima de animosidade, era hora de orientar a militância digital apontando inimigos, no caso a imprensa e os governadores, mobilizando os eleitores fiéis a responderem às críticas contra o presidente.

A mudança de postura foi definida em uma reunião na tarde de terça (24), no Palácio do Planalto. No encontro, que teve as participações tanto de Flávio como de Carlos, o presidente começou a delinear o discurso que faria em rede nacional naquela noite. Nele, rompeu a linha da conciliação.

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