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Voto de Rosa Weber é mistério em julgamento do Supremo sobre 2ª instância

Voto de Rosa Weber é mistério em julgamento do Supremo sobre 2ª instância

Por Folha de S.Paulo

24/10/2019 às 06:54

Atualizado em 24/10/2019 às 06:54

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Rosa Weber

O julgamento do Supremo Tribunal Federal para avaliar a possibilidade de prisão de condenados em segunda instância será retomado na tarde desta quinta-feira (24) com a expectativa do voto da ministra Rosa Weber.

A sessão de quarta (23) foi interrompida com placar parcial de 3 a 1 a favor da execução da pena nessa etapa —antes de esgotados os recursos nos tribunais superiores. A posição de Rosa é tida por colegas como a mais imprevisível dentre os 7 ministros que ainda faltam votar.

Os quatro ministros que já votaram (Marco Aurélio contra a prisão após 2ª instância; Alexandre de Moraes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso, a favor) mantiveram as posições que adotaram nas outras vezes em que a controvérsia foi abordada no STF.

Primeira a votar na retomada do julgamento nesta quinta, Rosa Weber sempre foi contra a prisão em segunda instância, mas, em 2018, votou por negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula. Na ocasião, argumentou que era preciso respeitar a orientação da maioria do colegiado, que autorizara, num julgamento anterior, a execução provisória da pena.

Rosa afirmou na época que se curvava à jurisprudência, que não deve ser mudada de tempos em tempos, mas registrou que sua convicção pessoal era no sentido de esperar o trânsito em julgado.

Além dela, ainda deverão votar Luiz Fux, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Celso de Mello e o presidente da corte, Dias Toffoli. Os quatro últimos votaram contra a prisão de condenados em segunda instância no julgamento de 2018, que envolvia Lula.

Nesta quarta, a Procuradoria-Geral da República e a Advocacia-Geral da União fizeram seus últimos apelos e destacaram os direitos das vítimas para tentar convencer os ministros do STF a manter a jurisprudência atual e continuar permitindo a prisão de condenados em segunda instância.

Augusto Aras, procurador-geral da República nomeado há menos de dois meses pelo presidente Jair Bolsonaro, e André Mendonça, advogado-geral da União que representou a posição do governo federal na tribuna, defenderam que a corte precisa buscar equilibrar os direitos dos acusados de responderem em liberdade com os direitos das vítimas, que clamam por uma Justiça célere.

O relator das ações, ministro Marco Aurélio, defendeu que se esperem todos os recursos antes de prender um condenado por avaliar que essa é uma ordem clara na Constituição, que diz em seu artigo 5º que ninguém será considerado culpado antes de sentença condenatória transitada em julgado.

“A determinação constitucional não surge desprovida de fundamento. Coloca-se o trânsito em julgado como marco seguro para a severa limitação da liberdade, ante a possibilidade de reversão ou atenuação da condenação nas instâncias superiores [STF ou STJ, o Superior Tribunal de Justiça]”, disse.

Moraes, Fachin e Barroso divergiram do relator, entendendo que a execução antecipada da pena não fere o princípio constitucional da presunção da inocência expresso no artigo 5º.

Barroso buscou, por uma hora e meia, rebater os argumentos dos colegas que são favoráveis ao trânsito em julgado.

Ele apresentou números sobre encarceramento que solicitou ao Depen (Departamento Penitenciário Nacional), ligado ao ministro Ministério da Justiça.

Segundo esses dados, diferentemente do que se imaginava, o número total de presos no sistema prisional (incluindo provisórios e condenados) aumentou no período de 2009 a 2016, quando o Supremo proibiu a prisão em segunda instância, e diminuiu a partir de 2017, quando passou a permiti-la.

“[Uma hipótese é que] Os tribunais passaram a ser mais parcimoniosos na decretação de prisão, portanto, a mudança de jurisprudência não prejudicou os réus, favoreceu os réus”, disse Barroso, ponderando que os dados ainda merecem análise mais aprofundada.

Barroso também contrariou os argumentos de advogados criminalistas e defensores públicos de que a prisão em segunda instância prejudica os mais pobres.

“A imprensa divulgou alguns dos beneficiários mais notórios, condenados por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. Pobre não corrompe, não desvia dinheiro público nem lava dinheiro. Não é de pobre que estamos tratando aqui", disse.

“A presunção da inocência é muito importante, mas o interesse da sociedade num sistema penal eficiente também é muito importante”, afirmou Barroso, concordando com os apelos da PGR e da AGU.

Moraes afirmou em seu voto que a segunda instância é a última que analisa as provas de um processo criminal, e a partir dela já se pode afastar a presunção de inocência prevista na Constituição. Os tribunais superiores não reexaminam provas, mas discutem teses jurídicas.

“O juízo de consistência, realizado pelo órgão colegiado, juízo natural de segundo grau, afasta, no tocante à possibilidade de prisão, a presunção de inocência. Porque há uma decisão colegiada escrita, fundamentada, reconhecendo a materialidade e a autoria do delito. Autoriza, portanto, a execução da pena”, disse.

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