10 de abril de 2017, 08:00

COLUNISTAS Horário

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Sempre achei curioso o habito nacional de não cumprir horário. Marcamos compromissos já contando que uma porção significativa dos participantes não estará presente na hora que foi determinada para o inicio da atividade e assim, damos um tolerância para os atrasados. Aliás, em alguns lugares a regra de etiqueta parece ser a de favorecer, esperar pelos que se atrasam. Noiva atrasa, reuniões atrasam. Em muitos serviços públicos e privados horário marcado é uma, referência. A coisa acontece mais ou menos por volta de…

Em aulas da universidade acontece um fenômeno curiosíssimo. Se a aula esta marcada para começar às oito, parte dos alunos somente se fará presente às 8:30…Culpa do trânsito, do ônibus, da festa de largo, do cachorro do vizinho, do gato de estimação que ficou doente, da distancia de casa ate a universidade. Diante dessas dificuldades, o horário é ajustado para 8:30 resolvendo, em tese, as barreiras existentes. Mas para supresa dos que acreditam em gnomos, os atrasos persistem na mesma proporção do horário original com as mesmas desculpas. Em reuniões a dinâmica é mais ou menos a mesma: vamos esperar pelos atrasados.Só mais quinze ou vinte minutos e começamos….

Em alguma lojas com serviço de entrega a domicílio a dificuldade de marcar e cumprir horário chega ao extremo. ˜Seu móvel será entregue na quarta feira˜. Tem alguma previsão de hora? Em horário comercial…..Previsão de turno, pelo menos? Sr., não temos como prever, será entregue em horário comercial….Mas eu moro sozinho e trabalho. Não posso passar o dia todo em casa esperando por algo que não sei que horas chegará….!!!! Será entregue em horário comercial….

E noiva em casamento? Igreja quente, barulhenta, horários inconvenientes…E cadê a noiva? Está atrasada porque demorou para se arrumar. Mas como isso é possível? O casamento é às 20h e a noiva está no salão desde às oito da manhã….Mas hoje é o dia dela e devemos todos ficar plantados esperando que a princesa dar o ar da sua graça.

Bem, como de costume, não descarto o fato de que estou ficando rabugento ou intolerante. Ou ambos. Ou talvez já o seja e não tenha me dado conta disso. Mas na minha opinião todas essas situações se configuram como comportamentos de absoluto desrespeito que só acontecem porque são acolhidos pela sociedade, mas que, de fato, não deveriam ser aceitos e muito menos incentivados. O atraso como fortuito, como acaso, acontece e nem sempre pode ser evitado. Entretanto, não é esse o caso do atraso como padrão decorre de falta de planejamento, educação e respeito.

Quando aceitamos adiar o inicio de uma reunião por 15-20 minutos enquanto esperamos os atrasados, estamos dizendo aos que chegaram na hora marcada que eles não são importantes e que seu esforço de se fazerem presentes como combinado de nada vale. Os que se atrasam acabam sendo beneficiados, não perdem informações ou a reunião é interrompida para que eles sejam atualizados recebendo, dessa forma, incentivos que aumentam a probabilidade de que esse padrão de comportamento será mantido em outras ocasiões. A noiva que sai para o salão de manhã e que de noite não está pronta, só encontra igreja cheia porque o padre aceita ficar plantado e porque os súditos não podem contrariar a realeza, ainda que estejam todos reclamando da falta de respeito. A linguagem, o comportamento e a encenação parecem expressar uma saudade atávica de uma sociedade imperial, altamente estratificada e hierarquizada, onde o poder se manifesta no fazer o outro esperar.

O curioso é que nas situações onde impera a lei como regra para todos estes comportamentos tem mais dificuldade de prosperar. O exercício do poder como controle do tempo tem expressão mínima, uma vez que nada justifica o atraso sistemático. Horário é para ser cumprido

22 de março de 2017, 08:30

COLUNISTAS Teorias da Conspiração

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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O avião que conduzia o ministro Teori nem bem havia afundado nas águas de Paraty e a internet já havia sido inundada por diversas versões sobre o acidente, quase todas apontando para um atentado com o objetivo de barrar as investigações e as delações que estavam para ser homologadas. Tinha culpado para todos os gostos e correntes, além de inúmeros relatos sobre equipamentos de vigilância subtraídos, controladores de voo desaparecidos e por aí vai. As teorias da conspiração correram soltas! Agora com a Operação Carne Fraca, a internet volta a ser inundada com postagens afirmando que as cenas explícitas de corrupção que assistimos na verdade fazem parte de um plano dos ianques para nos subjugar, já que setores importantes da economia estão sendo atingidos.

O que caracteriza uma Teoria da Conspiração? Pode-se dizer que elas se configuram como fenômeno cultural significativo que existe desde sempre, mas que tem sido embalado pela expansão das mídias sociais. As obras de Dan Brown são um exemplo de como essa ideia sobre forças poderosas atuando para influenciar os destinos captura a imaginação e ajuda a vender livros e filmes. Outros exemplos clássicos são as estórias em torno da área 51, em Roswell (EUA), que guardariam segredos alienígenas; e o atentado às Torres Gêmeas em 11/09/2001, que teria sido orquestrado pela CIA para justificar a guerra contra o terror. Assunto e exemplos não faltam!

Da perspectiva da Psicologia, e de modo bastante sintético, as teorias da conspiração podem ser compreendidas como crenças explicativas sobre a ação conjunta de atores distintos, normalmente poderosos e atuando em segredo, com o objetivo de atingir algum objetivo ilegal ou malévolo! Posto com outras palavras, elas são uma forma de racionalização de um evento social complexo do mundo real para o qual não temos explicação. Não deixa de ser curioso observar que as teorias da conspiração são extremamente difíceis de serem afastadas, mesmo quando as evidências disponíveis apontam em direção contrária. É como se novas camadas de conspiração fossem acrescidas no topo das anteriores como forma de racionalização da crença a cada nova evidência de desconfirmação.

Ainda que o conteúdo das teorias conspiratórias possa variar enormemente, o processo psicológico subjacente a essa crença é razoavelmente constante e tem sido associado ao desejo humano de produzir sentido sobre o mundo social. Essa necessidade está fortemente relacionada com extensão do controle percebido sobre o ambiente ou sobre a ordem social. Ou seja, quanto menor for a força das pessoas para influenciar o ambiente público e quanto menor for sua capacidade de ser ouvido sobre eventos sociais estressantes, maior será a crença em teorias da conspiração. Evidências empíricas sugerem que crenças conspiratórias também estão associadas a problemas de saúde, redução das virtudes cívicas, hostilidade e radicalização social. Isso ajuda a explicar porque as teorias da conspiração ganham força quando o evento social impactante é percebido como uma ameaça à vida e à ordem social que foge ao controle por parte dos cidadãos.

Elas se constituem em um sistema de crenças autoalimentado. Uma crença conspiratória reforça a crença em outras ideias conspiratórias, de modo que uma pessoa que acredita em uma conspiração qualquer tem maior probabilidade de acreditar em outras teorias conspiratórias. Alguns estudiosos do tema chegam a afirmar que a natureza dessa forma de crença sugere um método sistemático de processamento de informação que conduz a essa visão de fenômenos ameaçadores da vida social como produto de forças do mal.

Sendo as teorias da conspiração potencializadas por esta combinação de impotência social e internet, o futuro próximo não parece muito animador.

20 de março de 2017, 12:17

COLUNISTAS Teorias da Conspiração

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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O avião que conduzia o ministro Teori nem bem havia afundado nas águas de Paraty e a internet já havia sido inundada por diversas versões sobre o acidente, quase todas apontando para um atentado com o objetivo de barrar as investigações e as delações que estavam para ser homologadas. Tinha culpado para todos os gostos e correntes, além de inúmeros relatos sobre equipamentos de vigilância subtraídos, controladores de voo desaparecidos e por aí vai. As teorias da conspiração correram soltas! Agora com a Operação Carne Fraca, a internet volta a ser inundada com postagens afirmando que as cenas explícitas de corrupção que assistimos na verdade fazem parte de um plano dos ianques para nos subjugar, já que setores importantes da economia estão sendo atingidos.

O que caracteriza uma Teoria da Conspiração? Pode-se dizer que elas se configuram como fenômeno cultural significativo que existe desde sempre, mas que tem sido embalado pela expansão das mídias sociais. As obras de Dan Brown são um exemplo de como essa ideia sobre forças poderosas atuando para influenciar os destinos captura a imaginação e ajuda a vender livros e filmes. Outros exemplos clássicos são as estórias em torno da área 51, em Roswell (EUA), que guardariam segredos alienígenas; e o atentado às Torres Gêmeas em 11/09/2001, que teria sido orquestrado pela CIA para justificar a guerra contra o terror. Assunto e exemplos não faltam!

Da perspectiva da Psicologia, e de modo bastante sintético, as teorias da conspiração podem ser compreendidas como crenças explicativas sobre a ação conjunta de atores distintos, normalmente poderosos e atuando em segredo, com o objetivo de atingir algum objetivo ilegal ou malévolo! Posto com outras palavras, elas são uma forma de racionalização de um evento social complexo do mundo real para o qual não temos explicação. Não deixa de ser curioso observar que as teorias da conspiração são extremamente difíceis de serem afastadas, mesmo quando as evidências disponíveis apontam em direção contrária. É como se novas camadas de conspiração fossem acrescidas no topo das anteriores como forma de racionalização da crença a cada nova evidência de desconfirmação.

Ainda que o conteúdo das teorias conspiratórias possa variar enormemente, o processo psicológico subjacente a essa crença é razoavelmente constante e tem sido associado ao desejo humano de produzir sentido sobre o mundo social. Essa necessidade está fortemente relacionada com extensão do controle percebido sobre o ambiente ou sobre a ordem social. Ou seja, quanto menor for a força das pessoas para influenciar o ambiente público e quanto menor for sua capacidade de ser ouvido sobre eventos sociais estressantes, maior será a crença em teorias da conspiração. Evidências empíricas sugerem que crenças conspiratórias também estão associadas a problemas de saúde, redução das virtudes cívicas, hostilidade e radicalização social. Isso ajuda a explicar porque as teorias da conspiração ganham força quando o evento social impactante é percebido como uma ameaça à vida e à ordem social que foge ao controle por parte dos cidadãos.

Elas se constituem em um sistema de crenças autoalimentado. Uma crença conspiratória reforça a crença em outras ideias conspiratórias, de modo que uma pessoa que acredita em uma conspiração qualquer tem maior probabilidade de acreditar em outras teorias conspiratórias. Alguns estudiosos do tema chegam a afirmar que a natureza dessa forma de crença sugere um método sistemático de processamento de informação que conduz a essa visão de fenômenos ameaçadores da vida social como produto de forças do mal.

Sendo as teorias da conspiração potencializadas por esta combinação de impotência social e internet, o futuro próximo não parece muito animador.

23 de fevereiro de 2017, 15:51

COLUNISTAS Gerações no Trabalho

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Muito se tem falado sobre diferentes gerações convivendo lado a lado no ambiente de trabalho e dos conflitos que emergem em função das distintas características e expectativas de cada um desses grupos. O interesse no tema tem múltiplas origens: se de um lado temos a busca pelo melhor conjunto de competências que atendam aos interesses atuais e futuros da organização, o que em algum momento envolve o domínio de tecnologias digitais normalmente associadas aos mais jovens, do outro lado temos o aumento generalizado de expectativa de vida, o que tem levado as pessoas a permanecerem no trabalho até uma idade mais avançada.

Muito da literatura gerencial sobre o tema se constrói sobre a ideia de que características e comportamentos deum grupo de trabalhadores podem ser derivados da sua idade. Assim, teríamos os Baby Boomers, que nascem no período que se segue à Segunda Guerra Mundial até meados dos anos sessenta e que seriam caracterizados como hard workers  e mais tradicionalistas; temos a geração X, para os nascidos entre 1965 até o final do anos setenta, vistos como mais independentes e céticos, mas espremidos entre trabalhadores mais velho que não se aposentam e trabalhadores mais novos sobrevalorizados. No início dos anos 80 até os anos 2000 encontramos a geração Y, também conhecida como a geração do milênio. Suas características básicas seriam uma maior valorização da qualidade de vida no ambiente de trabalho e a busca por trabalhos em grupo, multitarefas sendo orientados a resultado. Essa é a primeira geração nascida dentro da tecnologia digital. E agora temos a geração Z, que nasce após os anos 2000 e que estão totalmente conectadas em tecnologias de comunicação e redes sociais, mas cujas principais características ainda não se encontram claramente definidas.

É preciso ter em vista que essas classificações geracionais são, na verdade, generalizações e estereótipos utilizados como forma de compreensão de padrões e tendências gerais que não devem ser levadas muito a sério nem reforçadas. Isso significa que não é possível se utilizar dessas características gerais como forma de compreensão de casos específicos. Ou seja, o fato de você ter nascido na chamada geração Y, não quer dizer que você necessariamente terá as características e comportamentos que são apontadas para este grupo no ambiente de trabalho.

Por outro lado, isso não significa que não existam tensões geracionais no ambiente de trabalho. Durante muito tempo a expectativa era a de que o chefe fosse mais velho, mais experiente, do que um subordinado. Essa não é mais a expectativa atual. Em ambientes intensivos de conhecimento e com elevado domínio de tecnologia é comum termos pessoas mais jovens em posições gerenciais com autoridade sobre trabalhadores mais velhos. Diferentes idades normalmente ancoram distintas expectativas em função de experiências e contexto educacionais diversos. Entretanto, isso não significa que a visão de um grupo específico seja necessariamente melhor ou superior em relação a outro grupo.

É importante valorizar e estimular o relacionamento e as parcerias de trabalho entre pessoas com idades e visões de mundo distintas. Isso seguramente ampliará a criatividade e o leque de soluções disponíveis para a organização, ao mesmo tempo em que favorecerá a transmissão de conhecimento entre os diversos grupos com benefícios generalizados tanto para os trabalhadores quanto para a organização.

Mas nesta quinta feira de carnaval isso tudo é bobagem. Ninguém está nem aí para isso…

10 de fevereiro de 2017, 09:14

COLUNISTAS Gestão dos Afetos

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Não há nenhuma duvida de que o objetivo primário de toda organização é o de atingir, ou mesmo superar, os resultados esperados, seja lá como for que eles são definidos. No campo da gestão essa importância se expressa na grande ênfase que se dá tanto na definição do seja desempenho, quanto nas formas de mensurá-lo. Para os não iniciados, esse pode parecer um debate escolástico, mas acreditem, não o é. O resultado financeiro de uma organização nos parece ser uma expressão bastante razoável e óbvia do que seja desempenho, mas essa clareza se dissipa quando voltamos nosso olhar para o trabalhador e fazemos a mesma pergunta: o que é desempenho?  A definição mais comum aponta para comportamentos ou ações que impactam diretamente o processo de transformação de insumos e materias-primas em bens ou serviços. Ou posto de outra forma, desempenho é realizar aquilo para o qual você foi contratado para fazer.

Entretanto, existe um aspecto do desempenho que recebe comparativamente pouca atenção, mas que a cada dia mais acredito que ele seja fundamental para realização dos objetivos organizacionais, independentemente do setor da economia e da atividade sendo realizada. É aquilo que chamamos de desempenho contextual, um conjunto de comportamentos discricionários do trabalhador, ele faz se quiser, ele não foi contratado ou é remunerado por isso, mas que contribuem para a criação e manutenção de um ambiente de trabalho mais agradável e saudável do ponto de vista social e psicológico. Ele se refere a coisas como tratar colegas com simpatia e atenção, ser educado na relação com os demais, demonstrar entusiasmo na realização de suas tarefas, seguir normas e regras de comportamento, ter espírito esportivo, levar as coisas na boa e com tranquilidade.

Olhando de perto, estas dimensões do desempenho contextual tem seu foco principal no indivíduo. Elas podem ser utilizadas como insumo para guiar o processo de seleção ou de desenvolvimento de pessoas na organizacião, mas isso não responde à questão fundamental para todo gestor: como posso lidar com isso no meu dia a dia? Qual seria o caminho para construir e desenvolver um ambiente de trabalho que tenha tais caracerísitcas e que dessa forma impulsione o desempenho no trabalho? Creio que nessa hora é que entra em questão a gestão do afeto.

Quando colocamos nossa atenção sobre o afeto no ambiente de trabalho, isso significa que prestamos atenção no link entre elementos internos do indivíduo, tais como cognições, emoções e estados mentais, e a forma como ele reage a eventos do ambiente de tabalho. A conclusão aqui é simples, somos serem emocionais e não apenas racionais como pressuposto da maioria das teorias tardicionais de gestão. Esse destaque ao afeto pode ser percebido de diversas formas como, por exemplo, na satisfação no trabalho, conceituado por alguns autores como uma reação afetiva a uma comparação feita pelo trabalhador entre o resulado obtido pelo seu trabalho e aquele desejado.

Gerir afetos signifca cuidar das pessoas. Prestar atenção aos seus sentimentos, às suas idéias. Gerir afetos signifca ouvir a opinião do outro na reunião, signifca dar um feedback honesto e sincero sobre um trabalho realizado, signifca que as relações de trabalho não precisam ser de amizade, mas precisam ser humanas. Cuidar dos afetos signica solidariedade. Signifca que as trocas no trabalho não devem ser diretamente contabilizadas e pesadas onde só dou se tiver recebido exatamente o mesmo que dei. Gerir afetos signifca construir um ambiente de trabalho saudável, agradável. Gerir afetos significa que as competência de relacionamento interpessoal são as mais importantes para o gestor. Afinal, passamos boa parte de nossos dias no trabalho e aquilo que ai acontece impacta diretamente sobre nossas vidas, sobre a forma como nos relacionamos com outras pessoas e sobre a forma como desempenhamos nossas atividades de trabalho.

Não estou dizendo que gerir afetos é algo simples, muito menos que sei como fazer isso. Contudo, a experiência vai mostrando que o caminho é por aí.

16 de janeiro de 2017, 12:04

COLUNISTAS Não adianta

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Se 2016 foi o ano que insistia em não terminar, talvez 2017 venha a ser lembrado como o ano que já começou velho. Não que o anoitecer ou a alvorada por si mesmos tenham o condão de modificar a realidade concreta, mas o ano novo ainda costuma ser visto como um marco para uma mudança de ciclo. Nós meio que mantivemos os mesmos rituais característicos das sociedades agrárias que nos precederam e acreditamos na renovação periódica da vida social de forma análoga à renovação da vida dos ciclos naturais. Seguimos repetindo os mesmos comportamentos supersticiosos na esperança de que um dia os resultados sejam diferentes. Assim, 2017 começa gritando que nossos problemas não foram levados embora pelas águas do mar junto com as flores brancas no ano novo e nem foram lavados pelo perfume de lavanda…

Não precisa muito esforço para percebermos os temas que nos afligem são os mesmos que estão postos desde sempre, sem que tenhamos sido capazes de produzir alternativas viáveis para sua superação. Há quanto tempo vivemos uma crise do modelo de segurança publica? Quem se lembra de quando começou a crise do nosso sistema político? Existe registro de algum momento no qual o transporte público tenha sido eficiente? E a crise da educação, oferecida como a mãe de todas as soluções para os problemas que nos atingem, quando ela começou? Mesmo quando respostas ou avanços são dados, eles acontecem em ritmo menor do que o de outros países em situação semelhante à nossa ou em magnitude inferior à de nossas necessidades.

No início de dezembro a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD) divulgou o resultado do mais recente período de avaliação do PISA (2015), acrônimo em inglês para seu programa internacional para avaliação de estudantes. Os resultados representam o desempenho de 29 milhões de estudantes, de quinze anos de idade, oriundos de 72 países diferentes, nas áreas de ciências, leitura, matemática e solução cooperativa de problemas. O relatório básico tem apenas 16 páginas disponíveis em inglês, Francês e Espanhol. Há ainda uma versão com uma avaliação específica sobre o Brasil, em Português. Vale a leitura.

Para não ir muito longe, ainda que o grau de escolarização dos jovens de 15 anos tenha aumentado, o desempenho dos alunos no Brasil está abaixo da média dos alunos em países da OCDE em ciências (401 pontos, comparados à média de 493 pontos), em leitura (407 pontos, comparados à média de 493 points) e em matemática (377 pontos, comparados à média de 490 pontos). Em ciências não temos avanços desde 2006 e em leitura paramos no ano 2000. A análise social desses números é obvia, nossos resultados expressam a pobreza e a desigualdade do país. Entretanto, esses números também podem ter uma leitura gerencial/econômica que é menos direta para os não iniciados, ainda que o sentido seja o mesmo da análise social. Ou seja, somos incapazes de competir em mercados globais porque o nível de produtividade de nossa força de trabalho é muito baixo. No seu conjunto ela é incapaz de desenvolver atividades de alto valor agregado que normalmente são intensivas de conhecimento. E isso nos coloca em um ciclo pouco virtuoso, baixa qualificação, trabalho manuais/primários, baixa remuneração=pobreza…  Entra ano, sai ano e não rompemos esse ciclo. E não adianta jogar rosa para Iemanjá nem lavar a casa do Senhor do Bonfim.

12 de dezembro de 2016, 09:25

COLUNISTAS No mesmo barco

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Quando comecei a escrever este texto me peguei pensando longamente sobre qual a expressão que melhor capturaria o momento em que vivemos. Comecei com tempestade perfeita, refletindo a conjunção de favores contextuais extremamente negativos que enfrentamos. De um lado seguimos em depressão econômica sem perspectivas claras de melhora da atividade econômica nos próximos meses. Quem acha que o desemprego está em níveis elevados, ainda não se deu conta de que as projeções mais otimistas apontam um crescimento da massa de desempregados em mais dois milhões de pessoas.

Aprofundando um pouco mais a reflexão cheguei à conclusão de que na verdade a vaca foi para o brejo expressa melhor a atual situação em que nos encontramos. No plano político o quadro não o poderia ser pior. À crise econômica se junta uma crise política de amplitude e magnitude nuncaantesvistanahistoriadestepais. Como se já não bastasse termos um governo de transição que já nasceu na defensiva midiática e com uma agenda de reformas fortemente impopular, ele  agora está ferido de morte no rastro das denúncias apocalípticas da Odebrecht. Aliás, a delação da empreiteira levará de roldão todo o governo, seus aliados e a parte da oposição que ainda não está presa. O quadro sugere uma total desorganização do nosso já degenerado sistema politico, que dá seus últimos sinais de vida.

Ja no plano social parece que impera um misto de perplexidade, diante dos desdobramentos de uma crise que parece não ter fim, e imobilismo, diante da patente falta de alternativas viáveis. A única agenda que mostra algum grau de consenso é o combate à corrupção encarnado na lava a jato, mas isso é insuficiente como projeto de pais. Nossos intelectuais ainda não conseguiram formular uma agenda mínima de consenso que combine crescimento econômico e desenvolvimento social. Tem-se a impressão de que estamos no mato sem cachorro!

Alguns enxergam no judiciário uma bóia de salvação. Isso porque ainda não acordamos para o fato de que a corrupção é endêmica em nossa sociedade. O próprio judiciário, como parte desta sociedade, é extremamente corrupto, fisiológico, corporativo e patrimonialista. Quem não se lembra das palavras da ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça quando se referiu aos bandidos de toga? Casa de ferreiro, esperto de pau! Será que alguém imagina que as empreiteiras não têm interesses em disputa no judiciário? Que elas teriam algum tipo de escrúpulo específico na relação a pagar propina aos juízes e desembargadores? Ou será que os membros do poder judiciário são feitos de algum tipo de DNA distinto dos demais brasileiros, vivem em um mundo a parte ou são diretamente escolhidas pelo divino espírito santo para sua missão de julgar pairando impolutos acima do bem e do mal? No popular, tamo lascados!!!!!

Agora não adianta chorar pelo leite derramado, Inês é morta. Parece-me que a esta altura do campeonato o mais sensato é buscar construir pontes e consensos mínimos em torno de uma agenda que nos permita superar a profunda crise que atravessamos. Precisamos evitar falsas soluções que privilegiem grupos e interesses corporativos específicos, precisamos a todo custo fugir da lógica do é tempo de muruci, cada um por sí! No final das contas, creio que a melhor expressão é aquela que diz: o pau que dá em Chico dá em Francisco. Estamos todos no mesmo barco. Se ele afundar ninguém se salvará.

1 de novembro de 2016, 08:00

COLUNISTAS Do mesmo jeito

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Da janela do meu hotel observo o movimento nas barracas que se espalham no calçadão em frente. Todo dia é a mesma rotina. À medida que se aproxima o por do sol o movimento vai aumentado. Aos poucos, cada barraca vai sendo cuidadosamente desempacotada e arrumada. Não da para contar quantas são…centenas com certeza! A noite avança lentamente e os turistas vão chegando aos montes, e logo a feira de artesanato da beira mar fervilha de gente.

Apesar do movimento tenho a impressão de que os turistas mais passeiam do que compram.  Pode ser a crise com seus orçamentos limitados, mas fico com a impressão de que a própria feira não ajuda. Resolvo descer e me juntar à multidão. Vou passeando pelos corredores e minha impressão vai tomando forma, ficando cada vez mais clara. Apesar do forte apelo turístico não há  nada de interessante na feira, alem do passeio ou da distração em si mesma, o estar ali, ver as pessoas e o movimento.

Não me entendam mal. Essa é uma “atividade obrigatória” para qualquer pessoa que visite a cidade. Entretanto, após mais de uma hora zigzagueando pelas barracas não encontrei um mísero objeto que atraísse minha atenção. A razão é simples: a feira de artesanato é absolutamente igual a toda e qualquer feira de artesanato que existe no país. Não ha nada de diferente. Nem os produtos ditos locais são diferentes. Eles apenas recebem o nome da cidade, mas podem ser encontrados em qualquer canto do Brasil.

O mix de produtos é padrão: camisas de malhas com dizeres engraçados ou parodias de marcas famosas; artesanato local produzido aos milhões na China; castanhas e doces que podem ser encontrados na prateleiras de qualquer supermercado meia boca do país; as mesmas bijuterias de qualquer lugar; os mesmo bonecos de lampião, da Maria bonita e da namoradeira na janela….Nada, nada genuinamente local, nada tem um design próprio, nada incorpora a cor ou o sabor característico da região. Nada que grite ao turista – gaste seu dinheiro aqui, gaste seu dinheiro!!!!!! Você pode até ficar tentado a comprar uns imãs de geladeira, uns panos de prato, alguns espelhinhos e uma ou outra miçanga. Você poderá eventualmente ser enrolado por um artista local que usa um monte de clichês e chavões para tentar mostrar que existe algum tipo de arte ou craft naquilo que ele faz. Nada de qualidade. Tudo barato…

Vinte e duas horas. No mesmo ritmo lento do início da noite as barracas vão sendo fechadas, os produtos guardamos, os turistas vão se dispersando. Do alto, é fácil perceber a transformação, as luzes vão diminuindo, o plástico substitui as cores…Amanhã a feira renascerá. As mesmas barracas, os mesmos produtos e até os turistas serão os mesmos. Amanha tudo será igual a hoje. As pessoas, os produtos, as ideias, os turistas e a pobreza….tudo do mesmo jeito.

25 de outubro de 2016, 08:00

COLUNISTAS Por Enquanto

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Não bastou a fusão do ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o de Comunicações; o rebaixamento da principal agencia de financiamento à pesquisa no país, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), percebido pelos seus membros como um departamento do ministério das comunicações; não foi suficiente a suspensão dos editais de fomento e os diversos cortes nos investimentos em pesquisa ja efetivados. Isso tudo sobre uma base que tradicionalmente já bastante reduzida em nosso país que é o investimento em pesquisa e desenvolvimento. Não podemos nos esquecer do contexto já desfavorável criado pela PEC 241, a do teto de despesas do governo federal, que tem sido traduzida como cortes nos orçamentos da educação e da saúde. Nesta semana o próprio CNPq anunciou que estudava um corte linear nas bolsas de pesquisa já concedidas na ordem de 20-30%.

Como miséria pouca é bobagem, o ministro que comanda a pasta das comunicações propôs, nesta mesma semana, mais um aumento do já bilionário fundo partidário. Venhamos e convenhamos que a luz dos infindáveis e sucessivos escândalos, enterrar mais dinheiro público no financiamento de partidos políticos não parece ser uma prioridade nacional. Parece mais piada de mau gosto. Apenas uma fração do aumento proposto aos políticos já seria suficiente para cobrir todo o orçamento destinado à pesquisa.

Essa perversa combinação de corte e aumento se mostrou particularmente explosiva. Assim, em um ambiente já conflagrado a noticia correu como rastilho de pólvora. Kriptonita pura!!!! Em poucos minutos os grupos de pesquisadores no WhatsApp passaram a informação adiante e as reações começaram a pipocar de todos os lados. Primeiro entre os membros dos comitês de assessoramento do CNPq, formado por pesquisadores experientes em suas áreas, depois pelas entidades cientificas que vão multiplicando notas de protesto. O passo seguinte são as ocupações de reitorias e as greves que ja se anunciam.

Não se pode alegar ingenuidade ou falta de experiência política, afinal, nesta esta altura do campeonato só tem macaco velho em campo. Também não se pode alegar desconhecimento de causa. Há muito se sabe que o tal mundo acadêmico é fonte de resistência ao establishment politico tradicional, de modo geral, e ao grupo que está no governo, de modo bastante específico. Assim, restam apenas poucas opções: ou somos governados por um bando de ignorantes que não conseguem enxergar um palmo à frente do próprio nariz e que não percebem que o corte em pesquisa hoje se traduzirá em maiores déficits no futuro próximo, que ciência e educação não são despesas, mas investimento; ou existe uma ação deliberada para desmontar o sistema de pesquisa baseado nos programas de pós graduação, uma das poucas áreas da política educacional que tem resistido e se mostrada bem sucedida ao longo dos anos. Neste caso, precisaríamos perguntar o que motivaria tal comportamento…

Pode que esteja sofrendo da síndrome de Poliana, mas (por enquanto) prefiro crer na profunda ignorância dos nossos governantes.

10 de outubro de 2016, 09:21

COLUNISTAS Será?

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Não tem nenhuma novidade. Os sinais e as noticias estão por todos os lugares. Basta abrir os jornais e os sites de notícias que elas logo saltam aos olhos: déficit público, contenção de gastos, dificuldade para pagamento da folha de salários, desemprego, empresas em dificuldades. Basta andar por um shopping qualquer para se ficar impressionado com a quantidade de lojas fechadas. O número de desempregados também chama atenção, doze milhões.  Ainda que não exista nenhuma grande dificuldade para se compreender a atual realidade econômica, há um elemento que curiosamente (ou não …) se faz pouco presente, mesmo nos meios de comunicação que costumam ser mais críticos. Refiro-me ao lado humano da crise atual que já se arrasta por três anos, e que aponta para mais uma década perdida na economia.

Esta semana me reuni com alguns amigos que já não via há algum tempo. A conversa como não podia deixar de ser caminhou para a economia. Mas diferentemente de outras ocasiões onde reclamações genéricas se apresentavam desta vez o tema girou em torno das pessoas.

Uma desses amigos é Michel, geólogo, francês, casado com uma prima. Até uns três ou quatro anos atrás ele me falava da dificuldade de se contratar um geólogo para trabalhar em um projeto de exploração de minérios e de como as empresas buscavam estagiários no meio do curso nas escolas politécnicas.  Esta semana a conversa mudou. Cuidando da implantação de uma mina no norte do país, ele me falou dos mais de oitenta currículos que recebe todo o mês de profissionais muito qualificados, de todas as idades, que estão dispostos a trabalhar por qualquer preço. Mais do que isso, de como tem sido doloroso receber a ligação de pessoas conhecidas que imploram chorando por uma oportunidade. Pessoas que perderam o emprego, que têm família para sustentar e não vêm perspectivas.

Nessa mesma conversa Guto, administrador sério que trabalha para uma das empreiteiras baianas envolvidas na lava a jato, narrou uma estória semelhante que ele ouviu quando estava com seu chefe, que foi demitido e depois recontratado por um terço do salário que originariamente recebia.  O chefe recebendo ligação de profissionais com os quais já havia trabalhado e que aos prantos imploravam por uma oportunidade para voltar a trabalhar, narrando as dificuldades para pagar aluguel, mensalidade da escola dos filhos…

Desconfio que na polarização política que tomou conta do país, no embate de notas de repúdio, dos slogans e campanhas contra ou favor desta ou daquela posição política, da apresentação e da contestação de números, as pessoas são o detalhe incômodo. Pensar nas pessoas é dar um rosto à crise. E quando uma crise ganha o rosto ela invade nossas casas e nossas vidas com uma força avassaladora. E na grande maioria das famílias do país esse rosto é conhecido! É seu primo, sua irmã, seu vizinho, sua esposa, seu filho que não consegue um trabalho…Quem pagará essa conta? Quem arcará com a responsabilidade? Nessa hora só me vem à mente aquela célebre frase do camarada Mao : “Não importa a cor do gato desde que ele cace o rato”! Será que isso explica alguma coisa?

26 de setembro de 2016, 09:16

COLUNISTAS O Uber nao é o Uber

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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O Uber não sai do noticiário. Os motivos são mais os menos os mesmos de sempre: concorrência com os taxis e regulamentação, cobrança de impostos e qualidade do serviço prestado ao usuário! Também faz parte desta lista a discussão sobre a existência ou não de vinculo trabalhista entre a empresa proprietária do aplicativo e os motoristas filiados! Entretanto, há uma dimensão da questão Uber que não tem recebido a devida importância e que passa mais ou menos despercebida nesse debate: a tecnologia por traz do serviço, ou melhor, a revolução tecnológica na qual o serviço se insere.

Não me refiro nem a questão do aplicativo em si mesmo ou ainda equipamentos (os smartphones) de forma isolada. O Uber é a ponta de lança, ou do iceberg – se assim preferirem, de uma revolução tecnológica que ameaça transformar radicalmente a forma como nos organizamos a nossa sociedade e como nos relacionamos com o mundo. Ou ainda, o Uber mostra a direção para o futuro e levanta sérias questões sobre a nossa capacidade de sermos protagonistas da nossa própria história.

Para quem não se deu conta, o Uber anunciou nesta semana o lançamento de um novo serviço nos estados Unidos: o carro sem motorista. Ainda restrito ä algumas áreas da cidade de Pittsburg, no estado da Pensilvania, a novidade chegou como uma bomba. Seu impacto é tão expressivo que o presidente americano – Barack Obama publicou um editorial no jornal da cidade sobre essa inovação, ao passo que o governo emitiu uma regulamentação inicial para o serviço.

O editorial do presidente permite situar de forma adequada os termos principais daquilo que está em jogo. Ele se desenvolve contra um pano de fundo da segurança do usuário, sobre como governo e indústria devem trabalhar juntos para garantir que o carro sem motorista seja seguro e como isso pode ajudar a reduzir as mais de trinta mil mortes que acontecem todos os anos em razão dos acidentes de veículos no país, a maior parte delas resultado de erros humanos.

Entretanto, três aspectos são fundamentais nessa estória. O Uber não esta sozinho nessa seara. Ele apenas saiu na frente de uma indústria multibilionária que envolve tanto os grandes nomes da indústria automobilística quanto da informática. Uma sólida parceria entre setor público e privado em torno de interesses nacionais próprios. Desde 2007 a Agencia para Pesquisas Avançadas de Defesa (DARPA) promove uma competição que busca incentivar o desenvolvimento de tecnologia nacional própria para veículos sem motorista.

Os outros dois aspectos estão claramente marcados no editorial de Obama: um deles se refere à questão da regulação. O presidente reconhece que o Estado tem um papel importante no estabelecimento de limites e controles para o novo nascente, mas que é muito fácil errar a mão, principalmente quando se trata de tecnologias que evoluem muito rapidamente. Assim a política precisa ser suficientemente flexível de modo que possa evoluir junto com os avanços produzidos e não se tornar um entrave, ela mesma, para a inovação.

O outro aspecto é aquele que considero mais importante e que, se me permitem, traduzo literalmente as palavras do presidente, para não deixar dúvidas daquilo do que se trata “Nos exploraremos o futuro da inovação na América e ao redor do mundo, focando na construção de nossas capacidades na ciência, tecnologia e inovação, assim como nas novas tecnologia que darão forma ao próximo século”. Afinal, a tecnologia não se limita a questão do último gadget ou aplicativo da moda,  ela se refere a tornar melhor a vida das pessoas e a manter o poder do país!

Como diriam os franceses: o Uber nao é o Uber!

13 de setembro de 2016, 09:00

COLUNISTAS Em defesa da Jabuticaba

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Componente importante do nosso auto conceito, da auto imagem nacional, é a ideia de que somos um povo criativo. As manifestações positivas dessa ideia incluem as várias formas de expressão cultural no campo das artes e uma capacidade de transformação de aspectos mais duros da realidade a partir de um elemento lúdico. No lado negativo, a criatividade do brasileiro se manifesta na forma de estruturas, controles, leis, normas e processos tão esdrúxulos, tão sem sentido, que parecem não ter par em nenhum outro lugar do mundo civilizado. Quando nos deparamos com algo dessa natureza recorremos a imagem da jabuticaba, fruta tipicamente brasileira, para expressar o caráter único desse elemento da, vamos dizer, criatividade nacional…

O congresso nacional tem sido terreno fértil para a plantação e produção de jabuticabas jurídicas, especialmente aquelas cultivavas pelas corporações que insistem em querer tomar de assalto a vida nacional.  Uma das mais recentes é Projeto de Lei do Senado 439/2015, de autoria do senador Donizete Nogueira (PT-TO). A ementa do PLS é singela Dispõe sobre o exercício de atividades nos campos da Administração, mas sua intensão e seus efeitos são devastadores. Sobre o pretexto de adequação de uma tal ciência das administração, o projeto propõe uma reserva de mercado mal disfarçada para profissionais inscritos nos conselhos regionais de administração. Não precisa ir muito longe na leitura do texto, nem ir muito fundo em uma exegese complexa para percebermos a extensão do problema posto. Basta a leitura de um único inciso: § 1o São considerados campos da Administração e trabalhos técnicos privativos do Administrador, sem prejuízo de outros já consagrados em lei: VIII – planejamento, organização, coordenação, execução e controle de serviços de Administração em geral. Partindo das definições mais clássicas sobre o que consiste o trabalho do gestor de uma organização qualquer, percebemos que nada, absolutamente nada, escapa dessa definição. E como se isso não fosse suficiente, o PLS propõe que sua aplicação se estenda a qualquer tipo de organização seja ela pública, privada e não governamental.

Nós já vimos essa espécie de jabuticaba florescer antes: em um determinado momento o Conselho Federal de Administração tentou tornar privativo dos administradores a gestão de pessoas (ou recursos humanos) (Ver o acórdão 06/2011 do plenário do CFA). Algo semelhante também já se manifestou em uma tentativa de regulamentação das atividades e competências dos profissionais de medicina que deu origem ao tal projeto do Ato Médico (PLS 268/2002), que recebeu repulsa e foi abertamente combatido por todas as demais profissões da área de saúde.

Até entendo que um órgão de classe atue na defesa dos interesses corporativos de uma determinada categoria, mas tem limites. O chamado campo da gestão é por natureza, tradição, evolução, operação e definição, interdisciplinar. Um dos principais estudiosos sobre formação de executivos, Henry Mintzberg, é engenheiro mecânico de formação. Aliás, ele é da opinião de que não se aprende sobre como ser gestor nas escolas de administração, só a prática ensina! Também era engenheiro,Taylor, o pai da administração científica. A Escola das Relações Humanas, fundamento da gestão de pessoas, se constrói sobre o trabalho de um Psicólogo, Elton Mayo. Ricardo Semler é formado em Direito, Jack Welsh é engenheiro químico… Poderíamos passar o dia todo citando contribuições significativas de não administradores para a teoria e prática da gestão/administração, mas não é esse o caso.

Acredito que os administradores fariam mais pelo prestígio de nossa profissão (sou administrador por formação e atuação) oferecendo soluções reais, concretas, aos inúmeros desafios que nossas organizações enfrentam, sejam elas públicas, privadas  ou ONGs. Diz o ditado que conselho e água benta só dá a quem pede, mas olhar para a qualidade dos dezenas de milhares profissionais que se formam a cada ano, nos milhares de cursos de graduação que se multiplicam pelo país a fora, também seria uma boa forma de valorizar a profissão.

Antes que eu esqueça, a jabuticabeira é uma árvore linda, única, que exala um perfume gostoso e nos oferece frutos deliciosos, que se espalham de forma inusitada por todo seu tronco. A jabuticaba não merece ser associada com questiúnculas menores, mesquinhas mesmo, como esta do PLS 439/2015. Quanto ao projeto de lei, só nos resta uma saída: vamos à luta contra mais esta aberração! Cansa, é chato, mas não tem jeito.

25 de agosto de 2016, 19:28

COLUNISTAS Parabéns

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Cada vez mais me convenço que paradoxo é a palavra que melhor exprime a natureza da Psicologia tanto como ciência quanto como profissão. Não deixa de ser curioso observar que algumas das perguntas sobre as quais a Psicologia se debruça são tão velhas quanto a própria humanidade, mas ela mesma é apenas uma jovem ciência de pouco mais de cento e trinta anos. Durante muito tempo ela se confundiu com a Filosofia e a Fisiologia obtendo seu status científico e emancipação apenas no final do século XIX (1879), com a constituição na Universidade de Leipzig, na Áustria, do primeiro laboratório onde se aplicava o método das ciências experimentais para a investigação de fenômenos psicológicos.

Como não poderia deixar de ser, a dimensão profissional da Psicologia também é muito nova. Apenas em 1962 ela foi regulamentada no Brasil ainda que o uso de “testes psicotécnicos” tivessem se difundido no país nas décadas de 20 e 30 e que sociedade de Psicologia de São Paulo tenha sido criada já nos anos quarenta. Por outro lado, sempre existiram os chamados tratamentos para as doenças dos nervos, para os problemas dos humores e para os males da alma.

Apesar de sua emancipação como campo de conhecimento próprio, a Psicologia não logrou superar as tensões decorrentes do conflito mente (Filosofia) e corpo (Fisiologia) que sempre lhe acompanhou. Muito pelo contrário, ela sofreu influência de todas as correntes, vertentes, modelos, teorias e paradigmas científicos que foram se desenvolvendo desde então não apenas nas ciências humanas, mas nas ciências sociais, nas ciências biológicas e também nas ciências exatas, como é o caso, por exemplo, do impacto da teoria dos sistemas e da cibernética no desenvolvimento da Psicologia Cognitiva.

Da mesma forma que não temos um paradigma dominante no nosso campo do conhecimento, também não temos grande teorias ou artefatos tecnológicos que tenham sido desenvolvidos em especificamente em função dos conhecimentos que produzimos. É como o autor de um artigo que li recentemente colocava: qual é a nossa frigideira de teflon? Qual é o nosso método definitivo de intervenção?
Ainda que muitos psicólogos ainda discutam se nosso objeto de investigação e atuação é a subjetividade ou o comportamento, uma coisa é certa: nós somos a ciência do ser humano. Isso explica as tensões, os paradoxos e os conflitos. Não é possível compreender o humano a partir de uma única propriedade e/ou dimensão. O desenvolvimento da Psicologia acompanha e evolui junto com o desenvolvimento do próprio ser humano, de como ele se percebe, comporta, sente, intui, sofre, constrói e destrói.

Ainda hoje tem gente que ainda acha que a dimensão psicológica é uma criação de quem não tem o que fazer, que os problemas psicológicos são sinais de fraqueza. Que falta vontade ao depressivo, que falta disciplina à criança que não se ajusta na escola, que o problema da motivação no trabalho é uma questão de gente que não quer nada com a hora do Brasil. Basta perguntar a cada uma dessas pessoas que sofre se seus problemas são reais ou imaginários, se eles existem de fato ou se são invenções, e você perceberá o papel e a importância do profissional de Psicologia para a Sociedade.

É por isso que, neste dia, quero saudar todos àqueles que nos mais diversos espaços de atuação contribuem para a melhoria da qualidade de vida da nossa população e para a superação dos problemas concretos que enfrentamos na família, na escola, no trabalho, na clínica, na saúde, na assistência, na segurança… Parabéns aos Psicólogos no seu dia!

14 de agosto de 2016, 18:41

COLUNISTAS Fortalecer a Profissão

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Este ano Agosto trouxe consigo a febre Pokemon Go e as Olímpiadas. Como já tem muita gente falando dessas coisas, eu irei focar em outro evento importante deste mês: as eleições para o sistema Conselhos de Psicologia (Regionais e Federal). Três nos atrás eu manifestei meu apoio e voto à chapa do Fortalecer a Profissão. Na época, grupo de oposição no Conselho Federal de Psicologia. Como na abertura da Olimpíada deste ano, Atena Niké esboçou um leve sorriso e esse grupo foi eleito.

Entretanto, o Fortalecer não tinha ema estrutura organizada, era apenas um coletivo de pessoas que se reuniu para enfrentar um partido que havia se encastelado no poder já há muitos anos e que geria os destinos da Psicologia com base em uma visão bastante parcial da nossa profissão, tanto em termos de práticas, quanto em relação à aportes teóricos e metodológicos fator especialmente importante em uma profissão cuja marca distintiva desde a sua criação tem sido a pluralidade. Precisamos reconhecer que existem méritos inegáveis nesse grupo, mas os defeitos eram e continuam sendo insuportáveis, a começar pela desqualificação de tudo aquilo que seja contrário à sua visão de mundo: clinica Individual, psicoterapia? Elitista! Psicologia Organizacional e do Trabalho? Vendida ao Capitalismo! Escolar? Quer disciplinar e normalizar os estudantes! Jurídica? Nem se fala!…e por ai vai.

Já estou me desviando, deixem-me retomar o fio da meada. O fortalecer é uma força em construção que caminha na busca da maior organização e de condições concretas para o avanço da Psicologia (ciência e profissão) e de melhores condições de trabalho para todos os profissionais. Ganhamos o Federal, mas ficamos isolados, pois não havia presença nos conselhos regionais. O Sistema conselhos tem uma estrutura colegiada e várias decisões são tomadas de forma coletiva com a participação direta dos regionais. Assim, boa parte das ações desenvolvidas nos últimos anos encontraram feroz resistência e oposição.

Apesar das dificuldades, uma pauta positiva foi implantada! Maior transparência na gestão dos recursos, maior comunicação com os profissionais inscritos no Conselho com a criação de vários canais distintos de comunicação, maior envolvimento e participação das sociedades científicas da Psicologia, melhoria na gestão interna do próprio conselho, diálogo permanente com os regionais, ampliação dos espaços políticos da Psicologia, defesa de importantes bandeiras como piso salarial, revisão da tabela de honorários, jornada de trabalho, oposição ao ato médico, universalização do voto pela internet…

Nas eleições deste ano o quadro político se modificou. Novas forças se apresentam, o contexto político e social que envolvem nossa atuação profissional se transformou (deteriorou?) fortemente. Alguns desafios permanecem, mas novos se apresentam! O fortalecer se propõe a enfrenta-los atuando ao longo de três eixos principais: 1) focar sua ação no exercício do profissional de Psicologia; 2) fortalecer a ação junto à sociedade; 3) encampar uma reforma política, jurídica e tributária no sistema conselhos de Psicologia de modo a diminuir as desigualdades, a dependência e a fragilidade dos pequenos conselhos regionais e ampliar a participação dos profissionais da Psicologia nas decisões da autarquia.

Eu continuo acreditando nessas bandeiras e nas pessoas que as carregam, e é pelas razões acima que, no próximo dia 27 de Agosto, dia do(a) Psicólogo(a), eu voto com a atual gestão do Conselho Federal de Psicologia para FORTALECER A PROFISSÃO.

1 de agosto de 2016, 10:00

COLUNISTAS Nem tanto

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Temos uma tendência a considerar que pessoas comprometidas são importantes para a organização. E são mesmo! Afinal, em função de sua identificação com valores organizacionais elas tendem a desenvolver vínculos afetivos muito fortes que favorecem o aparecimento de um conjunto de comportamentos desejados pela organização como, por exemplo, aqueles relacionados ao esforço discricionário (aquilo que o empregado realiza voluntariamente e que não faz parte do seu conjunto de tarefas).  Muitos dos modelos mais atuais de gestão de pessoas propõem, justamente, a adoção de um conjunto de práticas que tem como objetivo gerar altos graus de comprometimento do trabalhador com a organização, via pela qual seria possível alcançar altos padrões de desempenho.

Entretanto, ainda que esses modelos e práticas façam sentido (prático e teórico), tenho visto algumas situações onde essa grande identificação não produz necessariamente resultados positivos, mas sim uma série de comportamentos disfuncionais que minam a capacidade da organização de crescer e de responder às demandas e pressões do seus ambientes internos e externos.

Um dia desses fui com minha equipe atender a solicitação de um amigo que pedia um diagnóstico de problemas e uma proposta de intervenção para um órgão do qual ele fazia parte já há muitos anos tendo, inclusive, exercido inúmeras vezes a direção geral. Agora já na boca da aposentadoria, ele buscava deixar um legado (palavra da moda) na forma de solução de vários problemas. O pedido era padrão, o órgão pequeno, a disposição do dirigente grande e havia um reconhecimento por parte dos funcionários da necessidade de ação. Ou seja, tudo apontava para um desfecho rápido e feliz.

A primeira parte do trabalho transcorreu como nos livros. Acesso aberto a toda organização, entrevistas individuais com chefes de diversos níveis e várias entrevistas em grupo com funcionários dos diversos setores. Relatório de feedback apresentado e discutido de forma coletiva e proposta de encaminhamento aprovada sem restrições. Uma das primeiras ações propostas consistia em um trabalho de desenvolvimento gerencial que reunia chefes dos diversos níveis hierárquicos com o objetivo de criar proximidade, cumplicidade, troca, um sentimento de equipe no grupo de gestão, algo que estava totalmente alinhada com o espírito participativo que a organização diz incentivar. Em função dessa atividade, o tal grupo gestor passou a se reunir semanalmente para discutir problemas e encaminhar soluções. Ai começaram os problemas…

Aliás, bote problema nisso. Uma parte das dificuldades enfrentadas podia ser creditada a ao rompimento da inércia organizacional. Dificuldades varridas e escondidas embaixo do tapete de repente emergiram, mas isso não explicava tudo. Para nossa surpresa, parte significativa das dificuldades enfrentadas parecia derivar de uma ação de sabotagem levada a cabo dirigente que havia nos convidado para a intervenção. Ele simplesmente parecia não aceitar o protagonismo dos outros membros de sua equipe passando a desautorizar e desqualificar de forma sistemática as pessoas e qualquer tipo de ação cuja iniciativa não partisse diretamente dele ou estivesse sob seu total controle. A explicação era sempre a mesma: eles não entendem como isso funciona, não sabem o que significa trabalhar aqui, eu estou aqui desde sempre…Só faltou dizer, esse órgão sou eu!

Ao longo do processo ficou claro que o grau de identificação do gestor com sua organização era tão grande que ações “não autorizadas” eram vistas e tratadas como uma ameaça direta a sua sobrevivência (dele gestor e da organização). O pior de tudo, é que ele tinha a plena convicção de que estava fazendo o melhor!