16 de janeiro de 2017, 12:04

COLUNISTAS Não adianta

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Se 2016 foi o ano que insistia em não terminar, talvez 2017 venha a ser lembrado como o ano que já começou velho. Não que o anoitecer ou a alvorada por si mesmos tenham o condão de modificar a realidade concreta, mas o ano novo ainda costuma ser visto como um marco para uma mudança de ciclo. Nós meio que mantivemos os mesmos rituais característicos das sociedades agrárias que nos precederam e acreditamos na renovação periódica da vida social de forma análoga à renovação da vida dos ciclos naturais. Seguimos repetindo os mesmos comportamentos supersticiosos na esperança de que um dia os resultados sejam diferentes. Assim, 2017 começa gritando que nossos problemas não foram levados embora pelas águas do mar junto com as flores brancas no ano novo e nem foram lavados pelo perfume de lavanda…

Não precisa muito esforço para percebermos os temas que nos afligem são os mesmos que estão postos desde sempre, sem que tenhamos sido capazes de produzir alternativas viáveis para sua superação. Há quanto tempo vivemos uma crise do modelo de segurança publica? Quem se lembra de quando começou a crise do nosso sistema político? Existe registro de algum momento no qual o transporte público tenha sido eficiente? E a crise da educação, oferecida como a mãe de todas as soluções para os problemas que nos atingem, quando ela começou? Mesmo quando respostas ou avanços são dados, eles acontecem em ritmo menor do que o de outros países em situação semelhante à nossa ou em magnitude inferior à de nossas necessidades.

No início de dezembro a Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD) divulgou o resultado do mais recente período de avaliação do PISA (2015), acrônimo em inglês para seu programa internacional para avaliação de estudantes. Os resultados representam o desempenho de 29 milhões de estudantes, de quinze anos de idade, oriundos de 72 países diferentes, nas áreas de ciências, leitura, matemática e solução cooperativa de problemas. O relatório básico tem apenas 16 páginas disponíveis em inglês, Francês e Espanhol. Há ainda uma versão com uma avaliação específica sobre o Brasil, em Português. Vale a leitura.

Para não ir muito longe, ainda que o grau de escolarização dos jovens de 15 anos tenha aumentado, o desempenho dos alunos no Brasil está abaixo da média dos alunos em países da OCDE em ciências (401 pontos, comparados à média de 493 pontos), em leitura (407 pontos, comparados à média de 493 points) e em matemática (377 pontos, comparados à média de 490 pontos). Em ciências não temos avanços desde 2006 e em leitura paramos no ano 2000. A análise social desses números é obvia, nossos resultados expressam a pobreza e a desigualdade do país. Entretanto, esses números também podem ter uma leitura gerencial/econômica que é menos direta para os não iniciados, ainda que o sentido seja o mesmo da análise social. Ou seja, somos incapazes de competir em mercados globais porque o nível de produtividade de nossa força de trabalho é muito baixo. No seu conjunto ela é incapaz de desenvolver atividades de alto valor agregado que normalmente são intensivas de conhecimento. E isso nos coloca em um ciclo pouco virtuoso, baixa qualificação, trabalho manuais/primários, baixa remuneração=pobreza…  Entra ano, sai ano e não rompemos esse ciclo. E não adianta jogar rosa para Iemanjá nem lavar a casa do Senhor do Bonfim.

12 de dezembro de 2016, 09:25

COLUNISTAS No mesmo barco

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Quando comecei a escrever este texto me peguei pensando longamente sobre qual a expressão que melhor capturaria o momento em que vivemos. Comecei com tempestade perfeita, refletindo a conjunção de favores contextuais extremamente negativos que enfrentamos. De um lado seguimos em depressão econômica sem perspectivas claras de melhora da atividade econômica nos próximos meses. Quem acha que o desemprego está em níveis elevados, ainda não se deu conta de que as projeções mais otimistas apontam um crescimento da massa de desempregados em mais dois milhões de pessoas.

Aprofundando um pouco mais a reflexão cheguei à conclusão de que na verdade a vaca foi para o brejo expressa melhor a atual situação em que nos encontramos. No plano político o quadro não o poderia ser pior. À crise econômica se junta uma crise política de amplitude e magnitude nuncaantesvistanahistoriadestepais. Como se já não bastasse termos um governo de transição que já nasceu na defensiva midiática e com uma agenda de reformas fortemente impopular, ele  agora está ferido de morte no rastro das denúncias apocalípticas da Odebrecht. Aliás, a delação da empreiteira levará de roldão todo o governo, seus aliados e a parte da oposição que ainda não está presa. O quadro sugere uma total desorganização do nosso já degenerado sistema politico, que dá seus últimos sinais de vida.

Ja no plano social parece que impera um misto de perplexidade, diante dos desdobramentos de uma crise que parece não ter fim, e imobilismo, diante da patente falta de alternativas viáveis. A única agenda que mostra algum grau de consenso é o combate à corrupção encarnado na lava a jato, mas isso é insuficiente como projeto de pais. Nossos intelectuais ainda não conseguiram formular uma agenda mínima de consenso que combine crescimento econômico e desenvolvimento social. Tem-se a impressão de que estamos no mato sem cachorro!

Alguns enxergam no judiciário uma bóia de salvação. Isso porque ainda não acordamos para o fato de que a corrupção é endêmica em nossa sociedade. O próprio judiciário, como parte desta sociedade, é extremamente corrupto, fisiológico, corporativo e patrimonialista. Quem não se lembra das palavras da ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça quando se referiu aos bandidos de toga? Casa de ferreiro, esperto de pau! Será que alguém imagina que as empreiteiras não têm interesses em disputa no judiciário? Que elas teriam algum tipo de escrúpulo específico na relação a pagar propina aos juízes e desembargadores? Ou será que os membros do poder judiciário são feitos de algum tipo de DNA distinto dos demais brasileiros, vivem em um mundo a parte ou são diretamente escolhidas pelo divino espírito santo para sua missão de julgar pairando impolutos acima do bem e do mal? No popular, tamo lascados!!!!!

Agora não adianta chorar pelo leite derramado, Inês é morta. Parece-me que a esta altura do campeonato o mais sensato é buscar construir pontes e consensos mínimos em torno de uma agenda que nos permita superar a profunda crise que atravessamos. Precisamos evitar falsas soluções que privilegiem grupos e interesses corporativos específicos, precisamos a todo custo fugir da lógica do é tempo de muruci, cada um por sí! No final das contas, creio que a melhor expressão é aquela que diz: o pau que dá em Chico dá em Francisco. Estamos todos no mesmo barco. Se ele afundar ninguém se salvará.

1 de novembro de 2016, 08:00

COLUNISTAS Do mesmo jeito

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Da janela do meu hotel observo o movimento nas barracas que se espalham no calçadão em frente. Todo dia é a mesma rotina. À medida que se aproxima o por do sol o movimento vai aumentado. Aos poucos, cada barraca vai sendo cuidadosamente desempacotada e arrumada. Não da para contar quantas são…centenas com certeza! A noite avança lentamente e os turistas vão chegando aos montes, e logo a feira de artesanato da beira mar fervilha de gente.

Apesar do movimento tenho a impressão de que os turistas mais passeiam do que compram.  Pode ser a crise com seus orçamentos limitados, mas fico com a impressão de que a própria feira não ajuda. Resolvo descer e me juntar à multidão. Vou passeando pelos corredores e minha impressão vai tomando forma, ficando cada vez mais clara. Apesar do forte apelo turístico não há  nada de interessante na feira, alem do passeio ou da distração em si mesma, o estar ali, ver as pessoas e o movimento.

Não me entendam mal. Essa é uma “atividade obrigatória” para qualquer pessoa que visite a cidade. Entretanto, após mais de uma hora zigzagueando pelas barracas não encontrei um mísero objeto que atraísse minha atenção. A razão é simples: a feira de artesanato é absolutamente igual a toda e qualquer feira de artesanato que existe no país. Não ha nada de diferente. Nem os produtos ditos locais são diferentes. Eles apenas recebem o nome da cidade, mas podem ser encontrados em qualquer canto do Brasil.

O mix de produtos é padrão: camisas de malhas com dizeres engraçados ou parodias de marcas famosas; artesanato local produzido aos milhões na China; castanhas e doces que podem ser encontrados na prateleiras de qualquer supermercado meia boca do país; as mesmas bijuterias de qualquer lugar; os mesmo bonecos de lampião, da Maria bonita e da namoradeira na janela….Nada, nada genuinamente local, nada tem um design próprio, nada incorpora a cor ou o sabor característico da região. Nada que grite ao turista – gaste seu dinheiro aqui, gaste seu dinheiro!!!!!! Você pode até ficar tentado a comprar uns imãs de geladeira, uns panos de prato, alguns espelhinhos e uma ou outra miçanga. Você poderá eventualmente ser enrolado por um artista local que usa um monte de clichês e chavões para tentar mostrar que existe algum tipo de arte ou craft naquilo que ele faz. Nada de qualidade. Tudo barato…

Vinte e duas horas. No mesmo ritmo lento do início da noite as barracas vão sendo fechadas, os produtos guardamos, os turistas vão se dispersando. Do alto, é fácil perceber a transformação, as luzes vão diminuindo, o plástico substitui as cores…Amanhã a feira renascerá. As mesmas barracas, os mesmos produtos e até os turistas serão os mesmos. Amanha tudo será igual a hoje. As pessoas, os produtos, as ideias, os turistas e a pobreza….tudo do mesmo jeito.

25 de outubro de 2016, 08:00

COLUNISTAS Por Enquanto

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Não bastou a fusão do ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o de Comunicações; o rebaixamento da principal agencia de financiamento à pesquisa no país, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq), percebido pelos seus membros como um departamento do ministério das comunicações; não foi suficiente a suspensão dos editais de fomento e os diversos cortes nos investimentos em pesquisa ja efetivados. Isso tudo sobre uma base que tradicionalmente já bastante reduzida em nosso país que é o investimento em pesquisa e desenvolvimento. Não podemos nos esquecer do contexto já desfavorável criado pela PEC 241, a do teto de despesas do governo federal, que tem sido traduzida como cortes nos orçamentos da educação e da saúde. Nesta semana o próprio CNPq anunciou que estudava um corte linear nas bolsas de pesquisa já concedidas na ordem de 20-30%.

Como miséria pouca é bobagem, o ministro que comanda a pasta das comunicações propôs, nesta mesma semana, mais um aumento do já bilionário fundo partidário. Venhamos e convenhamos que a luz dos infindáveis e sucessivos escândalos, enterrar mais dinheiro público no financiamento de partidos políticos não parece ser uma prioridade nacional. Parece mais piada de mau gosto. Apenas uma fração do aumento proposto aos políticos já seria suficiente para cobrir todo o orçamento destinado à pesquisa.

Essa perversa combinação de corte e aumento se mostrou particularmente explosiva. Assim, em um ambiente já conflagrado a noticia correu como rastilho de pólvora. Kriptonita pura!!!! Em poucos minutos os grupos de pesquisadores no WhatsApp passaram a informação adiante e as reações começaram a pipocar de todos os lados. Primeiro entre os membros dos comitês de assessoramento do CNPq, formado por pesquisadores experientes em suas áreas, depois pelas entidades cientificas que vão multiplicando notas de protesto. O passo seguinte são as ocupações de reitorias e as greves que ja se anunciam.

Não se pode alegar ingenuidade ou falta de experiência política, afinal, nesta esta altura do campeonato só tem macaco velho em campo. Também não se pode alegar desconhecimento de causa. Há muito se sabe que o tal mundo acadêmico é fonte de resistência ao establishment politico tradicional, de modo geral, e ao grupo que está no governo, de modo bastante específico. Assim, restam apenas poucas opções: ou somos governados por um bando de ignorantes que não conseguem enxergar um palmo à frente do próprio nariz e que não percebem que o corte em pesquisa hoje se traduzirá em maiores déficits no futuro próximo, que ciência e educação não são despesas, mas investimento; ou existe uma ação deliberada para desmontar o sistema de pesquisa baseado nos programas de pós graduação, uma das poucas áreas da política educacional que tem resistido e se mostrada bem sucedida ao longo dos anos. Neste caso, precisaríamos perguntar o que motivaria tal comportamento…

Pode que esteja sofrendo da síndrome de Poliana, mas (por enquanto) prefiro crer na profunda ignorância dos nossos governantes.

10 de outubro de 2016, 09:21

COLUNISTAS Será?

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Não tem nenhuma novidade. Os sinais e as noticias estão por todos os lugares. Basta abrir os jornais e os sites de notícias que elas logo saltam aos olhos: déficit público, contenção de gastos, dificuldade para pagamento da folha de salários, desemprego, empresas em dificuldades. Basta andar por um shopping qualquer para se ficar impressionado com a quantidade de lojas fechadas. O número de desempregados também chama atenção, doze milhões.  Ainda que não exista nenhuma grande dificuldade para se compreender a atual realidade econômica, há um elemento que curiosamente (ou não …) se faz pouco presente, mesmo nos meios de comunicação que costumam ser mais críticos. Refiro-me ao lado humano da crise atual que já se arrasta por três anos, e que aponta para mais uma década perdida na economia.

Esta semana me reuni com alguns amigos que já não via há algum tempo. A conversa como não podia deixar de ser caminhou para a economia. Mas diferentemente de outras ocasiões onde reclamações genéricas se apresentavam desta vez o tema girou em torno das pessoas.

Uma desses amigos é Michel, geólogo, francês, casado com uma prima. Até uns três ou quatro anos atrás ele me falava da dificuldade de se contratar um geólogo para trabalhar em um projeto de exploração de minérios e de como as empresas buscavam estagiários no meio do curso nas escolas politécnicas.  Esta semana a conversa mudou. Cuidando da implantação de uma mina no norte do país, ele me falou dos mais de oitenta currículos que recebe todo o mês de profissionais muito qualificados, de todas as idades, que estão dispostos a trabalhar por qualquer preço. Mais do que isso, de como tem sido doloroso receber a ligação de pessoas conhecidas que imploram chorando por uma oportunidade. Pessoas que perderam o emprego, que têm família para sustentar e não vêm perspectivas.

Nessa mesma conversa Guto, administrador sério que trabalha para uma das empreiteiras baianas envolvidas na lava a jato, narrou uma estória semelhante que ele ouviu quando estava com seu chefe, que foi demitido e depois recontratado por um terço do salário que originariamente recebia.  O chefe recebendo ligação de profissionais com os quais já havia trabalhado e que aos prantos imploravam por uma oportunidade para voltar a trabalhar, narrando as dificuldades para pagar aluguel, mensalidade da escola dos filhos…

Desconfio que na polarização política que tomou conta do país, no embate de notas de repúdio, dos slogans e campanhas contra ou favor desta ou daquela posição política, da apresentação e da contestação de números, as pessoas são o detalhe incômodo. Pensar nas pessoas é dar um rosto à crise. E quando uma crise ganha o rosto ela invade nossas casas e nossas vidas com uma força avassaladora. E na grande maioria das famílias do país esse rosto é conhecido! É seu primo, sua irmã, seu vizinho, sua esposa, seu filho que não consegue um trabalho…Quem pagará essa conta? Quem arcará com a responsabilidade? Nessa hora só me vem à mente aquela célebre frase do camarada Mao : “Não importa a cor do gato desde que ele cace o rato”! Será que isso explica alguma coisa?

26 de setembro de 2016, 09:16

COLUNISTAS O Uber nao é o Uber

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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O Uber não sai do noticiário. Os motivos são mais os menos os mesmos de sempre: concorrência com os taxis e regulamentação, cobrança de impostos e qualidade do serviço prestado ao usuário! Também faz parte desta lista a discussão sobre a existência ou não de vinculo trabalhista entre a empresa proprietária do aplicativo e os motoristas filiados! Entretanto, há uma dimensão da questão Uber que não tem recebido a devida importância e que passa mais ou menos despercebida nesse debate: a tecnologia por traz do serviço, ou melhor, a revolução tecnológica na qual o serviço se insere.

Não me refiro nem a questão do aplicativo em si mesmo ou ainda equipamentos (os smartphones) de forma isolada. O Uber é a ponta de lança, ou do iceberg – se assim preferirem, de uma revolução tecnológica que ameaça transformar radicalmente a forma como nos organizamos a nossa sociedade e como nos relacionamos com o mundo. Ou ainda, o Uber mostra a direção para o futuro e levanta sérias questões sobre a nossa capacidade de sermos protagonistas da nossa própria história.

Para quem não se deu conta, o Uber anunciou nesta semana o lançamento de um novo serviço nos estados Unidos: o carro sem motorista. Ainda restrito ä algumas áreas da cidade de Pittsburg, no estado da Pensilvania, a novidade chegou como uma bomba. Seu impacto é tão expressivo que o presidente americano – Barack Obama publicou um editorial no jornal da cidade sobre essa inovação, ao passo que o governo emitiu uma regulamentação inicial para o serviço.

O editorial do presidente permite situar de forma adequada os termos principais daquilo que está em jogo. Ele se desenvolve contra um pano de fundo da segurança do usuário, sobre como governo e indústria devem trabalhar juntos para garantir que o carro sem motorista seja seguro e como isso pode ajudar a reduzir as mais de trinta mil mortes que acontecem todos os anos em razão dos acidentes de veículos no país, a maior parte delas resultado de erros humanos.

Entretanto, três aspectos são fundamentais nessa estória. O Uber não esta sozinho nessa seara. Ele apenas saiu na frente de uma indústria multibilionária que envolve tanto os grandes nomes da indústria automobilística quanto da informática. Uma sólida parceria entre setor público e privado em torno de interesses nacionais próprios. Desde 2007 a Agencia para Pesquisas Avançadas de Defesa (DARPA) promove uma competição que busca incentivar o desenvolvimento de tecnologia nacional própria para veículos sem motorista.

Os outros dois aspectos estão claramente marcados no editorial de Obama: um deles se refere à questão da regulação. O presidente reconhece que o Estado tem um papel importante no estabelecimento de limites e controles para o novo nascente, mas que é muito fácil errar a mão, principalmente quando se trata de tecnologias que evoluem muito rapidamente. Assim a política precisa ser suficientemente flexível de modo que possa evoluir junto com os avanços produzidos e não se tornar um entrave, ela mesma, para a inovação.

O outro aspecto é aquele que considero mais importante e que, se me permitem, traduzo literalmente as palavras do presidente, para não deixar dúvidas daquilo do que se trata “Nos exploraremos o futuro da inovação na América e ao redor do mundo, focando na construção de nossas capacidades na ciência, tecnologia e inovação, assim como nas novas tecnologia que darão forma ao próximo século”. Afinal, a tecnologia não se limita a questão do último gadget ou aplicativo da moda,  ela se refere a tornar melhor a vida das pessoas e a manter o poder do país!

Como diriam os franceses: o Uber nao é o Uber!

13 de setembro de 2016, 09:00

COLUNISTAS Em defesa da Jabuticaba

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Componente importante do nosso auto conceito, da auto imagem nacional, é a ideia de que somos um povo criativo. As manifestações positivas dessa ideia incluem as várias formas de expressão cultural no campo das artes e uma capacidade de transformação de aspectos mais duros da realidade a partir de um elemento lúdico. No lado negativo, a criatividade do brasileiro se manifesta na forma de estruturas, controles, leis, normas e processos tão esdrúxulos, tão sem sentido, que parecem não ter par em nenhum outro lugar do mundo civilizado. Quando nos deparamos com algo dessa natureza recorremos a imagem da jabuticaba, fruta tipicamente brasileira, para expressar o caráter único desse elemento da, vamos dizer, criatividade nacional…

O congresso nacional tem sido terreno fértil para a plantação e produção de jabuticabas jurídicas, especialmente aquelas cultivavas pelas corporações que insistem em querer tomar de assalto a vida nacional.  Uma das mais recentes é Projeto de Lei do Senado 439/2015, de autoria do senador Donizete Nogueira (PT-TO). A ementa do PLS é singela Dispõe sobre o exercício de atividades nos campos da Administração, mas sua intensão e seus efeitos são devastadores. Sobre o pretexto de adequação de uma tal ciência das administração, o projeto propõe uma reserva de mercado mal disfarçada para profissionais inscritos nos conselhos regionais de administração. Não precisa ir muito longe na leitura do texto, nem ir muito fundo em uma exegese complexa para percebermos a extensão do problema posto. Basta a leitura de um único inciso: § 1o São considerados campos da Administração e trabalhos técnicos privativos do Administrador, sem prejuízo de outros já consagrados em lei: VIII – planejamento, organização, coordenação, execução e controle de serviços de Administração em geral. Partindo das definições mais clássicas sobre o que consiste o trabalho do gestor de uma organização qualquer, percebemos que nada, absolutamente nada, escapa dessa definição. E como se isso não fosse suficiente, o PLS propõe que sua aplicação se estenda a qualquer tipo de organização seja ela pública, privada e não governamental.

Nós já vimos essa espécie de jabuticaba florescer antes: em um determinado momento o Conselho Federal de Administração tentou tornar privativo dos administradores a gestão de pessoas (ou recursos humanos) (Ver o acórdão 06/2011 do plenário do CFA). Algo semelhante também já se manifestou em uma tentativa de regulamentação das atividades e competências dos profissionais de medicina que deu origem ao tal projeto do Ato Médico (PLS 268/2002), que recebeu repulsa e foi abertamente combatido por todas as demais profissões da área de saúde.

Até entendo que um órgão de classe atue na defesa dos interesses corporativos de uma determinada categoria, mas tem limites. O chamado campo da gestão é por natureza, tradição, evolução, operação e definição, interdisciplinar. Um dos principais estudiosos sobre formação de executivos, Henry Mintzberg, é engenheiro mecânico de formação. Aliás, ele é da opinião de que não se aprende sobre como ser gestor nas escolas de administração, só a prática ensina! Também era engenheiro,Taylor, o pai da administração científica. A Escola das Relações Humanas, fundamento da gestão de pessoas, se constrói sobre o trabalho de um Psicólogo, Elton Mayo. Ricardo Semler é formado em Direito, Jack Welsh é engenheiro químico… Poderíamos passar o dia todo citando contribuições significativas de não administradores para a teoria e prática da gestão/administração, mas não é esse o caso.

Acredito que os administradores fariam mais pelo prestígio de nossa profissão (sou administrador por formação e atuação) oferecendo soluções reais, concretas, aos inúmeros desafios que nossas organizações enfrentam, sejam elas públicas, privadas  ou ONGs. Diz o ditado que conselho e água benta só dá a quem pede, mas olhar para a qualidade dos dezenas de milhares profissionais que se formam a cada ano, nos milhares de cursos de graduação que se multiplicam pelo país a fora, também seria uma boa forma de valorizar a profissão.

Antes que eu esqueça, a jabuticabeira é uma árvore linda, única, que exala um perfume gostoso e nos oferece frutos deliciosos, que se espalham de forma inusitada por todo seu tronco. A jabuticaba não merece ser associada com questiúnculas menores, mesquinhas mesmo, como esta do PLS 439/2015. Quanto ao projeto de lei, só nos resta uma saída: vamos à luta contra mais esta aberração! Cansa, é chato, mas não tem jeito.

25 de agosto de 2016, 19:28

COLUNISTAS Parabéns

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Cada vez mais me convenço que paradoxo é a palavra que melhor exprime a natureza da Psicologia tanto como ciência quanto como profissão. Não deixa de ser curioso observar que algumas das perguntas sobre as quais a Psicologia se debruça são tão velhas quanto a própria humanidade, mas ela mesma é apenas uma jovem ciência de pouco mais de cento e trinta anos. Durante muito tempo ela se confundiu com a Filosofia e a Fisiologia obtendo seu status científico e emancipação apenas no final do século XIX (1879), com a constituição na Universidade de Leipzig, na Áustria, do primeiro laboratório onde se aplicava o método das ciências experimentais para a investigação de fenômenos psicológicos.

Como não poderia deixar de ser, a dimensão profissional da Psicologia também é muito nova. Apenas em 1962 ela foi regulamentada no Brasil ainda que o uso de “testes psicotécnicos” tivessem se difundido no país nas décadas de 20 e 30 e que sociedade de Psicologia de São Paulo tenha sido criada já nos anos quarenta. Por outro lado, sempre existiram os chamados tratamentos para as doenças dos nervos, para os problemas dos humores e para os males da alma.

Apesar de sua emancipação como campo de conhecimento próprio, a Psicologia não logrou superar as tensões decorrentes do conflito mente (Filosofia) e corpo (Fisiologia) que sempre lhe acompanhou. Muito pelo contrário, ela sofreu influência de todas as correntes, vertentes, modelos, teorias e paradigmas científicos que foram se desenvolvendo desde então não apenas nas ciências humanas, mas nas ciências sociais, nas ciências biológicas e também nas ciências exatas, como é o caso, por exemplo, do impacto da teoria dos sistemas e da cibernética no desenvolvimento da Psicologia Cognitiva.

Da mesma forma que não temos um paradigma dominante no nosso campo do conhecimento, também não temos grande teorias ou artefatos tecnológicos que tenham sido desenvolvidos em especificamente em função dos conhecimentos que produzimos. É como o autor de um artigo que li recentemente colocava: qual é a nossa frigideira de teflon? Qual é o nosso método definitivo de intervenção?
Ainda que muitos psicólogos ainda discutam se nosso objeto de investigação e atuação é a subjetividade ou o comportamento, uma coisa é certa: nós somos a ciência do ser humano. Isso explica as tensões, os paradoxos e os conflitos. Não é possível compreender o humano a partir de uma única propriedade e/ou dimensão. O desenvolvimento da Psicologia acompanha e evolui junto com o desenvolvimento do próprio ser humano, de como ele se percebe, comporta, sente, intui, sofre, constrói e destrói.

Ainda hoje tem gente que ainda acha que a dimensão psicológica é uma criação de quem não tem o que fazer, que os problemas psicológicos são sinais de fraqueza. Que falta vontade ao depressivo, que falta disciplina à criança que não se ajusta na escola, que o problema da motivação no trabalho é uma questão de gente que não quer nada com a hora do Brasil. Basta perguntar a cada uma dessas pessoas que sofre se seus problemas são reais ou imaginários, se eles existem de fato ou se são invenções, e você perceberá o papel e a importância do profissional de Psicologia para a Sociedade.

É por isso que, neste dia, quero saudar todos àqueles que nos mais diversos espaços de atuação contribuem para a melhoria da qualidade de vida da nossa população e para a superação dos problemas concretos que enfrentamos na família, na escola, no trabalho, na clínica, na saúde, na assistência, na segurança… Parabéns aos Psicólogos no seu dia!

14 de agosto de 2016, 18:41

COLUNISTAS Fortalecer a Profissão

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Este ano Agosto trouxe consigo a febre Pokemon Go e as Olímpiadas. Como já tem muita gente falando dessas coisas, eu irei focar em outro evento importante deste mês: as eleições para o sistema Conselhos de Psicologia (Regionais e Federal). Três nos atrás eu manifestei meu apoio e voto à chapa do Fortalecer a Profissão. Na época, grupo de oposição no Conselho Federal de Psicologia. Como na abertura da Olimpíada deste ano, Atena Niké esboçou um leve sorriso e esse grupo foi eleito.

Entretanto, o Fortalecer não tinha ema estrutura organizada, era apenas um coletivo de pessoas que se reuniu para enfrentar um partido que havia se encastelado no poder já há muitos anos e que geria os destinos da Psicologia com base em uma visão bastante parcial da nossa profissão, tanto em termos de práticas, quanto em relação à aportes teóricos e metodológicos fator especialmente importante em uma profissão cuja marca distintiva desde a sua criação tem sido a pluralidade. Precisamos reconhecer que existem méritos inegáveis nesse grupo, mas os defeitos eram e continuam sendo insuportáveis, a começar pela desqualificação de tudo aquilo que seja contrário à sua visão de mundo: clinica Individual, psicoterapia? Elitista! Psicologia Organizacional e do Trabalho? Vendida ao Capitalismo! Escolar? Quer disciplinar e normalizar os estudantes! Jurídica? Nem se fala!…e por ai vai.

Já estou me desviando, deixem-me retomar o fio da meada. O fortalecer é uma força em construção que caminha na busca da maior organização e de condições concretas para o avanço da Psicologia (ciência e profissão) e de melhores condições de trabalho para todos os profissionais. Ganhamos o Federal, mas ficamos isolados, pois não havia presença nos conselhos regionais. O Sistema conselhos tem uma estrutura colegiada e várias decisões são tomadas de forma coletiva com a participação direta dos regionais. Assim, boa parte das ações desenvolvidas nos últimos anos encontraram feroz resistência e oposição.

Apesar das dificuldades, uma pauta positiva foi implantada! Maior transparência na gestão dos recursos, maior comunicação com os profissionais inscritos no Conselho com a criação de vários canais distintos de comunicação, maior envolvimento e participação das sociedades científicas da Psicologia, melhoria na gestão interna do próprio conselho, diálogo permanente com os regionais, ampliação dos espaços políticos da Psicologia, defesa de importantes bandeiras como piso salarial, revisão da tabela de honorários, jornada de trabalho, oposição ao ato médico, universalização do voto pela internet…

Nas eleições deste ano o quadro político se modificou. Novas forças se apresentam, o contexto político e social que envolvem nossa atuação profissional se transformou (deteriorou?) fortemente. Alguns desafios permanecem, mas novos se apresentam! O fortalecer se propõe a enfrenta-los atuando ao longo de três eixos principais: 1) focar sua ação no exercício do profissional de Psicologia; 2) fortalecer a ação junto à sociedade; 3) encampar uma reforma política, jurídica e tributária no sistema conselhos de Psicologia de modo a diminuir as desigualdades, a dependência e a fragilidade dos pequenos conselhos regionais e ampliar a participação dos profissionais da Psicologia nas decisões da autarquia.

Eu continuo acreditando nessas bandeiras e nas pessoas que as carregam, e é pelas razões acima que, no próximo dia 27 de Agosto, dia do(a) Psicólogo(a), eu voto com a atual gestão do Conselho Federal de Psicologia para FORTALECER A PROFISSÃO.

1 de agosto de 2016, 10:00

COLUNISTAS Nem tanto

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Temos uma tendência a considerar que pessoas comprometidas são importantes para a organização. E são mesmo! Afinal, em função de sua identificação com valores organizacionais elas tendem a desenvolver vínculos afetivos muito fortes que favorecem o aparecimento de um conjunto de comportamentos desejados pela organização como, por exemplo, aqueles relacionados ao esforço discricionário (aquilo que o empregado realiza voluntariamente e que não faz parte do seu conjunto de tarefas).  Muitos dos modelos mais atuais de gestão de pessoas propõem, justamente, a adoção de um conjunto de práticas que tem como objetivo gerar altos graus de comprometimento do trabalhador com a organização, via pela qual seria possível alcançar altos padrões de desempenho.

Entretanto, ainda que esses modelos e práticas façam sentido (prático e teórico), tenho visto algumas situações onde essa grande identificação não produz necessariamente resultados positivos, mas sim uma série de comportamentos disfuncionais que minam a capacidade da organização de crescer e de responder às demandas e pressões do seus ambientes internos e externos.

Um dia desses fui com minha equipe atender a solicitação de um amigo que pedia um diagnóstico de problemas e uma proposta de intervenção para um órgão do qual ele fazia parte já há muitos anos tendo, inclusive, exercido inúmeras vezes a direção geral. Agora já na boca da aposentadoria, ele buscava deixar um legado (palavra da moda) na forma de solução de vários problemas. O pedido era padrão, o órgão pequeno, a disposição do dirigente grande e havia um reconhecimento por parte dos funcionários da necessidade de ação. Ou seja, tudo apontava para um desfecho rápido e feliz.

A primeira parte do trabalho transcorreu como nos livros. Acesso aberto a toda organização, entrevistas individuais com chefes de diversos níveis e várias entrevistas em grupo com funcionários dos diversos setores. Relatório de feedback apresentado e discutido de forma coletiva e proposta de encaminhamento aprovada sem restrições. Uma das primeiras ações propostas consistia em um trabalho de desenvolvimento gerencial que reunia chefes dos diversos níveis hierárquicos com o objetivo de criar proximidade, cumplicidade, troca, um sentimento de equipe no grupo de gestão, algo que estava totalmente alinhada com o espírito participativo que a organização diz incentivar. Em função dessa atividade, o tal grupo gestor passou a se reunir semanalmente para discutir problemas e encaminhar soluções. Ai começaram os problemas…

Aliás, bote problema nisso. Uma parte das dificuldades enfrentadas podia ser creditada a ao rompimento da inércia organizacional. Dificuldades varridas e escondidas embaixo do tapete de repente emergiram, mas isso não explicava tudo. Para nossa surpresa, parte significativa das dificuldades enfrentadas parecia derivar de uma ação de sabotagem levada a cabo dirigente que havia nos convidado para a intervenção. Ele simplesmente parecia não aceitar o protagonismo dos outros membros de sua equipe passando a desautorizar e desqualificar de forma sistemática as pessoas e qualquer tipo de ação cuja iniciativa não partisse diretamente dele ou estivesse sob seu total controle. A explicação era sempre a mesma: eles não entendem como isso funciona, não sabem o que significa trabalhar aqui, eu estou aqui desde sempre…Só faltou dizer, esse órgão sou eu!

Ao longo do processo ficou claro que o grau de identificação do gestor com sua organização era tão grande que ações “não autorizadas” eram vistas e tratadas como uma ameaça direta a sua sobrevivência (dele gestor e da organização). O pior de tudo, é que ele tinha a plena convicção de que estava fazendo o melhor!

25 de julho de 2016, 12:00

COLUNISTAS O termo que falta….

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Quando nos voltamos para o debate político atual é possível percebermos que as principais soluções propostas para os impasses que enfrentamos são construídas em torno de dois polos principais: de um lado encontramos aqueles que dizem que a saída se dará por mais Estado. Do outro lado temos os que acreditam que a opção é o mercado. Estado e mercado funcionando plena a adequadamente são essenciais, mas confesso que essa discussão me produz um incomodo e fico sempre com a impressão de que falta algo que equilibre (e de certa forma qualifique) essa equação.

Essa semana, ainda estou sob o impacto da participação no VII Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho (VII CBPOT) que foi realizado na semana passada, em Brasília. Maior e mais importante evento de minha área de atuação profissional, o congresso foi um sucesso absoluto, tanto do ponto de vista de organização quanto em função da qualidade das atividades apresentadas.  Como membro da sociedade científica que promoveu o evento, tive a oportunidade de acompanhar de perto todas as atividades das pessoas e equipes relacionadas com a sua organização. Foram dois anos de intensa atividade e dedicação.

Em condições normais de temperatura e pressão, eu tenderia a avaliar o congresso (ou qualquer outro evento) como uma atividade científica, pura e simplesmente, mas este ano, talvez pela posição que ocupo, talvez pelo clima político em que vivemos, um aspecto novo chamou minha atenção: o congresso como a materialização dos esforços de um segmento da sociedade cível organizada, nesse caso específico, da Associação Brasileira de Psicologia organizacional e do Trabalho (SBPOT) que, além do congresso, criou e mantem uma revista científica que, por sua vez, para ser sustentada se vale de recursos de royalties da venda de conjunto de livros publicados por alguns de seus membros. Entre estes livros encontram-se alguns best sellers da área nos últimos dez anos, livros que tem sido responsáveis diretos pela formação de inúmeros profissionais!!!!

O envolvimento na associação chamou minha atenção para o esforço, a dedicação, o engajamento e, mais importante de tudo, os resultados que podem ser produzidos quando um grupo de pessoas resolve livre e espontaneamente se associar em torno de um propósito comum. É interessante ver como esse tipo de empreendimento cresce de forma orgânica, de baixo para cima, baseado relações de amor, respeito e responsabilidade, estabelecendo relações duradouras capazes de atribuir aos seus membros um conjunto de vantagens (específicas) que se materializam na forma de redes de relacionamento, conhecimentos, habilidades específicas e boa vontade. Estar voluntariamente nesse tipo de associação, participar de algo maior que o indivíduo, colaborar na construção de algo no qual você acredita é fonte de orgulho, satisfação pessoal, mas também de divertimento! A livre associação não se constrói sob o poder do Estado, nem serve ao interesse do capital. Ele se organiza na base da solidariedade entre os indivíduos e favorece a coesão social.

Hoje acredito fortemente que essa equação que busca soluções para os graves problemas que enfrentamos somente estará adequadamente balanceada quando o termo sociedade civil livremente organizada estiver presente!

4 de julho de 2016, 14:00

COLUNISTAS É possível?

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Na boa, está muito difícil ser feliz no Brasil de hoje. Escolha a área e verá que os números da profunda crise na qual estamos atolados crise são cada vez mais escandalosos: desemprego, déficit, endividamento das famílias, violência nas suas múltiplas formas, dengue, zika, chikungunya. Como se isso tudo não bastasse a crise levou ainda ao estrangulamento de vários estados que já não conseguem manter seus serviços públicos de forma adequada, chegando ao ponto de não conseguirem sequer honrar suas folhas de pagamento…

Como se isso tudo não fosse suficiente estamos assistindo a uma sucessão de escândalos. Cada um mais escandaloso dos que os outros. Só esta semana tivemos pelo menos quatro operações: custo Brasil, que apura desvio de recursos do dinheiro dos velhinhos no âmbito do Ministério do Planejamento; boca livre, voltada para apuração de fraudes na Lei Rouanet, com forte indicação de conivência, falha grave ou omissão do Ministério da Cultura; Saqueador, que apura um esquema de desvio de recursos públicos semelhantes ao Petrolão, mas operado pela construtora Delta – já conhecida de outros escândalos de superfaturamento; e Sepsis (de septicemia- infecção generalizada do organismo que pode levar a falência múltipla dos órgãos e consequentemente à morte do paciente!) que tem como foco o esquema e as articulações que  envolvem o presidente afastado da Câmara.

Se eu fosse chegado a teorias conspiratórias diria que, em função dos enormes problemas que estamos enfrentando, tudo isso só pode ser parte de algum plano diabólico dos países imperialistas do norte ou, quem sabe, da Hidra (ver a Marvel para referência), para nos dominar. Eles perceberam que o Brasil potência ameaçava as hegemonias estabelecidas pelo protagonismo na instalação de uma nova ordem mundial. Chegaria até mesmo a pensar ser capaz de haver alguma referência a isso nos Protocolos do Sião…(veja no google). Entretanto, cético e pessimista, mesmo reconhecendo que forças ocultas poderosas operam ativamente contra interesses nacionais, não consigo descartar dose significativa de incompetência, populismo e corrupção formando o núcleo da raiz principal dos males que nos afligem.

O pior, é que neste ponto você olha para um lado e outro em busca de uma solução, uma alternativa e não encontra.  A economia vai melhorar? Um dia, talvez, mas nós precisamos pagar as contas do final do mês. Temos alternativas políticas capazes de construir uma saída para os nossos problemas? É possível, mas ao que tudo indica ninguém sobreviverá à lava a jato e a tal renovação ainda não deu as caras por aqui. A violência diminuirá? Já isso não sabemos, mas parece que se acontecer será de forma espontânea. Pleno emprego, ocupação de áreas de risco, expansão da rede de serviços públicos e dos programas de assistência parece não terem produzido efeito. É possível ser bem sucedido e prosperar sem fazer parte de algum esquema ou sem ser achacado por quem deveria lhe proteger? L…

Sei não, mas tudo indica que caminhamos a passos largos para mais uma década perdida. Pois, me diga: é possível ser feliz no Brasil de hoje?

27 de junho de 2016, 09:00

COLUNISTAS Caos Organizado

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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A racionalidade foi (e ainda é) o principal instrumento de domínio do homem sobre a natureza. Moldamos o mundo à nossa imagem e semelhança separando, classificando, organizando, reduzindo, dominando. Essa estratégia (alguns preferirão a palavra método) é bastante eficaz. Ela nos deu a maior parte do conforto que nossa sociedade experimenta, dos antibióticos ao telefone celular. Do avião ao micro ondas. Do velcro às viagens espaciais. Força tão poderosa, a racionalidade não se constrangeu às tecnologia e às ciências e invadiu nosso cotidiano. Boa parte das explicações sobre o comportamento humano têm um pressuposto racional. E como não podia deixar de ser, o contexto de trabalho não ficou imune a essa forma de ver e atuar sobre o mundo.

Na organização do trabalho o auge da racionalidade se deu com a emergência da administração científica, o Taylorismo, e na organização da produção com a linha de montagem automatizada da Ford. Duas poderosas imagens são normalmente utilizadas como forma de ilustração desses princípios de organização: a máquina, como metáfora da organização, composta por diversas partes interconectadas com funções específicas; e a do maestro que conduz a orquestra, para ilustrar a ação do gestor e da equipe de trabalho. Aqui a lógica é a mesma, um mecanismo de coordenação central que conduz uma atividade altamente organizada, na qual cada indivíduo tem uma função específica e bem determinada, que contribui para o todo.

Apesar do grande sucesso na condução de vários aspectos da ação humana, o recurso a uma ação baseada exclusivamente na racionalidade sempre mostrou as suas limitações. A emergência de um novo paradigma nas ciências exatas abriu as portas dos estudos gerenciais para a complexidade com importantes desdobramentos na forma de conceber o homem, o trabalho e a organização.

Na teoria (e em muitos lugares, também na prática) a imagem do maestro e da orquestra foi substituída pela improvisação do grupo de jazz; a flexibilidade impôs a desestruturação da linha de montagem que passa a se organizar na forma de células e grupos semi autônomos; e a metáfora da máquina foi substituída pela do organismo, que se adapta e evolui em função de variações no contexto.

Entretanto, as visões e concepções de formas tradicionais de gestão ainda estão presentes no nosso cotidiano e são largamente difundidas nas escolas de gestão e em diversos manuais. Não é por acaso é que das primeiras coisas que se aprende estão as cinco funções (racionais) da gestão: planejamento, organização, direção controle e coordenação. Até que no papel isso funciona bem, mas na prática…há controvérsias!

Uma das razões dessa resistência de concepções tradicionais de gestão pode ser encontrada em nossa própria em nossa dificuldade de conviver com a incerteza, a irracionalidade, a complexidade e as emoções. Precisamos de rotina. Temos dificuldade de convivência com a ambiguidade, queremos razões claras para ações e comportamentos e lidamos mal com comportamentos que divergem do padrão. Por outro lado, práticas tradicionais ainda se mostram efetivas em inúmeros contextos e práticas modernas costumam são de difícil aplicação. E por ai vão se acumulando tensões e contradições.

Qual é a solução?  Não sei, mas me parece que quanto mais rapidamente aceitarmos a ideia de que a imagem que melhor descreve a organização e o trabalho parece ser a do caos organizado, mais rapidamente teremos respostas aos problemas que nos afligem.

24 de maio de 2016, 10:06

COLUNISTAS Danou-se

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Já faz algum tempo que venho me dedicando ao estudo do trabalho do gestor e o impacto de suas ações, ou inações, sobre a equipe de trabalho. Nesse campo é comum vermos a utilização do termo liderança que tem um ar, digamos, mais sexy, e que normalmente é apresentado associado a qualidades positiva, especialmente quando comparado ao termo gestor, que tem sido sistematicamente associado a conceitos negativos. E como meu interesse foca sobre o trabalho dos que ocupam posições formais na hierarquia das organizações e não sobre líderes de grupos informais, acho que falar o sobre o gestor, sobre o chefe evita confusões desnecessárias. Além do mais, me alinho ao pensamento de um teórico americano na área que nos lembra de que gestão sem liderança é vazia e liderança sem gestão é prepotente incentiva a hubrys (dicionário!). Precisamos de gestores (chefes) que também sejam bons líderes.

É neste contexto que, dia desses, eu lia um trabalho de uns pesquisadores suecos quando uma expressão chamou a minha atenção. Ele apresentava e discutia um caso real acontecido em uma empresa de comunicação na qual o gestor encontrava dificuldade de lidar com o comportamento de um funcionário específico. O chefe desse gestor já havia até sugerido a transferência ou demissão do funcionário problema, uma vez que diversas tentativas de resolução e acomodação já haviam sido feitas sem resultado. Neste ponto o autor do trabalho levantava a seguinte questão: quanto tempo mais o gestor deveria esperar antes que a sugestão de seu chefe se impusesse como uma necessidade? Posto de outra forma, e foi isso que chamou a minha atenção, se a tolerância com o comportamento disruptivo de um funcionário danifica o ambiente de trabalho atingindo outros membros da equipe, qual o nível de dano que pode ser tolerado antes que uma decisão seja tomada?

Não foi a ideia de que problemas com um funcionário podem afetar toda uma equipe. Também não foi a ideia de que a ação/inação do um gestor tem consequências sobre os funcionários. Isso é coisa de primeiro dia de aula. Para mim o insight se deu com as palavras dano/danifica.  Normalmente utilizamos palavras e expressões como prejudicar, influir no clima, ter consequências, afetar. Entretanto, dano remete a uma materialização do problema, introduz uma dramaticidade na consequência da ação do gestor que me causou profundo impacto. Só consegui pensar em redução de danos. E fazer associações e relações diretas com o que vejo no meu cotidiano, onde acompanho gestores de diversos níveis e percebo, a partir de um olhar externo, os danos que maus gestores causam.

E curioso, hoje acho que o maior dano que pode ser causado a uma equipe qualquer é aquele que advém da inação do gestor. Ela gera um sentimento de abandono que produz como comportamento adaptativa um afastamento do trabalho e a perda do sentimento de grupo que vai sendo sistematicamente substituído e capturado por interesses individuais.  Quando se chega neste ponto, a palavra que melhor descreve o que aconteceu com o grupo é, de fato, dano! Danou-se.

28 de abril de 2016, 16:45

COLUNISTAS Maslow

Adriano Peixoto

Coluna: Relações de Trabalho

Adriano de Lemos Alves Peixoto é PHD, administrador e psicólogo, mestre em Administração pela UFBA e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffiel (Inglaterra). Atualmente é pesquisador de pós-doutorado associado ao Instituto de Psicologia da UFBA e escreve para o Política Livre às quintas-feiras.

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Nesses tempos nos quais todos nos tornamos especialistas de teses complexas em assuntos que não dominamos, mas que defendemos e expomos como certezas cristalinas e inquestionáveis, o retorno às zonas de conforto é quase que uma necessidade para a manutenção do equilíbrio psicológico. Foi nesse espírito que ontem me peguei refletindo sobre o trabalho de um Psicólogo americano, Abraham Maslow, e sua obra mais conhecida, uma teoria sobre a motivação humana, a chamada hierarquia de necessidades.

De forma resumida, a teoria propõe que a motivação humana emerge da satisfação de determinadas necessidades. Essas necessidades são hierarquizadas e costumam ser representadas no formato de uma pirâmide na qual a base representa necessidades mais fundamentais que precisam ser satisfeitas antes que outras necessidades que estão colocados nas partes superiores possam servir como motivadores. Elas estão agrupadas em cinco conjuntos de motivadores principais: na base temos as necessidades fisiológicas (água, comida, sexo, sono…), logo acima encontramos as necessidades de segurança (físicas, do corpo, saúde…), seguidas pelo amor/pertencimento (amizade, família…), estima (confiança, respeito pelos outros…) e auto realização (criatividade, espontaneidade, transcendência…).

A força dessa teoria é a sua simplicidade e facilidade de compreensão. É possível até mesmo dizer que ela é intuitiva, uma vez que temos a impressão de que podemos observar aquilo que ela descreve no nosso cotidiano. Muitas políticas públicas e ações de caridade parecem se orientar pelos elementos que a teoria propõe, mesmo sabendo que seus autores não têm um conhecimento específico sobre ela.

Entretanto (xiiiii!!!!!!), e essa foi a reflexão, a teoria não encontra suporte nas inúmeras pesquisas que, ao longo do tempo, buscam demonstrar a sua validade. As pesquisas não conseguem identificar as cinco categorias propostas e muito menos a existência de uma hierarquia entre necessidades. Indo mais longe, vários críticos têm argumentam que as necessidades indicadas são altamente etnocêntricas, baseada em uma visão cultural específica e, portanto, limitada da realidade. Além disso, existem evidências empíricas (dados de pesquisa) que mostram que as necessidades variam de acordo com o contexto e o momento em que as pessoas vivem. Em resumo, existem evidências mais do que suficientes que justificam a sua NÃO utilização tanto em contexto educacional quanto no mundo do trabalho.

Apesar disso tudo, a teoria continua sendo largamente ensinada nos cursos de administração e fartamente reproduzida na literatura gerencial de aeroporto. Essa situação coloca em relevo duas questões fundamentais: um descompasso entre teoria e prática, que é mais comum do que gostaríamos; e uma tendência quase religiosa a nos apegarmos a ideias e crenças mesmo quando ela não tem base científica que as sustentem. Tomando esse exemplo como ilustração de outras situações parecidas, podemos afirmar que parte importante do conhecimento sobre o qual construímos e ao redor do qual organizamos nossas ações e intervenções no contexto de trabalho, está erguida sobre bases falsas. Não precisa ser nenhum especialista na área para avaliar quais as repercussões disso no fazer organizacional. Pois, o fato de uma ideia parecer óbvia e ser repetida por um grande número de pessoas não faz com que ela se torne verdadeira.