3 de agosto de 2018, 18:59

COLUNISTASO avesso, do avesso, do avesso, do avesso

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é autor do livro Política, Economia e Questões Raciais - A conjuntura e os pontos fora da curva, 2014-2016, ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade Ravial, economista do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Com a devida licença ao poeta, o título deste artigo visa registrar a única ilustração narrativa que nos vem à mente diante do cenário eleitoral que se avizinha. As opções que estão sendo disponibilizadas para a escolha do povo brasileiro nessa eleição de 2018 são as piores possíveis.

Após o desastre do segundo governo Dilma, seguido do golpe jurídico parlamentar de 2016 e da tragédia anunciada do desqualificado governo Temer, a nossa esperança era de que as lideranças partidárias e suas respectivas correias de transmissão na gestão das principais agremiações políticas brasileiras, tivessem o juízo de, ao menos, se organizarem para a disputa com o objetivo de corrigir as profundas distorções que foram criadas pelas contradições dos partidos de centro-esquerda que se revezaram no poder após a redemocratização.

Infelizmente, a sanha do poder pelo poder que tem pautado as disputas, não só tem anunciado o provável aprofundamento do fosso que separa as aparentes convicções políticas ideológicas dos discursos e a prática dos governos quando eleitos, mas principalmente, tem demonstrado de forma inequívoca que, tal como os atletas dos times de futebol motivados pela força da grana, as diferentes cores dos uniformes, as mascotes e as siglas desses partidos são apenas símbolos esvaziados de conteúdos verdadeiramente doutrinários os quais deveriam fazer a diferença quando da ascensão ao poder e o exercício de direção do aparelho de estado nos seus diversos níveis.

Após as convenções partidárias e a há poucos dias do início da campanha propriamente dita, é emblemático notar que os verdadeiros players da disputa só conseguiram indicar o candidato ou candidata a vice na 25ª hora para expiração do prazo legal e os que o fizeram antecipadamente, tiveram que recorrer aos reservas dos reservas para dar conta da composição mínima da sua legenda.

Mais instigante ainda é notar que os pré-candidatos que melhor pontuam nas pesquisas de intenção de voto protagonizam dramas muito particulares. Lula, o mais importante deles, está preso há mais de cem dias e todas as indicações institucionais estão dando como certa a sua exclusão do processo. Exceto, obviamente, para o “Show de Truman” que vem sendo cansativamente narrado nos discursos oficiais e idealizados por quem de direito, esta eleição não deverá ter Lula como uma das opções para assumir a presidência da república em 2019.

Bolsonaro, o mais evidente  “aborto de coruja” que vem se assanhando como opção eleitoral – fruto do total desarranjo político-institucional que vem se abatendo sobre o país nos últimos anos – vem paulatina e merecidamente se isolando do mundo da política real e a partir da campanha eleitoral propriamente dita, deverá se restringir ao seu mundo fantasioso, cada dia mais inundado pelo volume de dejetos que saem de sua boca, na companhia de seu exército de seres que mais se assemelham aos caminhantes brancos de “Game of Thrones”, do que qualquer coisa que poderíamos chamar, racionalmente, de um grupo político merecedor do menor nível de respeito. No mais, o que resta é a mais pura incógnita.

Nesse contexto, o que devemos estar responsavelmente atentos é que o impeachment de Dilma, o desastroso governo Temer, a produção de lixos tóxicos como as ideias ventiladas por Jair Bolsonaro, dentre outras aberrações que vem se apresentando nesses últimos anos, tem sido fruto em grande medida, das paradoxais e contraditórias escolhas políticas feitas por aqueles que, quando no exercício do poder, substituíram a régua e o compasso obtidos pelas suas respectivas histórias de vida, legados de luta e pela confiança de ampla parcela do povo brasileiro que, democraticamente os elegeram para promover transformações substantivas no campo socioeconômico e da política, por uma espécie de “barema do mal” voltado exclusivamente para a sua própria manutenção na burocracia dos governos e demais estruturas dos poderes da república, via de regra, regada a acordos espúrios no âmbito institucional, quando não, nos puros e simples mecanismos da velha conhecida corrupção brasileira.

Foram esses os verdadeiros condicionantes que explicam os motivos porque após 32 anos de regime democrático, não se mostraram suficientes para a realização das reformas que verdadeiramente poderiam tirar o nosso país, de uma vez por todas, do lugar da nação de maior desigualdade e injustiça dentre aquelas que possuíram a mesma trajetória social e econômica após os últimos 200 anos. O fato é que não existe justificativa plausível para que depois de mais de três décadas de diversos governos de viés social-democrata, não tenham sido realizadas, as reformas política, tributaria e financeira voltadas para nos oportunizar chegar ao século XXI com praticas sociais, econômicas e político-institucionais mais distantes daquelas que remontam ao século XVI.

O maior exemplo disso é que mesmo depois de toda a crise que vem passando o país, no sentido mais geral, e especificamente devido à falência completa da representatividade da grande maioria das lideranças políticas e seus respectivos partidos, o conteúdo ideológico dos chamados palanques nacionais e estaduais, observado a partir da comparação dos arranjos partidários ora disponível, demonstra que esses tipos de bichos, realmente, são muitos mais iguais do que a falácia dos seus discursos buscam cinicamente querer nos fazer acreditar.

Raposas, galinhas, lobos, ovelhas e hienas se misturam de uma forma tanto frenética quanto promiscua na busca de suas respectivas unidades de negócios que eles insistem em chamar de mandatos. Daqui de onde observamos esse teatro do absurdo, mais do que perversamente emblemático, chega a ser aviltante para a inteligência e o bom senso de qualquer cidadão brasileiro razoavelmente alfabetizado na Grande Política ter que observar de forma passiva arranjos eleitorais que combinam falsos algozes com pseudovitimas – e vice-versa – num tenebroso mosaico de conveniências majoritariamente ilegítimas cujo resultante final será, mais uma vez, muito nociva para a maioria do povo brasileiro.

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