13 de novembro de 2017, 14:39

COLUNISTASLewis Hamilton

Elias de Oliveira Sampaio

Coluna: Políticas Públicas

Elias de Oliveira Sampaio é autor do livro Política, Economia e Questões Raciais - A conjuntura e os pontos fora da curva, 2014-2016, ex-secretário estadual de Promoção da Igualdade Ravial, economista do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, doutor em Administração Pública e mestre em Economia pela Universidade Federal da Bahia - UFBA, professor colaborador do Programa de Gestão das Organizações (PGO) da Universidade do Estado da Bahia - UNEB. Foi diretor-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia - PRODEB (2008 – 2011), vice-presidente de Tecnologia da Associação Brasileira de Entidades de TIC (ABEP) 2010 – 2011, além de professor universitário nas áreas de Teoria Econômica, Desenvolvimento Regional, Administração Pública e Políticas Públicas. Elias Sampaio escreve uma coluna semanal neste Política Livre às quartas-feiras.

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Neste final de semana tivemos mais um grande prêmio do Brasil de fórmula 1, a principal categoria do automobilismo mundial. O grande diferencial deste ano, em Interlagos, foi que pela primeira vez na história desse esporte, tivemos um piloto tetracampeão mundial correndo no circuito paulista que muito se assemelha a qualquer jovem negro da periferia de São Paulo e de outras grandes cidades brasileiras.

Britânico, de família humilde, filho de mãe branca e pai negro, com um irmão portador de paralisia cerebral que o acompanha na maioria das provas, o piloto da equipe Mercedes chegou mais uma vez ao circuito que há nove anos começou a consagrá-lo como um dos maiores vencedores de todos os tempos do esporte mais representativo da elite financeira e da tecnologia automotiva do planeta, superando lendas mundiais como os tricampeões brasileiros Piquet e Senna e o histórico bicampeão Fitipaldi.

Saindo dos boxes devido a uma batida no treino de classificação, Hamilton deu um show de pilotagem – lembrando os velhos tempos de Ayrton Senna – ao chegar em quarto lugar, pressionando Kimi Raikonen, o terceiro colocado e ofuscando a vitória do quase vice-campeão mundial Sebastian Vetel e a despedida das pistas de Felipe Massa.

Primeiro súdito da Rainha Elisabeth II a superar o tricampeonato e tendo a sua frente só argentino Fangio (penta) e alemão Schumacher (hepta) – e ao seu lado, Prost e Vettel – Lewis Hamilton não deve e não pode ser visto apenas como mais um desportista de sucesso ou campeão de F1. A sua presença nesse espaço privilegiado do mais capitalista dos esportes mundiais é algo que precisa ser observado cuidadosamente tanto pelas diversas mensagens diretas que a sua imagem de jovem negro espalha para mundo, em tempo real a cada final de semana de grand prix, quanto pelas mensagens subliminares que são formadoras (no curto prazo) e podem ser transformadoras (no médio e longo prazos) de uma nova forma de ver, saber e sentir as pessoas, independentemente de suas características fenotípicas ou étnicas.

A sua cara preta, bonita e vitoriosa que na grande maioria das vezes tem se posicionado no topo do pódio, é algo de revolucionário se considerarmos o efeito disso para o lugar que tal competição representa no imaginário das pessoas e das sociedades espalhadas pelo nosso complexo planeta. Para o Brasil, em particular, ele é um exemplo inequívoco de que quando são dadas as devidas condições materiais e objetivas, todas as pessoas são capazes de levar ao máximo as suas potencialidades intelectuais e físicas, independente de sua cor, credo e condição social.

Para além de sua exitosa trajetória que vem pulverizando vários recordes mundiais, o fato que queremos chamar atenção sobre o fenômeno Lewis Hamilton é que, mesmo fazendo parte de uma das minorias populacionais de seu país  (apenas 5% do total da população inglesa são negros) e escolhendo uma profissão das mais disputadas pela nata da elite social dos países desenvolvidos, a sua origem racial e social não foi um impedimento para o seu sucesso. Por outro lado, não queremos passar o entendimento de que a F1 é um lugar muito diferente daqueles reconhecidamente racistas que, via de regra, dominam os esportes mais valorizados internacionalmente.

Mas, como explicar a existência de Lewis Hamilton neste espaço? Seria ele apenas um ponto fora da curva?

Talvez, mas de onde observamos, não há como negar que tanto os países que dominam a F1 – que são os mesmos que dominam mundialmente os esportes, as tecnologias e a economia em geral – como o particular ambiente clean e extremamente frio daquela competição, conseguiram, mesmo que de forma inconsciente, absorver a ideia de que a diversidade é um elemento crucial para o desenvolvimento das potencialidades humanas o que, a rigor, é o que tem dado maior eficácia em tudo que o homem fez desde o início do processo civilizatório.

Sem dúvida, para além dos diversos idiomas que se revezam nos diálogos travados dentro do paddock mediados por uma gama de equipamentos oriundos das mais diversas origens ou partes do mundo, a presença de um negro ocupando um lugar de destaque há dez anos consecutivos, é algo muito importante e revelador de um processo que pode ser ainda mais aprofundado. Com efeito, o caso Hamilton está para a fórmula 1 assim como a metáfora do cisne negro está para o debate metodológico em torno daquelas discussões sobre as “certezas absolutas” que são transformadas em pó quando surge um único evento que quebra diversos “paradigmas” pretensamente consolidados, muitos dos quais, pautados pela falta de conhecimento ou por puro e simples preconceito.

No Brasil, por exemplo, foi nítida a resistência de boa parte da mídia especializada em reconhecê-lo, nesses dez anos, como alguém do top de Ayrton Senna e de Nelson Piquet e piloto de qualidade infinitamente superior aos meninos paulistas de origem italiana que nunca conseguiram ser nada mais importante do que estepes de luxo para a Ferrari dos bons tempos de Michael Schumacher. Nesse aspecto, tem sido muito emblemático ouvir dos mesmos narradores e comentaristas das transmissões da Globo que, até pouco tempo atrás, insistiam na pecha de que Hamilton era apenas veloz, mas “não parecia ter o equilíbrio mental à altura dos grandes campeões”, que o atual tetracampeão pode ser a opção de torcida para Brasil para o pentacampeonato em 2018 devido à ausência de brasileiros na competição. Por que será?

Como estamos em novembro – mês da consciência negra – nos parece que a lição está muito bem colocada. Agora só nos resta aprender.

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